Os Miseráveis
IV — O convento à luz dos princípios
Enquanto a nós, respeitamos uma ou outra coisa do passado, e poupamo-lo todo, contanto que ele esteja pelo que realmente é, uma coisa morta; pois se quer ser uma coisa viva, nesse caso atacamo-lo e fazemos esforços para o matar.
Supers ções, hipocrisia, bea ce, prejuízos, todas estas larvas, apesar de larvas, têm apego à vida; têm dentes e unhas no seu fumo; é necessário arcar com elas peito a peito e fazer-lhes a guerra, mas guerra sem tréguas; pois é uma das fatalidades da humanidade ser condenada a combater eternamente com fantasmas. É sempre di cil agarrar a sombra pela garganta e derribá-la.
Um convento em França, à luz do meio-dia do século XIX, é um colégio de mochos, fazendo frente ao dia. Um claustro, em flagrante delito de asce smo no meio da pátria dos cidadãos de 89, de 1830 e 1848, Roma dilatando-se por Paris, é um anacronismo. Em tempos normais, para dissolver um anacronismo e fazê-lo desaparecer de todo, basta fazer-lhe soletrar uma data. Porém nós não estamos em tempos normais.
Combatamos, portanto.
Combatamos, mas dis ngamos. O caracterís co da verdade é não ser nunca excessiva.
Que necessidade tem ela de exagerar? Há coisas que é necessário destruir e coisas que devem simplesmente esclarecer-se e olhar-se. Que força não tem o exame benévolo e grave! Não apliquemos a chama onde a luz basta.
Na hipótese, pois, do século XIX somos contrários, em tese geral, às clausuras ascé cas, entre todos os povos, tanto na Ásia como na Europa, tanto na Índia como na Turquia. Quem diz convento, diz pântano. É evidente a sua putrefacção, insalubre a sua estagnação, a sua fermentação dá origem a febre entre os povos, es olando-os; a sua mul plicação torna-se uma praga do Egipto. Não podemos lembrar-nos sem horror desses países em que os faquires, os bonzos, os santões, os caloiros, os marabutos, os talapões e os dervixes pululam como vermes.