Os Miseráveis
IV — Formas de sofrimento durante o sono
«Conservar-se no paraíso e tornar-se aí mesmo demónio! Voltar para o inferno e tornar-se nele anjo! O que havia de fazer, grande Deus, o que havia de fazer?!»
A tempestade de que se livrara com tanto trabalho, desencadeava-lhe novamente no cérebro. As ideias recomeçavam a confundir-se-lhe e apresentavam-se-lhe com a maquinal estupefacção própria do desespero. O nome de Romainville ocorria-lhe sem cessar ao espírito, com dois versos duma cantiga que ouvira noutro tempo.
Recordava-se de que Romainville era um bosquezinho nas imediações de Paris, onde os jovens namorados iam colher lilases no mês de Abril. Vacilava tanto por dentro como por fora. Caminhava como uma criancinha a quem se larga a mão.
Em certos momentos, lutando com a fadiga, esforçava-se em recobrar a inteligência.
Diligenciava formular pela úl ma vez e defini vamente, o problema sob o qual nha de certo modo caído exausto. Deveria denunciar-se? Deveria calar-se? Não conseguia ver coisa alguma dis ntamente. Os vagos aspectos de todos os raciocínios esboçados pela sua meditação, oscilavam e dissipavam-se sucessivamente como o fumo. O que ele sentia era que, qualquer que fosse a sua úl ma resolução, necessariamente e sem que fosse possível escapar-lhe, morreria nele alguma coisa; que entraria para um sepulcro, tanto pela direita como pela esquerda; que passaria, de todos os modos, por uma agonia, a agonia da sua felicidade, ou da sua virtude.
Todas estas resoluções o nham de novo assaltado. Não estava mais adiantado do que no princípio.
Assim se deba a no meio da angús a aquela desventurada alma. Mil e oitocentos anos antes deste homem desafortunado, nha também o ente misterioso em que se reúnem todas as san dades e sofrimentos da humanidade desviado com a mão, ao sussurrar das oliveiras agitadas pelo vento feroz do infinito, o cálix terrível, que lhe aparecia envolto em sombras e transbordando de trevas nas alturas recamadas de estrelas.
IV — Formas de sofrimento durante o sono
Três horas da manhã acabavam de soar, havendo cinco que daquele modo passeava quase sem interrupção, quando se deixou cair numa cadeira.
Adormeceu e teve um sonho, sonho que, como a maior parte deles, não nha ligação com a situação em que ele se encontrava, senão pelo que quer que era de funesto e pungente, que lhe causou grande impressão. De tal modo o feriu aquele pesadelo, que escreveu mais tarde, e é esta uma das coisas que deixou escritas por sua própria mão.
Julgamo-nos no dever de o transcrever aqui textualmente. Qualquer que ele seja, seria incompleta a história desta noite se o omi ssemos. É a sombria aventura de uma alma doente.
Ei-lo, pois. No sobrescrito, achamos escritas estas palavras: O sonho que eu ve naquela noite.
Encontrava-me numa grande e triste campina, sem erva nem vegetação, parecendo-me que não era nem dia nem noite. Andava a passear com meu irmão, o irmão dos meus anos da infância, esse irmão, em quem, devo dizê-lo, nunca penso, e do qual já quase me não lembro.
Conversávamos, interrompidos às vezes por uma outra pessoa que passava, falando de uma vizinha que vemos noutro tempo, a qual trabalhava sempre com a janela aberta, desde que morava na rua, e, ao mesmo tempo que conversávamos, sen amos frio proveniente daquela janela aberta. Não se via uma só árvore em toda a extensão da campina.
Nisto passou perto de nós um homem, cor de cinza, completamente nu, montado num cavalo cor de terra.
Este homem não nha cabelos; via-se-lhe o crânio, e nele as ramificações azuladas das veias. Traziana mão uma varinha flexível como um vime e pesada como ferro. Este cavaleiro passou por nós e não nos disse nada.
Meu irmão disse-me: «Tomemos pelo carreiro».
Havia ali um carreiro em que se não via um pé de tojo, nem um bocado de musgo. Era tudo cor de terra, mesmo o céu.
Ao cabo de alguns passos dados, como ninguém me respondia, quando eu falava, olhei e vi que meu irmão já não ia a meu lado. Entrei então numa aldeia que avistei, lembrando-me que devia ser
ali Romainville (porque havia de ser Romainville? 4).
A primeira rua em que entrei estava deserta. Entrei noutra. Por detrás do ângulo formado pelas duas ruas estava um homem de pé, encostado à parede.
Perguntei a este homem: «Que terra é esta? Onde estou eu?» O homem não me respondeu. Vi a porta duma casa aberta e entrei. O primeiro quarto estava deserto: entrei no segundo. Por detrás da porta deste quarto, estava outro homem em pé, encostado à parede. Perguntei ao homem: «De quem é esta casa? Onde estou eu?» O homem não deu resposta. A casa nha um jardim. Passei para o jardim, que também estava deserto.
Por detrás da primeira árvore encontrei ainda um homem em pé. Perguntei-lhe: «Que jardim é este?
Onde estou eu?» O homem não respondeu. Percorri a aldeia e conheci que era uma cidade. Todas as ruas estavam desertas e todas as portas abertas. Não passava pelas ruas, não se encontrava nas casas, não passeava no jardim, um único vivente; mas atrás de cada ângulo do muro, atrás de cada porta e de cada árvore estava um homem, de pé, e que não falava. Não se via senão um por cada vez, mas todos eles me viam passar.
Saí da cidade e comecei a percorrer os campos. Passado algum tempo, voltei-me, e vi atrás de mim grande mul dão. Reconheci todos os homens que nha visto na cidade. Tinham umas cabeças extraordinárias; pareciam não se apressar, e contudo andavam mais do que eu. Os seus passos não produziam o mínimo ruído.
Num momento fui alcançado e rodeado por aquela mul dão. Os rostos dos homens que a compunham eram cor de terra.
Então, o primeiro que vira quando entrei na cidade e a quem fizera a primeira pergunta, dirigiu-me a palavra, dizendo-me: «Aonde vai? Porventura não sabe que está morto há muito tempo?»
Abri a boca para responder e vi que não tinha ninguém ao pé de mim.
Madelaine acordou. Estava gelado.
As vidraças da sacada aberta volteavam nos gonzos ao sabor de um vento frio como a aragem da manhã. Apagara-se o lume e a vela estava quase toda gasta. Era ainda noite fechada.
Levantou-se e encaminhou-se para a janela. No céu con nuava a não se ver uma só estrela. Ao chegar à janela, de onde se avistava o pá o da casa e a rua, ressoou-lhe de súbito aos ouvidos um ruído seco e duro, que lhe fez baixar os olhos para o chão, e viu em baixo duas estrelas vermelhas, cujos raios se alongavam e encolhiam extravagantemente no meio das sombras.
Como vesse ainda o pensamento meio submerso na neblina dos sonhos, disse consigo:
— Não as há no céu porque estão agora na terra.
Entretanto, dissipou-se esta perturbação, e um segundo ruído semelhante ao primeiro acabou de o despertar; olhou e reconheceu que as duas estrelas eram as lanternas dum veículo. Era um tilbury puxado por um cavalo branco e pequeno. O ruído que ouvira era produzido pelas ferraduras do cavalo batendo na calçada.
«Que carruagem é esta?» pensou ele. «Quem será tão cedo?»
Neste momento bateram brandamente à porta do quarto. Madelaine estremeceu dos pés à cabeça e gritou com voz terrível:
— Quem está aí?
— Sou eu, senhor maire — responderam de fora.
Madelaine reconheceu a voz da velha porteira.
— Que deseja? — tornou ele.
— Senhor maire, são quase cinco horas da manhã.
— Que tenho eu com isso?
— É que já ali está o cabriolet.
— Qual cabriolet?
— O tilbury.
— Qual tilbury?
— O senhor maire não mandou vir um tilbury?
— Não — disse ele.
— O cocheiro diz que vem procurar o senhor maire.
— Qual cocheiro?
— O do mestre Scaufflaire.
— Scaufflaire?