Os Miseráveis
III — Somas depositadas na casa Laffite
Decididamente aquele homem era um enigma, mas as boas almas, não o podendo decifrar, saíam do embaraço em que se viam, dizendo: «Afinal de contas, não passa de um aventureiro».
Como já se viu, a localidade devia-lhe muito e os pobres deviam-lhe tudo; Madelaine era tão ú l, que fora indispensável que acabassem por lhe render o respeito que lhe era devido, era tão bondoso, que nha sido impossível deixarem de lhe querer bem; os seus operários, especialmente, adoravam-no, adoração que ele recebia com uma espécie de gravidade melancólica.
Depois de se tornar incontestável a sua riqueza, as «pessoas da sociedade» passaram
a cumprimentá-lo, chamando-lhe todos na cidade o senhor Madelaine; contudo, os seus operários e as crianças con nuaram a chamar-lhe senhor Madelaine, sendo isto o que o fazia sorrir de melhor grado. A medida que subia, choviam sobre ele os convites. A
«sociedade» reclamava-o.
As mesquinhas e pretensiosas salas de Montreuil-sur-mer, que, bem entendido, se teriam fechado nos primeiros tempos ao homem, trabalhador, abriram as suas portas de par em par ao milionário, Madelaine, porém, esquivou-se sempre aos convites.
Ainda desta vez as boas almas não puderam conter-se: «É um homem ignorante e de fraca educação. Ninguém sabe de onde veio, e seria incapaz de portar-se com decência entre pessoas de sociedade. Nem ainda se provou que saiba ler».
Quando o viram ganhar dinheiro, disseram: «É um comerciante». Ao vê-lo distribuir o dinheiro que ganhara, bradaram: «É um ambicioso». Quando viram que repelia todas as honras, exclamaram: «É um aventureiro!» E, finalmente, disseram, ao vê-lo fugir esquivo à convivência da sociedade: «É um homem grosseiro!» Em 1820, cinco anos depois da sua chegada a Montreuil-sur-mer, eram já tão notáveis os serviços que prestara à localidade em que se estabelecera e o voto de todo o distrito fora de tal modo unânime, que o rei nomeou-o novamente maire. Tornou a recusar, mas o prefeito resis u à sua recusa, as pessoas notáveis instaram todas com ele para que aceitasse, o povo, mesmo no meio da rua, suplicava-lho; numa palavra, viu-se de tal modo solicitado, que aceitou finalmente.
Notou-se que o que pareceu sobretudo decidi-lo, foi a apóstrofe quase irritada de uma velha mulher do povo, que lhe gritara com mau modo do limiar da sua porta: Um bom maire é muito ú l. Ninguém tem o direito de recuar diante do bem que pode fazer. Foi esta a terceira fase da sua ascensão. O senhor Madelaine nha-se tornado o senhor Madelaine, o senhor Madelaine tornou-se o senhor maire.
III — Somas depositadas na casa Laffite
Era ainda, porém, o mesmo homem bondoso e simples de outro tempo. Tinha os cabelos grisalhos, o olhar grave, a tez morena de um operari’o e o rosto pensa vo de um filósofo. Trazia habitualmente um chapéu de abas largas e uma comprida sobrecasaca de pano grosso, abotoada até ao pescoço. Exercia as suas funções de maire, mas fora disso vivia isolado, convivendo com pouca gente, furtando-se a cumprimentos e troca de finezas, saudando de passagem, esquivando-se rápido, sorrindo para se dispensar de conversar e dava para se dispensar de sorrir. As mulheres quando falavam a seu respeito, exclamavam: «Que grande urso!»
Um dos seus maiores prazeres era passear sozinho pelos campos. Comia sempre só, tendo diante de si um livro aberto em que ao mesmo tempo ia lendo. Tinha a paixão dos livros e possuía uma pequena biblioteca muito bem guarnecida. Os livros são amigos imparciais e fiéis. A medida que a fortuna lhe ia dando mais descanso parecia que o aproveitava para cul var o espírito. Notava-se que desde que residia em Montreuil-sur-mer, a sua linguagem se tornava de ano para ano mais polida e agradável.
Nos seus frequentes passeios, levava às vezes uma espingarda, de que raro se servia, mas quando isso por acaso sucedia, a rava com uma infan lidade de assustar. Nunca
matava um animal inofensivo, nunca atirava a um passarinho.
Conquanto já não fosse novo, dizia-se ser dotado de prodigiosa força. Dava sempre a ajuda do seu braço a quem dele precisava; levantava um cavalo, impelia uma roda atolada e segurava pelas pontas um touro fugido. Quando saía de casa levava sempre os bolsos cheios de dinheiro, mas ao recolher vinha com eles vazios. Se passava por alguma aldeia, as crianças esfarrapadas corriam alegremente atrás dele e rodeavam-no como uma nuvem de mosquitos.
Acreditava-se que aquele homem nha outrora vivido a vida dos campos, porque conhecia toda a qualidade de segredos úteis, com que instruir os camponeses. Explicava-lhes o modo de destruir o morrão dos trigos, regando o celeiro e inundando as fendas do soalho com uma dissolução de Sal comum; a preservá-los do gorgulho, suspendendo por toda a parte, nas paredes e nos tectos, nas pastagens e nas casas, a planta que o afugenta. Sabia «receitas» para ex rpar de um campo o joio, a alforra, a ervilhaca, todas as ervas parasitas nocivas ao trigo. Defendia uma coelheira dos ratos, simplesmente com o cheiro de um pequeno porco da Barbaria, que nela introduzia.
Um dia, estando a observar uns aldeões muito atarefados a arrancar ur gas, olhou para o montão de plantas arrancadas e já secas, dizendo: «Agora já estão inu lizadas.»
Não obstante seriam aproveitáveis se soubessem servir-se delas. Quando a urtiga é nova, a sua folha é um legume excelente; depois de velha, tem filamentos e fibras, como o linho e o cânhamo. O tecido de ur ga é tão bom como o fabricado de linho. Cortada, é excelente para a criação; pisada, é boa para os animais cornígeros. A semente da ur ga misturada na comida do gado faz-lhe o pêlo luzidio, e a raiz misturada com sal produz uma bela cor amarela, além de ser ainda um excelente pasto, que se pode segar duas vezes. E o que exige a ur ga? Um pedaço de terra, nenhum cuidado, nenhuma cultura.