Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 129 de 359

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Os Miseráveis

Livro Sétimo — Parêntesis

Ilogismo de Voltaire, seja dito de passagem, pois que Voltaire defenderia Jesus como defendeu Calas; e, mesmo para os que negam as encarnações sobrenaturais, que representa o crucificado? O sábio assassinado.

No século XIX, a religião sofre uma crise. Os homens esquecem certas coisas e fazem bem, contanto que, esquecendo uma coisa, aprendam outra. Longe o vácuo no coração humano. Fazem-se certas demolições e bom é que se façam, mas com a condição de serem seguidas de novas construções.

Entretanto, estudemos as coisas que já não existem. É necessário conhecê-las, ainda que não seja senão para as evitar. As contrafacções do passado tomam nomes falsos e gostam de chamar-se o futuro. Esta alma do outro mundo, o passado, é atreito a falsificar o seu passaporte. O passado tem um rosto, que é a supers ção, e uma máscara, que é a hipocrisia. Denunciemos-lhe o rosto e arranquemos-lhe a máscara.

Pelo que diz respeito aos conventos, estas sociedades oferecem uma questão complexa, uma questão de civilização que os condena e uma questão de liberdade que os protege.

LIVRO SÉTIMO — PARÊNTESIS

I — O convento considerado como ideia abstracta

Este livro é um drama cujo primeiro personagem é o infinito.

O segundo é o homem.

Sendo assim, visto depararmos com um convento no nosso caminho, era nosso dever penetrar nele. Porquê? Porque o convento que tão próprio é do oriente como do ocidente, da an guidade como dos tempos modernos, tanto do paganismo, do budismo, do maome smo como do cris anismo, é um dos aparelhos de óp ca aplicados pelo homem ao infinito.

Não é este o lugar para desenvolver certas ideias além dos limites devidos; todavia, devemos dizê-lo, conservando absolutamente nossas reservas, restrições e até mesmo indignações, todas as vezes que no homem encontramos o infinito, bem ou mal compreendido, sen mo-nos tomados de respeito. Há na sinagoga, na mesquita, no pagode, no wigwam, um aspecto medonho que execramos e um aspecto sublime que adoramos. Que fonte de contemplação para o espírito, que manancial de cogitações sem fundo! O reflexo de Deus nas paredes da humanidade.

II — O convento considerado como facto histórico

Debaixo do ponto de vista da história, da razão e da verdade, o monaquismo é condenado.

Os mosteiros, quando abundam num país, são tropeços que impedem a circulação, estabelecimentos que servem de embaraço, centros de preguiça onde se necessitam centros de trabalho. As comunidades monás cas são para a grande comunidade social o que o agárico é para o carvalho, o que para o corpo humano é a verruga. A sua prosperidade e nutrição são o empobrecimento do país. O regime monacal, bom no começo das civilizações, ú l para produzir a redução da brutalidade pelo espiritual, é mau na virilidade dos povos. Além disto, quando ele se relaxa e entra no período do seu desregramento, como con nua a dar o exemplo, torna-se mau por todas as razões que o faziam salutar no período da sua pureza.

O tempo das ins tuições monás cas passou. Os claustros úteis na primeira educação da civilização moderna, impediram-na na sua crescença e são nocivos ao seu desenvolvimento. Como ins tuição e modo de formação para o homem, os mosteiros, bons no século X, discutíveis no século XV, são detestáveis no século XIX.

A lepra monacal roeu até quase ao esqueleto duas nações admiráveis, a Itália e a Espanha, uma a luz, outra o esplendor da Europa por alguns séculos, e presentemente esses dois ilustres povos principiam a sarar, mas é em virtude da salutar e vigorosa higiene de 1789.

O convento, o an go convento de freiras, tal como ainda no princípio deste século aparece na Itália, na Áustria e na Espanha, é uma das mais sombrias incrustações da Idade Média. O claustro de que falamos, é o ponto de intersecção dos terrores. O

claustro católico propriamente dito é todo cheio da negra irradiação da morte.

Sobre todos, porém, o mais fúnebre é o convento espanhol. Debaixo de abóbadas repletas de trevas, prenhes de escuridão, sob zimbórios vagos pela muita sombra,

erguem-se maciços altares babélicos da altura de catedrais; pendem de cadeias no meio das trevas imensos crucifixos brancos; ostentam-se nus sobre o ébano grandes Cristos de marfim, mais do que ensanguentados, vertendo sangue, medonhos e magníficos, com os ossos dos cotovelos à vista, com os tegumentos das rodelas dos joelhos dilacerados, com as carnes rasgadas em profundas chagas, coroados de espinhos de prata, pregados com cravos de ouro, com gotas de sangue de rubis na fronte e lágrimas de diamantes nos olhos. Os diamantes e os rubis parecem molhados e fazem chorar em baixo, nas sombras, criaturas cobertas com véus que trazem os rins pisados do cilício e das disciplinas com pontas de ferro, os seios esmagados por corseletes de vimes, os joelhos esfolados à força de rezar; mulheres que se julgam esposas; espectros que se julgam serafins. Acaso pensam estas mulheres? Não. Acaso têm vontade? Não. Acaso amam?

Não. Acaso vivem? Não. Os nervos tornaram-se-lhes ossos; os ossos tornaram-se-lhes pedras. O seu véu é um tecido de sombras. O seu hálito por baixo do véu assemelha-se a não sei que trágica respiração da morte. A abadessa, uma larva, san fica-as e terrifica-as.

São imaculadas, mas intratáveis. Eis o que são os an gos mosteiros de Espanha. Covis da devoção terrível, antros de virgens, lugares ferozes.

A Espanha católica ainda era mais romana do que a própria Roma. O convento espanhol era o convento católico por excelência. Ninguém diria senão que estava no Oriente. O arcebispo era como um Kislaraga do céu, que aferrolhava e espiava aquele serralho de almas reservado para Deus. A monja era a odalisca, o eunuco o padre. As abrasadas eram escolhidas em sonhos e possuíam Cristo. De noite descia da cruz o belo mancebo nu e tornava-se o êxtase da cela. Muros elevados guardavam de qualquer distracção viva a sultana mís ca, que nha o Crucificado por sultão. Um olhar estranho era uma infidelidade. O in pace substituía o saco de couro.

O que no Oriente se lançava ao mar, no Ocidente lançava-se à terra. Em ambas as partes havia mulheres debatendo-se; para umas a vaga, para outras a cova; lá as afogadas, cá as enterradas. Monstruoso paralelo!

Hoje os defensores do passado, como não podem negar estas coisas, sorriem.

Está em moda uma estranha, mas cómoda maneira de suprimir as revelações da história, invalidar os comentários da filosofia e elidir todos os factos molestos e todas as questões escuras. Declamações, repetem os parvos. Jean Jacques, declamador; Diderot, declamador; Voltaire a respeito de Calas, Labarre e Sirven, declamador. Não sei quem ul mamente descobriu que Tácito era um declamador, que Nero era uma ví ma, e que decididamente se devia a gente compadecer «daquela pobre Holofernes».

Os factos, porém, são pertinazes e difíceis de destruir.

O autor deste livro viu com os seus olhos, na abadia de Villers, a oito léguas de Bruxelas (coisas da Idade-Média que todos têm à mão), no meio do prado que serviu de pá o do claustro, o alçapão das masmorras em que quem entrava morria, e na margem do Dyle quatro calabouços de pedra, meios me dos no chão, meios debaixo de água.