Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 139 de 359

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Os Miseráveis

V — Não basta a embriaguez para se ser imortal

— Com efeito, não há outro meio.

— A única coisa que me inquieta, é o que sucederá no cemitério.

— Isso é que me não dá cuidado! — exclamou Fauchelevent.

— Se o senhor tem a certeza de sair bem do caixão, da cova ro-o eu sem dificuldade.

O coveiro é meu amigo e gosta muito de vinho. É o senhor Mes enne, um velho doutro tempo. Eu lhe digo o que se passará. Chegar-se-á um pouco antes do sol posto, três quartos de hora antes de se fechar o cemitério. O carro rodará até à cova e eu irei atrás; é a minha obrigação. Levarei na algibeira um martelo, uma tesoura e uma turquês. O

carro parará e os gatos-pingados, passando uma corda em volta do caixão, fá-lo-ão descer para a cova. O padre recita as orações e faz o sinal da cruz, lança a água benta e safa-se Mes enne, como já lhe disse, é meu amigo. De duas coisas uma, ou ele está atestado ou não; se não está atestado, digo-lhe: venha daí, vamos beber uma golada; o

bom Marmelo está ainda aberto. Levo-o comigo e emborracho-o; o senhor Mes enne custa pouco a emborrachar, está sempre em princípio, deito-o debaixo da banca, ro-lhe o bilhete para entrar no cemitério e volto ali só. Depois o senhor tem que se haver comigo. Se ele, pelo contrário, está pesado, digo-lhe: vai-te embora, que eu arranjo tudo.

Ele vai-se e eu tiro-o do buraco.

Jean Valjean estendeu-lhe a mão, que Fauchelevent apertou com enternecedor e campesino entusiasmo.

— Está combinado. Tudo se há-de fazer em bem.

— Contanto que a coisa se não transtorne. Se isto tudo se tornasse terrível...

V — Não basta a embriaguez para se ser imortal

No dia seguinte, quando o Sol já declinava, descobriam-se raros transeuntes do boulevard do Maine, na passagem de um carro de an go modelo, ornado de caveiras, de bias e de lágrimas Neste carro ia um caixão coberto com um pano branco, sobre o qual se via uma grande cruz preta, semelhante a uma gigante defunta com os braços pendentes. Atrás do carro ia uma berlinda levando um padre de sobrepeliz e um menino de coro de ba na vermelha. Aos lados do carro marchavam dois gatos-pingados, de uniforme pardo com guarnições pretas. Atrás de tudo caminhava um velho, com o trajo de trabalhador e que coxeava. O préstito dirigia-se para o cemitério Vaugirard.

O cemitério Vaugirard constituía excepção entre os demais cemitérios de Paris.

Tinha os seus usos par culares, pelo mesmo modo que nha além da porta principal uma porta pequena: estas portas eram denominadas pelos teimosos, porta dos cavaleiros e porta dos peões. Como já dissemos, as bernardas-benedi nas do Pe t-Picpus nham ob do licença para ali serem enterradas em lugar à parte e de noite, porque aquele terreno pertencera, noutro tempo, à comunidade. Os coveiros, tendo deste modo no cemitério serviço de tarde no Verão, e de noite no Inverno, estavam sujeitos a uma disciplina par cular. As portas dos cemitérios de Paris fechavam-se naquela época ao pôr-do-sol, e, por determinação municipal, estava o cemitério Vaugirard sujeito ao mesmo regime. A porta dos cavaleiros e a porta dos peões eram con guas e juntas a um pavilhão construído pelo arquitecto Perronnet, onde morava o porteiro do cemitério.

Aquelas portas, que eram de grade, giravam, pois, inexoravelmente em seus gonzos, no momento em que o Sol desaparecia por detrás do zimbório dos Inválidos. Se neste momento algum coveiro se demorava no cemitério, não nha para sair senão um recurso: a sua nomeação de coveiro, passada pela administração das pompas fúnebres.

No pos go da janela do porteiro havia uma fenda como as das caixas do correio. O

coveiro lançava a nomeação na caixa, o porteiro sen a cair o papel, puxava uma corda, e logo se abria a porta dos peões. Se o coveiro não nha consigo a nomeação, dizia quem era; o porteiro muitas vezes já deitado e dormindo, levantava-se, ia reconhecer o coveiro, abria a porta e este saía, mas pagava quinze francos de multa.

Este cemitério, com as suas originalidades fora da regra, incomodava a simetria administra va. Em 1830 foi suprimido. Sucedeu-lhe o cemitério do Mont-Parnasse, chamado de Este, herdando a famosa taberna pegada ao cemitério de Vaugirard, que

nha em cima um marmelo pintado numa tábua e que fazia esquina de um lado para as mesas dos fregueses e do outro para as sepulturas, com esta tabuleta: Taberna do bom Marmelo.

O cemitério de Vaugirard era o que poderia chamar-se um cemitério murcho. Ia caindo em desuso; a erva ia-o invadindo e as flores deixando-o. Os burgueses pouco apreço davam a -ser enterrados em Vaugirard, porque cheirava a pobreza. No Père-Lachaise era outra coisa Ser enterrado no Père-Lachaise corresponde a ter móveis de acaju. O

cemitério de Vaugirard era um recinto venerável, com a forma dos an gos jardins franceses. Ruas muito direitas, grandes buxos, caniçados, etc., velhos túmulos sob velhos teixos e erva muito alta. A noite naquele recinto era trágica; aquelas linhas eram todas fúnebres.

O Sol não nha ainda de todo desaparecido quando o carro entrou na avenida do cemitério de Vaugirard. O homem que o acompanhava coxeando era Fauchelevent.

O enterro da madre Crucificação sob o altar, a saída de Cose e e a introdução de Jean Valjean na sala das defuntas, fora tudo executado sem qualquer estorvo.

Digamo-lo de passagem, a inumação da madre Crucificação sob o altar da capela do convento, é para nós coisa perfeitamente venial; é uma falta das que se assemelham a um dever. As religiosas nham-no não somente desempenhado sem perturbação, mas com aplauso de suas consciências. No claustro aquilo a que se chama «governo» não é mais do que uma ingerência na autoridade, ingerência sempre discu vel. Em primeiro lugar, a regra; quanto ao código, veremos. Façam os homens quantas leis quiserem, mas guardem-nas para si. O tributo a César nunca é mais do que a sobra do tributo a Deus; um príncipe não é nada ao pé de um princípio.

Fauchelevent coxeava conten ssimo atrás do carro. As suas duas conspirações gémeas, uma com as religiosas e outra com Madelaine; uma a favor do convento, outra contra ele, nham ob do óp mo resultado. A impassibilidade de Jean Valjean era dessas tranquilidades poderosas que facilmente se comunicam. Fauchelevent já não duvidava do completo bom êxito. O que faltava a fazer era nada. Havia dois anos que emborrachara dez vezes o coveiro, o senhor Mes enne, um pobre homem, um bochechudo. Ria-se consigo do senhor Mes enne. Fazia dele quanto queria, e penteava-o segundo a sua fantasia A cabeça de Mes enne adaptava-se ao barrete de Fauchelevent: a sua confiança era completa.

Na ocasião em que o prés to entrou na avenida do cemitério, ia Fauchelevent tão extremamente satisfeito, que olhou para o carro e esfregou as grosseiras mãos, dizendo:

— Não está má a farsada!

De repente o carro parou: chegara à porta. Era necessário exibir a permissão para o enterro. O empregado das pompas fúnebres dirigiu-se ao porteiro. Durante o colóquio dos dois, que sempre ocasionou demora de um quarto de hora, apareceu um homem desconhecido, que se colocou atrás do carro, ao lado de Fauchelevent. Era uma espécie de trabalhador, com grandes algibeiras na blusa e uma enxada na mão.

Fauchelevent encarou o desconhecido.

— Quem é você? — perguntou ele.

O homem respondeu:

— Sou o coveiro.

Se fosse possível sobreviver a uma bala de ar lharia recebida no peito, far-se-ia uma careta semelhante à que fez Fauchelevent.

— O coveiro!

— Sim, senhor!

— Você.

— Eu mesmo.

— O coveiro é o senhor Mestienne.

— Foi.

— Como foi?

— Foi, porque já morreu.

Fauchelevent tudo esperava, menos que um coveiro pudesse morrer. Todavia é uma verdade: até os próprios coveiros morrem. A força de fazerem covas para os outros, abrem-nas para si mesmos.

Fauchelevent ficou de boca aberta; teve apenas força para murmurar:

— Não pode ser!

— Pois é assim mesmo.

— Mas — tornou ele com voz muito fraca — o coveiro é o senhor Mestienne.

— Depois de Napoleão, Luís XVIII; depois de Mestienne, Gribier. Eu chamo-me Gribier.

Fauchelevent, empalidecendo, contemplou Gribier.

Era um homem alto, magro, lívido, completamente fúnebre. Tinha ar de médico infeliz, metamorfoseado em coveiro.

— Ah! Ah! Sempre acontecem coisas mais ratonas! — exclamou Fauchelevent, desatando às gargalhadas. — Ora, o senhor Mes enne morreu! Adeus! Morreu o ozinho Mes enne, mas ficou o ozinho Lenoir! Você sabe quem é o ozinho Lenoir? É

o cantarinho do belo vermelho. É o cantarinho do Suresne, do verdadeiro Suresne de Paris! Ah! com que então o Mes enne morreu! Tenho pena, porque era um velho patusco. Mas você também não lhe fica atrás, não é assim, camarada? Daqui a bocado havemos de ir ambos beber uma pinga.

Porém, o homem respondeu:

— Eu estudei. Tenho o quarto ano. Beber é coisa que não uso.

A este tempo nha-se de novo posto a caminho o carro, rodando pela álea principal do cemitério.

Fauchelevent afrouxara o passo. O pobre homem coxeava mais ainda por causa da ansiedade em que ia do que por causa do aleijão que padecia.

Adiante dele caminhava o coveiro, o inesperado Gribier, que Fauchelevent passou outra vez em revista.

Era um desses homens que são novos e têm aparência de velhos, que são magros, mas dotados de grande força.

— Camarada! — gritou Fauchelevent.

O homem voltou-se.

— Eu sou o coveiro do convento.

Fauchelevent, que, conquanto não fosse erudito, era dotado de extrema finura, conheceu que tratava com uma espécie temível, com um bem-falante.

— Com que então o senhor Mestienne morreu? — murmurou ele.

— Completamente — respondeu o homem. — Deus consultou o seu livro de assentos, viu que era chegada a vez do senhor Mestienne e o senhor Mestienne morreu.

— Deus... — repetiu Fauchelevent maquinalmente.

— Deus, sim — repe u o homem com autoridade. — Para os filósofos o Padre Eterno; para os jacobinos o Ser Supremo.

— Então nós não havemos de ficar conhecidos? — balbuciou Fauchelevent.

— Conhecidos já nós somos. Você é um campónio e eu sou parisiense.

— Ora, adeus! A gente não se conhece enquanto não bebe de companhia alguns tragos. Quem abre as goelas para beber, abre o coração para falar. Há-de vir beber comigo. A isto não há-de dizer que não.

— Em primeiro lugar está a minha obrigação.

Fauchelevent reflectiu e disse consigo: «Estou perdido».

Restavam apenas alguns passos para chegar ao sí o onde as religiosas nham o privilégio de ser enterradas.

Após alguns instantes de silêncio, o coveiro continuou:

— Meu homem, eu tenho de sustentar sete rapazes. Para eles comerem é preciso que eu não beba. — E acrescentou com a sa sfação de um homem que profere uma frase bonita: — A fome deles é inimiga da minha sede.

O carro deu volta por uma moita de ciprestes, deixou a álea principal, tomando por outra lateral e deitou por um matagal, o que indicava a proximidade imediata da sepultura. Fauchelevent afrouxava o passo, mas não podia afrouxar o andar do carro.

Felizmente, como a terra era movediça e estava molhada com as chuvas do Inverno, pegava-se às rodas e não deixava rodar o carro com grande ligeireza.

— Eu sei onde há vinho de Argenteuil muito bom! — murmurou Fauchelevent, acercando-se do coveiro.

— Homem, eu não estava talhado para coveiro. Meu pai, que era porteiro no Prytaneu, des nava-me para a literatura. Mas nem tudo corre como a gente quer. Meu pai perdeu o que nha na Bolsa, e eu vi-me obrigado a renunciar à minha carreira literária. Contudo, ainda sou escrevente público.

— Mas então você não é coveiro? — replicou Fauchelevent, agarrando-se a este, na verdade bem frágil, apego.

— Um não tira o outro. Acumulo.

Esta última palavra não a entendeu Fauchelevent.

— Havemos de ir beber — disse ele.

Torna-se aqui necessária uma observação. Fauchelevent, qualquer que fosse a sua angús a, oferecia de beber, mas não se explicava sobre quem havia de pagar. De ordinário, Fauchelevent oferecia e o senhor Mes enne era quem pagava. O oferecimento resultava, certamente, da nova situação criada pelo novo coveiro e era urgente fazê-la,