Os Miseráveis
II — História antiga dos canos
No fim de tudo, Paris, principalmente no que toca a este imemorial e insensato
desperdício, é um simples imitador.
Estas pasmosas inépcias não são novas; não é uma insensatez de agora. Já os an gos faziam o mesmo. «As cloacas de Roma, diz Liebig, absorveram toda a prosperidade do camponês romano. Arruinada a campanha de Roma pela cloaca romana, Roma exauriu a Itália, e depois que dentro da sua cloaca deitou a Itália, lançou-lhe a Sicília, depois a Sardenha, em seguida a África». Os canos de Roma tragaram o mundo, porque à cidade e ao Universo; urbi et orbi, ofereciam a sua voragem.
Cidade eterna, cloaca insondável.
Nestas coisas, assim como em outras, Roma dá o exemplo.
E Paris segue o exemplo com toda a estupidez própria das cidades inteligentes.
Para as necessidades da operação sobre a qual acabamos de explicar-nos, Paris tem por baixo de si outro Paris: um Paris de canos, com suas ruas, encruzilhadas, praças, largos, becos, artérias e circulação, que é a lama com a forma humana de menos.
Pois não devemos lisonjear, nem mesmo a um grande povo; onde há tudo, há ignomínia ao lado da sublimidade; e se Paris contém Atenas, a cidade da luz; Tiro, a cidade da opulência; Esparta, a cidade da virtude; Nínive, a cidade das maravilhas, também contem Lucteci, a cidade da lama.
Além disto, o selo da sua opulência consiste nisso, e a tânica sen na de Paris é a realização, entre os monumentos, desse estranho ideal realizado na humanidade por alguns homens, tais como Maquiavel, Bacon e Mirabeau; o grandioso objecto.
O subsolo de Paris, se o olhar pudesse penetrar-lhe a super cie, apresentaria o aspecto de uma madrepérola colossal. Uma esponja não tem mais buracos e sinuosidades do que o torrão de terra de seis léguas de circunferência, sobre que repousa a an ga e grande cidade. Sem falar nas catacumbas, que são um subterrâneo à parte, sem falar na inextricável rede de tubos de gás, sem contar o vasto sistema tubular da distribuição de água na va, que vai ter a todos os chafarizes, os canais de despejo só por si formam de um e de outro lado do rio uma prodigiosa rede tenebrosa; labirinto cujo único fio é o seu declive.
Ali aparece, no meio das húmidas exalações que dele se levantam, o rato, que parece ser o produto do parto de Paris.
II — História antiga dos canos
Imagine-se Paris levantado com uma tampa, e a rede subterrânea dos canos, vista de cima do espaço, desenhará nas duas margens uma espécie de grande ramo enxertado no rio. Na margem direita, o cano-mestre será o trono desse ramo, os canos secundários os ramos e as bifurcações destes os ramúsculos.
Esta figura é apenas sumária e incompleta, visto que o ângulo recto, que é o vulgar neste género de ramificações subterrâneas, é extremamente raro na vegetação.
Formar-se-á uma ideia mais aproximada deste singular plano geométrico, supondo que vê estendido sobre um fundo de trevas algum extravagante alfabeto oriental, emaranhado como uma ramada, e cujas letras disformes se prendessem umas às outras em aparente desordem e como ao acaso, ora pelos seus ângulos, ora pelas suas extremidades.
Na Idade-Média, as sen nas e os canos representavam um importante papel no Baixo Império e no an go Oriente. Deles nascia: a peste, neles morriam os déspotas. As mul dões contemplavam quase com temor religioso esses leitos de podridão, monstruosos berços da morte. A cova dos vermes de Benarés não é menos ver ginosa do que a Cova dos Leões de Babilónia. Theglath-Phalasar, no dizer dos livros rabínicos, jurava pela sen na de Nínive. Era dos canos de Munster que Jean de Leyde fazia sair a sua falsa Lua e é do; poço-cloaca de Kekscheb que o seu menacma oriental, Mokanna, o profeta velado do Khorassan, fazia sair O seu falso Sol.
A história dos homens reflecte-se na história das cloacas. As gemónias eram uma como narração de Roma.
Os canos de Paris foram, em tempos remotos, uma coisa terrível. Foram sepulcro e foram asilo. O crime, a inteligência, o protesto social, a liberdade de consciência, o pensamento, o roubo, tudo quanto as leis humanas perseguem ou têm perseguido, têm feito desse subterrâneo um esconderijo; no século XIV os maceiros, no século XV os gatunos, no século XVI os huguenotes, no século XVII os iluminados de Morin, no século XVIII os fogueiros. Há cem anos saía dali a punhalada nocturna e ali se escondia o ladrão que se via em perigo; o bosque nha a caverna, Paris nha a cloaca. A Truanderie, essa picareria gaulesa, aceitava a cloaca como sucursal da Corte dos Milagres, e de noite, astuta e feroz, recolhia-se ao vomitório Maubuée como a uma alcova.
É natural que os que nham por oficina quo diana o beco de Vide-Gousef ou a rua de Coupe-Gorge vessem por domicílio nocturno o cano do Caminho Verde ou a vala de Hurepoix. Daí uma série de recordações. Fantasmas de toda a espécie frequentam aqueles compridos e solitários corredores; por toda a parte a putrefacção e o miasma; aqui ou ali algum suspiráculo por onde Villon, do lado de dentro, conversa com Rabelais, da parte de fora.
Os canos, no an go Paris, eram o ponto de reunião de todos os esgotamentos e de todas as tenta vas; um lugar em que a economia polí ca vê um despejo., a filosofia social num resíduo.
O esgoto é a consciência da cidade. Tudo para ela converge e aí se confronta. Naquele lugar lívido, há trevas, mas já não há segredo. Cada objecto tem a sua forma verdadeira, ou, pelo menos, a sua forma defini va. O monturo tem a seu favor o não ser men roso.