Os Miseráveis
II — Jean Valjean guarda nacional
Mas, ainda quando tal caso, tão pouco provável, se desse, o perigo que daí podia sobrevir só recairia sobre ele, e, por consequência, não nha direito a condenar Cose e ao claustro, por a ele o terem condenado as galés. Demais, que importava o perigo, se o dever falava? E, finalmente, quem o embaraçava de proceder com prudência e tomar todas as medidas de precaução para sua segurança entre os homens?
Pelo que respeitava a Cosette, a sua educação estava quase terminada e completa.
Firme, pois, na sua resolução, esperou apenas por ensejo oportuno, que não tardou a oferecer-se-lhe com a morte do velho Fauchelevent.
Apenas este morreu, Jean Valjean solicitou uma audiência da religiosa e expôs-lhe o seguinte: Que havendo, por morte de seu irmão, ficado possuidor de alguns bens, que lhe davam com que poder passar modestamente sem trabalhar, estava resolvido a despedir-se do serviço do convento, levando consigo sua filha; porém que, como não era justo que Cose e, visto não professar, saísse daquela casa educada gratuitamente,
humildemente suplicava à venerável prioresa permi sse que ele oferecesse à comunidade a quan a de cinco mil francos, como indemnização dos cinco anos que Cosette passara naquela casa.
Eis de que modo saiu Jean Valjean do convento da Adoração Perpétua.
Na ocasião da sua saída foi ele próprio o que transportou debaixo do braço aquela mala, cuja chave trazia sempre consigo, mala que tanto dava que pensar a Cose e, por causa do cheiro a cadáver embalsamado que dela saía.
Devemos acrescentar que essa mala, que ele não quis confiar a um carregador, mas levá-la ele próprio, nunca mais o largou desde então. Tinha-a sempre no quarto e era a primeira, senão às vezes a única coisa, que transportava consigo em ocasiões de mudança. Cose e ria-se daquele afinco de Jean Valjean à mala, chamando-lhe «o indispensável de seu pai», e às vezes murmurava-lhe: «Ó meu pai, olhe que eu tenho ciúmes da sua mala!»
Como é de crer, Jean Valjean não pôde furtar-se a um sen mento de afli va ansiedade, ao ver-se respirando o ar livre.
Desejoso de encontrar um re ro seguro onde evitasse vistas curiosas e desagradáveis indagações, apenas descor nou a casa da rua Plumet, acolheu-se a ela, dando-se por feliz com tal achado.
Depois alugou mais duas vivendas dentro de Paris, sempre com o nome de Úl mo Fauchelevent, que nha adaptado, para deste modo não atrair tanto sobre si a atenção, como se residisse permanentemente no mesmo local; para, se lhe fosse necessário, poder ausentar-se temporariamente, ao mínimo rebate de perigo ou de receio, e, finalmente, para se não tornar a achar desprevenido, como na noite em que tão milagrosamente escapara das garras de Javert. Consis am, pois, as duas outras vivendas de Jean Valjean em duas casas de pobre e mesquinha aparência, situadas em locais remotíssimos entre si, como eram a rua de Oeste e a do Homem Armado.
Deste modo, ia de tempos a tempos, passar um mês ou mês e meio ora para a rua do Homem Armado, ora para a de Oeste, fazendo-se acompanhar por Cose e e deixando Toussaint na outra casa, que nha sido propriedade do presidente. Inculcava-se então como rendeiro dos arrabaldes da cidade, à qual apenas vinha passar algum tempo de folga. Assim se via constrangido aquele homem virtuoso a ter três domicílios em Paris para escapar à polícia.
II — Jean Valjean guarda nacional
A bem dizer, porém, a sua principal residência era na rua Plumet, onde vivia do modo que vamos explicar.
Cose e e a criada ocupavam a parte patente do edi cio, isto é, o jardim, sobre o qual deitavam as janelas da frente, o espaçoso quarto de dormir com pinturas nas paredes, o quarto de frisos dourados e a sala do presidente, forrada de tapeçaria e mobilada com amplas cadeiras de braços. No quarto de dormir de Cose e mandara Jean Valjean pôr uma cama de cor nado de damasco an go de três cores e alca far o chão com um belo tapete da Pérsia, comprado em segunda mão em casa da a Gaucher, da rua da Figueira de S. Paulo, ajuntando a este traste usado, para disfarçar a severidade de tão faustosas
velharias, todos os objectos próprios da alegre e graciosa vivenda de uma jovem, tais como uma jardineira, uma estante cheia de livros ricamente encadernados, uma escrivaninha, uma mesa e estojo de costura, com embutidos de madrepérola, jarro, bacia e os mais aprestos de lavatório, de porcelana do Japão. Das janelas do andar nobre pendiam compridas cor nas de damasco vermelho, com lavores de cores diversas, semelhante ao do cor nado do leito. Nas do rés-do-chão a luz penetrava igualmente através de cor nas, que aqui eram de cassa. Na estação invernosa, em ambos os andares se acendia os fogões, tornando tépida a atmosfera das salas reservadas a Cosette.
Jean Valjean habitava a casa térrea, situada ao fim do pá o. Os seus móveis cifravam-se numa barra, com o respec vo enxergão, uma mesa de pinho, duas cadeiras de palhinha, um cântaro de barro com água, alguns livros velhos numa prateleira e a inseparável mala, arrumada a um canto. Lume nunca o quis no seu quarto. Às horas de jantar vinha comer com Cose e, porém, sobre a mesa, via-se sempre um bocado de pão de milho para ele. Quando tomara Toussaint ao seu serviço, dissera-lhe:
— Olhe que a menina é que é a dona da casa.
— E então o... se... se... senhor? — replicara, gaguejando com visos de admirada, a pobre mulher.
— Eu sou mais do que dono, sou pai!
Cose e, portanto, que no convento aprendera a governar uma casa, era quem corria com as despesas diárias, despesas em verdade pouco avultadas.
Desde essa época, Jean Valjean principiou a sair todos os dias com Cose e pelo braço, dirigindo sempre o seu passeio para a álea menos frequentada do Luxemburgo. Aos domingos, iam invariavelmente ouvir missa a S. Jacques de Haut-Pas, por ser um lugar remoto, e aí dava Jean Valjean largas ao seu generoso coração, distribuindo numerosas esmolas aos pobres, que se reuniam em roda dele à saída do templo que dera lugar àquela carta de Thenardier, dirigida ao «senhor benfeitor da igreja de S. Jacques do Haut-Pas». Além dos mendigos, tão numerosos naqueles sí os, socorria os enfermos e os indigentes a cujas moradas gostava de conduzir Cosette.
Na casa da rua Plumet não entrava um só estranho. Toussaint ia fazer as compras, e a água era o próprio Jean Valjean quem ia buscá-la a uma fonte que havia próxima do boulevard. O vinho e a lenha guardava-os numa espécie de concavidade meio subterrânea, forrada de conchinhas, que ficava próxima da rua da Babilónia e que noutro tempo servira de gruta ao senhor presidente, porque naquele tempo não havia amor sem gruta.
Nessa mesma porta havia uma destas conhecidas caixinhas de correio, que têm uma fenda lateral ou superior, por onde se deitam as cartas e os jornais. Acontecia, porém, que, como os três moradores da casa da rua Plumet nem recebiam cartas nem jornais, o prés mo da caixa, noutro tempo medianeira e confidente das açucaradas finezas do Narciso togado, limitava-se simplesmente à transmissão dos avisos do recebedor dos impostos e das ordens do comandante da guarda. Pois cumpre notar que o rendeiro Fauchelevent pertencia à guarda nacional, não tendo podido escapar às estreitas malhas do recenseamento de 1831. Dessa feita, as informações municipais penetraram até ao