Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 200 de 359

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Os Miseráveis

VI — O homem bravio no seu covil

Enquanto Mário moralizava por este modo, porque havia ocasiões em que, como

todos os corações verdadeiramente honestos, se tornava pedagogo de si mesmo, e ralhava consigo mais do que merecia, olhava para a parede que o separava dos Jondre e, como se pudesse atravessá-la com o seu olhar piedoso, para reanimar aqueles desgraçados.

A parede era um simples tabique delgadíssimo, que, como se viu, deixava perfeitamente dis nguir o ruído dos passos e as vozes. Era preciso andar sempre abstracto, como Mário, para o não ter ainda notado. A parede não era forrada com o mais insignificante papel, nem do lado dos Jondre e, nem do de Mário; estava em osso.

Mário, sem quase ter a consciência do que fazia, examinava o tabique; às vezes a distracção examina, observa e escuta como faria a atenção.

De repente levantou-se: acabava de descobrir no alto da parede, junto do tecto, um buraco. A cal e a areia que devia ter preenchido aquele vácuo, caíra, decerto; e subindo-se à cómoda, podia-se ver por aquela abertura a pocilga dos Jondre e. Aquele buraco era como que um Judas. É permi do observar traiçoeiramente o infortúnio com o fim de o socorrer. «Também sempre hei-de ver que casta de gente é esta», disse para consigo,

«e até que ponto chega a sua miséria»

E, ao mesmo tempo que dizia isto, subiu para cima da cómoda, aproximou um dos olhos junto ao buraco e pôs-se a espreitar.

VI — O homem bravio no seu covil

As cidades, do mesmo modo que as florestas, têm os seus antros, nos quais se oculta tudo o que têm de pior e mais temível A diferença é que nas cidades, o que assim se esconde é feroz, imundo e pequeno, isto é, feio; nas florestas, o que se oculta é feroz, selvagem e grande, quer dizer, belo. Tocas por tocas, as dos animais são preferíveis às dos homens. As cavernas têm muito mais valor do que as pocilgas.

O que Mário via era uma pocilga.

Mário era pobre, e o seu quarto indigente; mas pelo mesmo modo que a sua pobreza era nobre, o seu cubículo era asseado. A esterqueira em que naquele momento mergulhava a vista era abjecta, porca, fé da, infecta, tenebrosa, sórdida. Por únicos móveis uma cadeira de palhinha, uma mesa desconjuntada, alguns cacos, e em dois cantos duas camas indescri veis; claridade só nha a que recebia por uma janelinha de quatro vidros, toda guarnecida de teias de aranha Por esta fresta entrava exactamente a luz precisa para que o rosto de um homem parecesse o de um fantasma. As paredes apresentavam um aspecto leproso e estavam cobertas de costuras e de cicatrizes, como um rosto desfigurado por alguma horrível doença e ressumando certa humidade ramelosa. Dis nguiam-se nelas alguns desenhos obscenos, feitos grosseiramente com carvão

O quarto que Mário ocupava nha o pavimento de ladrilho e em muito mau estado; aquele nem era ladrilho nem assoalhado; o solo era formado pelo an go entulho do pardieiro, enegrecido pelos pés que o pisavam Sobre este solo desigual onde a poeira estava como que encrostada, e que não nha senão uma virgindade, a da vassoura, agrupavam-se caprichosamente constelações de loiça quebrada, de chinelos e de farrapos; e afinal aquele quarto nha chaminé, o que lhe elevava a renda a quarenta

francos anuais Nesta chaminé havia de tudo: um fogareiro, uma panela, trapos pendurados em pregos, uma gaiola de pássaro, cinza, e mesmo algum lume. Estavam ali dois tições, fumegando tristemente.

Uma coisa que aumentava ainda o horror da pocilga, era o ser grande. Tinha saliências, ângulos, buracos escuros, baías e promontórios. Resultava de tudo isto a existência de cantos insondáveis onde parecia que deviam abrigar-se aranhas volumosas como punhos, bichos de conta do tamanho de um pé, e quem sabe mesmo se monstruosos entes humanos.

Uma das camas estava ao pé da porta, a outra ao pé da janela. Tocavam ambas por uma extremidade na chaminé, e ficavam fronteiras a Mário. Num ângulo próximo à abertura por onde Mário estava espreitando, via-se pendurada na parede, numa moldura negra, uma gravura colorida, por baixo da qual se lia em grandes letras: O

SONHO. Esta gravura representava uma mulher e uma criança adormecidas, uma águia no meio de uma nuvem, com uma coroa no bico, e a mulher mesmo a dormir, afastando a coroa da cabeça da criança; no fundo via-se Napoleão, encostado a uma coluna azul com capitel amarelo, ornada com esta inscrição:

MARINGO

AUSTERLITZ

VIENA

WAGRAMME

ELOT

Por baixo deste quadro, via-se, encostado à parede uma espécie de caixilho mais comprido, de algum tosco painel, de uma almofada arrancada a alguma parede e ali esquecida à espera que a tornassem a pregar.

Junto a mesa, sobre a qual Mário via uma pena, papel e nta, estava sentado um homem de sessenta anos, pouco mais ou menos, baixo, magro, lívido, de olhar espantado e ar de finura, mas indica vo também de crueldade e receio; um velhaco hediondo.

Se Lavater houvesse observado aquele rosto, nele encontraria o abutre misturado com o procurador; a ave de rapina e o homem de chicana afeando-se e completando-se um pelo outro; o homem de chicana tornando a ave de rapina ignóbil; a ave de rapina tornando o homem de chicana horrível.

Este homem nha umas compridas barbas grisalhas e ves a uma camisa de mulher, que lhe deixava a descoberto o peito cabeludo e os braços eriçados de pêlos grisalhos.

Por baixo da camisa viam-se-lhe umas calças cheias de lama, que terminavam numas botas, pelas quais lhe saíam os dedos dos pés.

Estava a fumar num cachimbo que lhe pendia da boca. Não havia pão naquela mansarda, mas ainda havia tabaco.

Ocupava-se em escrever, provavelmente alguma carta como as que Mário lera.

A um canto da mesa via-se um livro velho de cor avermelhada, cujo formato revelava um volume truncado de algum romance Lia-se-lhe na capa este pomposo tulo. Deus, o Rei, a Honra e as Damas, por Ducray-Dummu 1814.

O homem, ao mesmo tempo que escrevia, falava em voz alta e Mário percebia-lhe estas palavras:

— Ora esta! Nem sequer, depois da morte, haverá igualdade! Senão olhem para o que vai no Père-Lachaise. Os grandes, os ricos, estão em cima na rua, que é orlada de acácias e bem asseada. Podem ir até lá de carruagem. Os pequenos, os pobres, os infelizes, essa gente para aí, esses a ram com eles para um canto, onde a lama dá pelo joelho, para covas cheias de água! A ram-nos para ali para eles se desfazerem mais depressa Ninguém lá pode ir vê-los sem se enterrar naquele lamaçal!

Chegado a este ponto, calou-se, bateu com o punho fechado na mesa e exclamou, rangendo os dentes:

— Oh, dá-me vontade de comer o mundo!

Junto do fogão estava acocorada uma mulher gorda, que aparentava ter quarenta ou cem anos.

Não nha também por vestuário senão numa camisa e uma saia de malha, remendada com bocados de pano velho.

Um avental muito grosseiro tapava metade da saia. Conquanto esta mulher es vesse dobrada e como amontoada sobre si mesma, via-se que era de elevada estatura. Era uma espécie de gigante ao pé de seu marido. Tinha os cabelos de um ruivo repugnante, já grisalhos, e que ela de vez em quando afastava da cara, com as suas enormes mãos de unhas chatas.

Tinha junto de si, pousado no chão, um volume aberto, do mesmo formato que o outro, e talvez do mesmo romance.

Sentada sobre uma das camas, entrevia Mário uma espécie de rapariga esguia e lívida, quase nua e com os pés pendentes, não tendo ar nem de quem escuta nem de quem vê nem de quem vive.

Era de certo a irmã mais nova da que tinha ido ao quarto dele entregar-lhe a carta.

Parecia à primeira vista ter onze ou doze anos. Ao examiná-la, porém, com atenção, conhecia-se que nha catorze ou mais. Era a que na tarde do dia antecedente, ao escurecer, ia a dizer para a irmã, quando o rapaz as encontrou: « Por aqui me sirvo!»

Pertencia à enfezada espécie que está muito tempo paralisada e depois cresce rápida e repen namente. É a indigência a origem destas tristes plantas humanas. São criaturas que nem têm infância nem adolescência. Aos quinze anos parecem ter doze, aos dezasseis parece que têm vinte. Hoje raparigas, amanhã mulheres. Dir-se-ia que atravessam a vida de um salto, para mais depressa acabar.