Os Miseráveis
IV — Pormenores sobre as queijeiras de Pontarlier
O rosto do bispo tomou repen namente essa expressão jovial peculiar aos génios hospedeiros.
— Vamos para a mesa — disse ele com vivacidade, como nha por costume quando algum estranho ceava na sua companhia. Fez sentar o homem à sua direita, e Bap s na, de todo tranquilizada e restabelecida do seu receio, tomou lugar à esquerda.
O bispo disse o benedicite e em seguida, como costumava, serviu ele mesmo a sopa. O
homem principiou a comer avidamente.
De repente, o bispo exclamou:
— Parece-me que falta qualquer coisa na mesa!
Efec vamente, Magloire só nha posto os três talheres necessários. Ora, era costume antigo, todas as vezes que o bispo tinha hóspedes, pôr na mesa os seis talheres de prata.
Ostentação inocente, graciosa aparência de luxo, naquela casa agradável e severa, que elevava a pobreza até à dignidade, era uma espécie de criancice encantadora.
Magloire, compreendendo a observação, saiu sem dizer palavra e ao cabo de um momento, o s três talheres reclamados pelo bispo brilhavam sobre a toalha, simetricamente colocados diante de cada um dos trêsconvivas.
IV — Pormenores sobre as queijeiras de Pontarlier Chegados a este ponto, não podemos dar melhor ideia do que se passou naquela noite à mesa do bispo do que transcrevendo aqui a passagem de uma carta de Bap s na à condessa de Boischevron, na qual a conversa entre o forçado e o bispo é relatada com ingénua minuciosidade:
Este homem não prestava atenção a ninguém. Comia com voracidade de esfaimado. No fim da ceia, porém, disse a meu irmão:
— Senhor cura, isto é tudo bom de mais para mim, mas sempre lhe digo que os carreteiros que não quiseram deixar-me comer com eles, passam melhor do que o senhor!
Aqui para nós, a observação do homem quase me escandalizou. Meu irmão respondeu:
— Não admira, trabalham mais do que eu.
— Não é por isso — replicou o homem — é porque têm mais dinheiro. O senhor é pobre, bem vejo; talvez nem mesmo seja cura. Pois olhe, se Deus fosse justo, devia fazê-lo mais do que cura!
— Deus é mais do que justo! — disse meu irmão. E, passado um instante, acrescentou: — Então o senhor Jean Valjean vai para Pontarlier?
— Com itinerário obrigado.
Creio que foi assim que o homem disse. Em seguida continuou:
— Amanhã de madrugada, infalivelmente, tenho de pôr-me a caminho. Mal se pode andar agora. Se as noites estão frias, de dia não se pára com calor.
— Pois vai para uma excelente terra — prosseguiu meu irmão. — No tempo da revolução, ficando a minha família arruinada, refugiei-me primeiro em Franche-Conté, onde vivi algum tempo do meu trabalho. Tinha boa vontade, por isso achei sem dificuldade em que me ocupar. Há ali por onde escolher: fábricas de papel, de des lação, lagares de azeite, relojoarias, fábricas de aço, de cobre, e não menos de vinte oficinas de ferreiro, quatro das quais, as de Lods, Châttilon, Audincourt e Buere, são muito consideráveis. Parece-me não me enganar e que são estes os nomes que meu irmão citou. Depois, interrompendo-se, dirigiu-me a palavra:
— Ó irmã, não temos lá ainda alguns parentes?
— Tínhamos — respondi eu. — Entre outros, o senhor Lucenet, que era capitão dos guardas barreiras, no tempo do antigo regime.
— É verdade — continuou meu irmão — mas em 93 não havia parentes; ninguém podia contar senão com os seus braços, portanto lancei-me ao trabalho. Há em Pontarlier, para onde o senhor Valjean vai, uma indústria especial e muito agradável para quem a exerce. São as fábricas de queijos, a que lá chamam queijeiras.
Então meu irmão, sem deixar de instar com o homem para que comesse, passou a explicar-lhe minuciosamente o que são as queijeiras de Pontarlier, que se dividem em duas espécies: as grandes granjas, que pertencem a pessoas abastadas, e onde há quarenta ou cinquenta vacas, as quais produzem sete ou oito mil queijos cada Verão e as queijeiras de associação, que pertencem a montanheses pobres, que sustentam as suas vacas em comum e dividem depois os produtos. Estes úl mos têm assoldadado um queijeiro, ao qual chamam grurin, que recebe o leite das vacas dos associados três vezes ao dia, tomando nota exacta da porção que pertence a cada um dos sócios. Por fins de Abril principia o trabalho das queijeiras e em meados de Junho é que os queijeiros conduzem as vacas à montanha.
O homem ia-se reanimando, à proporção que comia. Meu irmão fazia-lhe beber o excelente vinho de Mauves, que ele mesmo não bebe, porque diz que é vinho caro. Explicava-lhe estes pormenores com aquele ar prazenteiro que a minha amiga lhe conhece, entremeando as suas palavras de graciosas atenções para comigo. Quando falou no bom o cio de grurin, como se desejasse que o seu hóspede entendesse, sem que lho aconselhasse directamente, que seria bom recurso para ele.