Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 25 de 359

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Os Miseráveis

XI — O que ele faz

Conservava-se, pois, nesta posição e permaneceria nela indefinidamente até amanhecer, se não ouvisse o som do relógio, dando um quarto ou meia hora.

Dir-se-ia que aquela badalada lhe dissera: «Vamos!», porque se pôs logo de pé, hesitou ainda um instante, escutou, e, sen ndo o mais completo silêncio em casa, encaminhou-se cautelosamente para a janela, que apenas entrevia A noite não estava muito escura, mas no céu corriam algumas nuvens impelidas pelo vento. Este estado do firmamento produzia, fora, alterna vas de sombra e claridade, eclipses, por assim dizer, totais, e em seguida momentos do mais límpido luar; dentro de casa havia uma espécie de crepúsculo. Este crepúsculo, intermitente em virtude das nuvens, mas suficiente para

dis nguir os objectos, assemelhava-se à baça claridade que penetra pelo respiradouro de um subterrâneo, no meio da qual se reflectem as sombras dos que passam.

Jean Valjean aproximou-se da janela e examinou-a. Não nha grades, deitava para o jardim e, segundo o uso da terra, era apenas fechada por uma simples aldraba. Abriu-a, mas como no quarto penetrasse repentinamente uma rajada de vento frio, tornou logo a fechá-la, tendo previamente olhado para o jardim com olhar mais de inves gação e estudo, do que de simples observação.

Viu neste exame que o jardim era cercado por um muro caiado, extremamente baixo e fácil de escalar. Além do muro, dis nguiu a copa de algumas árvores igualmente espaçadas, o que indicava haver ali uma avenida ou rua arborizada.

Depois deste exame, fez um movimento como de quem tomou a sua resolução, dirigiu-se para a cama, pegou na mochila, abriu-a, revolveu-a, rou de dentro qualquer coisa, que pôs em cima da cama, meteu os sapatos num bolso, atou o saco, deitou-o ao ombro, pôs o boné na cabeça, descendo a pala para os olhos, procurou o cajado às apalpadelas, foi pô-lo ao canto da janela, voltou outra vez para junto da cama e pegou resolutamente no objecto que nha poisado sobre ela, e que parecia uma barra de ferro curta, aguçada como um chuço numa das extremidades.

Seria di cil perceber na escuridão o fim para que fora assim preparado aquele pedaço de ferro. Seria para servir de alavanca? Seria para servir de maça?

Visto à claridade, reconhecer-se-ia que não era mais do que um instrumento de cabouqueiro. Como então empregavam às vezes os forçados em extrair pedras das altas colinas que circundavam Toulon, não era raro que vessem à sua disposição ferramentas daquele género.

Pegou no ferro com a mão direita e encaminhou-se para a porta do quarto imediato que era o do bispo, contendo a respiração e abafando os passos para não ser pressentido. Chegado à porta, encontrou-a entreaberta. O bispo não a tinha fechado XI — O que ele faz

Jean Valjean escutou. Nem o mais leve ruído. Empurrou a porta. Empurrou-a com a ponta dos dedos, ligeiramente, com a fur va e inquieta delicadeza do gato que quer entrar.

A porta cedeu à pressão e fez um movimento impercep vel e silencioso, que alargou pouco mais a abertura. Deteve-se um momento, depois empurrou de novo a porta, desta vez com mais força.

A porta con nuou a ceder silenciosa. A abertura era já suficientemente grande para que ele pudesse passar, mas uma mesa pequena, que formava com ela um ângulo, obstruía a entrada.

Jean Valjean reconheceu o obstáculo. Era necessário, custasse o que custasse, que a abertura se alargasse mais.

Decidiu-se e empurrou a porta pela terceira vez, mais energicamente do que das duas antecedentes. Desta vez, um dos gonzos, decerto enferrujado, soltou um grito rouco e prolongado no meio do silêncio.

Jean Valjean estremeceu. O ruído do gonzo soou-lhe aos ouvidos, estrondoso e

tremendo, como a trombeta do juízo final.

Na fantás ca exageração do primeiro momento, quase se lhe afigurou que aquele gonzo acabava de animar-se e assumir de repente vida terrível, la ndo como um cão para avisar toda a gente e despertar os adormecidos.

Estacou, trémulo e desorientado, deixando-se cair das pontas dos pés sobre os calcanhares. As artérias temporais pulsavam-lhe com tal força, que as ouvia bater como dois martelos numa bigorna, afigurava-se-lhe que a respiração lhe saía do peito sussurrante, como uma rajada de vento saída de uma caverna. Parecia-lhe impossível que o horrível clamor daquele gonzo irritado não abalasse toda a casa, como medonho repelão de um terramoto; a porta empurrada por ele assustara-se e clamara; o velho não tardaria a levantar-se, as duas mulheres não tardariam a gritar, não tardaria a acudir gente em socorro; antes de um quarto de hora, a cidade estaria em movimento e a gendarmaria a postos. Por um instante considerou-se perdido.

Deixou-se pois ficar onde estava, petrificado como a estátua de sal e sem se atrever a fazer o menor movimento. Decorreram alguns minutos. A porta abrira-se de par em par.

Jean Valjean espreitou para dentro do quarto. O mais completo sossego. O rangido do gonzo enferrujado não despertara ninguém.

Estava passado este primeiro perigo, mas nem por isso era menos terrível o tumulto que ainda se agitava dentro dele.

Jean Valjean, porém, não recuou. Não recuara nem mesmo na ocasião em que se considerara perdido. Do que tratava agora era de operar com presteza. Avançou um passo e entrou no quarto.

Este jazia no mais profundo silêncio. Aqui e além divisavam-se algumas formas vagamente confusas, que, vistas à claridade, eram papéis espalhados por cima de uma mesa, in-folios abertos, muitos volumes amontoados sobre um banco, uma poltrona carregada de roupa, um genuflexório, objectos que, àquela hora, eram apenas vultos informes, branquejando por entre as trevas.

Jean Valjean con nuou a caminhar com a maior precaução, para não esbarrar com os móveis. Do lado oposto do quarto, ouvia a igual e serena respiração do bispo adormecido. De súbito, parou, porque se encontrava junto da cama, onde nha chegado mais depressa do que pensara.

A natureza, às vezes, nos seus efeitos e espectáculos, estabelece com as nossas acções uma espécie de correlação tão sombria e inteligente, que parece querer, por meio dela, fazer-nos reflec r e sondar-nos a nós próprios. Havia perto de meia hora que uma espessa nuvem cobria o céu. No momento em que Jean Valjean parou, em frente do leito, a nuvem rasgou-se, como se o fizesse de propósito, e um raio de luar, coando-se por entre a janela rasgada do quarto do bispo, veio subitamente iluminar o pálido rosto do prelado, que dormia serenamente. Resguardava-o do frio da noite, que nos Baixos Alpes se faz sen r com especial intensidade, uma camisola de lã escura, que lhe cobria os braços até aos pulsos. A cabeça debruçava-se-lhe sobre o travesseiro na a tude indolente do repouso; a mão, aquela mão de onde nham saído tão boas e santas acções, pendia-lhe fora da roupa, ornada com o anel pastoral. O rosto iluminava-se-lhe

de uma vaga expressão de sa sfação, esperança e bea tude. Era mais do que sorriso, era quase irradiação. Respirava daquela fronte a inexprimível reverberação de uma luz que contempla um céu misterioso.

No momento em que o raio de luz se sobrepôs, por assim dizer, àquela claridade interior, o vulto do bispo adormecido destacou-se como no meio de uma auréola, ficando, todavia, este espectáculo suave velado por uma luz mal dis nta, mas inefável. A Lua no céu, o repouso da natureza, o jardim em perfeita quietação, a casa em completo sossego, a hora, a ocasião, o silêncio, tudo acrescentava um não sei quê de solene e indizível ao venerável repouso daquele homem, envolvendo, numa majestosa e serena auréola, aqueles cabelos brancos e os olhos fechados, afronte em que tudo era esperança e confiança, a cabeça de ancião e o sono infantil.

Havia naquele homem, sem que ele o suspeitasse, o que quer que fosse quase divino.

Jean Valjean conservou-se na sombra, de pé, imóvel, com a barra de ferro na mão, a braços com a mais estranha impressão. O aspecto daquele ancião coruscante apavorava-o. Nunca na sua vida vira coisa semelhante. O seu grande destemor amedrontava-o.

O mundo moral não possui mais grandioso espectáculo do que o de uma consciência perturbada e inquieta chegada à beira de uma má acção e contemplando o sono de um justo.

Esse sono, naquele isolamento e com um vizinho de semelhante estofo, nha o que quer que fosse de sublime, que ele próprio sentia, vaga mas imperiosamente.

Ninguém, nem ele mesmo, pudera dizer o que dentro dele se passava. Para tentar avaliá-lo é necessário imaginar o que há de mais violento em presença do que há de mais suave. Nem no rosto se lhe pudera dis nguir coisa alguma com certeza. Sen a uma espécie de assombro desvairado. Contemplava aquele vulto. Nada mais. Qual era o seu pensamento? Seria impossível adivinhá-lo. O que era evidente é que ele se achava impressionado e profundamente abalado. Mas de que natureza era esta comoção?

O seu olhar não se afastava do ancião. A única coisa que claramente deixara transparecer a a tude e a fisionomia dele era uma singular perplexidade. Dir-se-ia que hesitava entre dois abismos: entre o da perdição e o da salvação. Parecia prestes a esmagar aquela cabeça ou a beijar aquela mão.