Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 180 de 359

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Os Miseráveis

V — Pobreza, boa vizinha da miséria

Pegou, pois, na sua Flora, nas chapas, nos seus ervários, carteiras e livros, e foi estabelecer-se ao pé da Salpêtrière, numa espécie de choupana da aldeia de Austerlitz, onde, por cinquenta escudos anuais, nha três salas e um jardim, murado por uma sebe e com poço. Aproveitou-se desta mudança para vender quase todos os seus móveis. No dia em que deu entrada na sua nova morada, andou sempre muito alegre e foi ele próprio que pregou os pregos para as gravuras e ervários, gastando o resto do dia em

rar as ervas ao jardim. A noite, vendo a a Plutarco com ar triste e modo pensa vo, bateu-lhe no ombro e disse-lhe, sorrindo: «O anil temos nós!»

Só duas pessoas, o livreiro da porta de S. Jacques e Mário, nham permissão de visitá-lo na sua choupana de Austerlitz, nome bombás co que, a falar a verdade, lhe era sumamente desagradável.

Como acabamos de indicar, os cérebros absorvidos numa ciência ou numa mania, ou, o que frequentes vezes se dá, em ambas as coisas juntamente, apenas lentamente se tornam permeáveis às coisas da vida. Até do próprio des no andam remotos. Resulta, portanto, destas concentrações numa possibilidade, que, se fosse razoável, pareceria filosofia. Declina o indivíduo, desce, exaure-se, abate-se, quase sem dar por tal. Acaba isto sempre, é verdade, por um despertar, porém tardio. No entanto, parece que se conserva neutro na luta que se trava entre a sua boa e má sorte. É ele o objecto da luta e olha para ela com indiferença.

Foi assim que por entre a escuridão que se operava em torno de Mabeuf, e desvanecendo-se todas as suas esperanças uma após outra, ele ficara sereno, algum tanto pueril, porém profundamente. Os hábitos do seu espírito nham o movimento oscilatório de uma pêndula.

Uma vez que uma ilusão lhe desse corda, trabalhava por muito tempo, mesmo depois de ter acabado a ilusão. Um relógio não pára repen namente na ocasião em que perdemos a chave dele.

Mabeuf nha prazeres inocentes. Eram prazeres pouco custosos e inesperados; o menor acaso lhos ocasionava.

Um dia, a a Plutarco lia um romance em voz alta a um canto do quarto, parecendo-lhe que assim compreendia melhor o que lia. Ler em voz alta é afirmar cada um a si mesmo o que lê. Há pessoas que lêem em voz tão alta que parecem estar a asseverar a si mesmas debaixo de palavra de honra aquilo que lêem.

A a Plutarco lia pois com essa energia o romance que nha na mão e Mabeuf ouvia sem a escutar.

No decurso da sua leitura, tratando-se nela de um oficial de dragões e de uma bela, chegou à seguinte frase:

«...A bela boudha e o dragão...»

Neste ponto interrompeu-se para limpar os óculos.

— Boudha e o Dragão — repe u Mabeuf a meia voz. — É isso, não há dúvida; houve um dragão que do fundo do seu antro lançava chamas pela boca, as quais incendiavam o céu. Já muitas estrelas haviam sido queimadas por este monstro, que de mais a mais nha garras de gre. Então Boudha foi ao antro dele e conseguiu converter o dragão. É

um bom livro esse que está a ler, tia Phutarco. Não há lenda mais bonita.

Em seguida embrenhou-se em profunda meditação.

V — Pobreza, boa vizinha da miséria

Mário sen a grande predilecção por esse velho cândido, que se via lentamente surpreendido pela indigência, o que lhe causava pouco a pouco um certo espanto sem contudo se entristecer.

Mário encontrava Courfeyrac e procurava Mabeuf. Isto era contudo raro; sucedia, quando muito, uma ou duas vezes no mês.

Mário gostava de dar longos passeios solitários pelos boulevards exteriores, ou pelo campo de Marte ou pelas ruas menos frequentadas do Luxemburgo. As vezes passava uma tarde inteira a olhar para uma horta, para os canteiros de cebolas, a ver esgaravatar as galinhas ou um cavalo a mover a roda de uma nora. Os que passavam contemplavam-no maravilhados e alguns achavam-lhe um aspecto suspeito e até sinistro. E ele não era mais do que um mancebo pobre, meditando ao acaso.

Foi num desses passeios que ele descobriu o casebre Gorbeau, e como o tentasse o isolamento do lugar e o baixo preço da casa, alugou-a, sendo conhecido nela só pelo nome de senhor Mário.

Alguns dos an gos generais ou dos an gos camaradas de seu pai, depois que souberam quem ele era, convidaram-no a ir visitá-los e Mário não recusava, porque eram ocasiões de falar de seu pai. Deste modo ia de tempos a tempos visitar o conde de Pajol, o general Bellavesne, o general Fririon, que estavam nos Inválidos. Tocava-se, cantava-se, e Mário nessas noites ves a o fato dos dias solenes. Porém nunca ia a tais reuniões nem a tais bailes senão quando tudo estava coberto de geada, porque não podia pagar o aluguer de uma carruagem e queria chegar com as botas como espelhos.

Nas horas de amargura, dizia ele algumas vezes: