Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 24 de 359

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Os Miseráveis

X — O hóspede acordado

Ventos, nuvens, turbilhões, lufadas, estrelas inúteis! Que fazer? Desesperado, cansado de lutar, entrega-se sem esperança, deixa-se arrastar, deixa-se despedaçar, adopta a resolução de morrer, e ei-lo que desaparece para sempre nas lúgubres profundidades do abismo.

Ó impiedosa marcha das sociedades humanas, em que se não dá atenção aos homens e às almas que se vão perdendo! Oceano que absorve sem remédio quanto a lei deixa cair! Sinistra desaparição do socorro! Ó morte moral!

O mar é a inexorável escuridão social a que a penalidade arremessa os seus condenados. O mar é a imensa miséria!

A alma que cai a este golfão pode tornar-se cadáver. Quem a ressuscitará?

IX — Novos agravos

Ao soar para Jean Valjean a hora da liberdade, em que ouviu ressoar esta frase extraordinária: «Estás livre!», foi para ele um momento inverosímil, um raio de fulgurante luz, um clarão da Verdadeira luz dos vivos, que subitamente o iluminou por dentro. Mas esse clarão em breve empalideceu. A ideia da liberdade deslumbrara-o; acreditara na possibilidade de uma vida nova, mas bem depressa teve ocasião de avaliar o que era a liberdade acompanhada de um passaporte amarelo.

Quantas amarguras ainda o esperavam!

Calculara que o seu pecúlio, durante o tempo de permanência nas galés, deveria elevar-se a cento e sessenta francos. Deve contudo acrescentar-se, que se esquecera de

fazer entrar nos seus cálculos o descanso forçado dos domingos e dias santos, o que, ao cabo de dezanove anos, produziam uma diminuição de vinte e quatro francos aproximadamente.

Fosse como fosse, a verdade é que, depois de diversas retenções locais, o seu pecúlio ficara reduzido a cento e nove francos e quinze soldos.

Nada tendo compreendido das contas que lhe haviam feito, julgou-se lesado, ou melhor dizendo, roubado.

No dia seguinte ao que foi posto em liberdade, vendo em Grasse, à porta de uma fábrica de des lação de flores de laranjeira, alguns homens a descarregar fardos de um carro, ofereceu também os seus serviços. Como o trabalho era urgente, admi ram-no imediatamente. Deitou mãos à obra. Era inteligente, robusto e desembaraçado; empregava tamanha diligência no trabalho, que o patrão se sen a sa sfeito por o ter contratado.

Andava ele na sua nova ocupação, quando um gendarme que passava nesse momento, olhando-o atentamente, se lhe dirigiu, perguntando-lhe pelos papéis. Jean Valjean mostrou-lhe o passaporte amarelo e con nuou a trabalhar. Pouco tempo antes havia indagado de um dos companheiros quanto ganhavam por aquele trabalho, ao que ele respondeu: «Trinta soldos». Quando anoiteceu e como no dia seguinte nha de par r, apresentou-se ao dono da fábrica, pedindo que lhe pagasse. Este, sem lhe dirigir uma única palavra, deu-lhe vinte soldos. Jean Valjean reclamou, mas o dono da fábrica respondeu:

— Põe-te a andar,para ti é quanto basta!

Jean Valjean objectou ainda, mas o homem encarou-o fixamente, dizendo-lhe:

— Nas galés não ganhavas tanto!

Ainda desta vez se considerou roubado. A sociedade, o estado, roubara-o em grande escala, desfalcando-lhe os seus haveres. Agora chegara a vez ao indivíduo de o roubarem escala menor. Liberdade não é alforria; o forçado sai das galés, mas é perseguido pela condenação.

Eis o que lhe sucedera em Grasse. Já se viu o modo como foi recebido em Digne X — O hóspede acordado

Soavam duas horas da manhã no relógio da catedral, quando Jean Valjean acordou.

O que o acordou foi justamente a boa cama que a bondade do bispo lhe dera. Havia quase vinte anos que ele não dormia numa cama e, conquanto não se vesse despido, a sensação de semelhante contraste fora em extremo nova para que deixasse de lhe perturbar o sono. Dormira mais de quatro horas. Fora o necessário para se recompor da fadiga, além de que estava habituado a descansar poucas horas.

Abriu os olhos, olhou um momento a escuridão que fazia em volta dele e fechou-os novamente para tornar a adormecer.

Quando muitas sensações diversas nos agitam durante o dia, quando o espírito se encontra a braços com numerosos mo vos de preocupações, podemos adormecer, mas uma vez acordados, impossível será tornar a conciliar o sono, que vem com mais facilidade do que volta. Foi o que sucedeu a Jean Valjean. Como não pudesse tornar a

adormecer, pôs-se a meditar Jean Valjean encontrava-se num desses momentos em que as ideias se nos amontoam confusamente no espírito. Sen a no cérebro uma espécie de vai-vém tumultuoso. As recordações do passado, as lembranças do presente, flutuavam-lhe em tropel, cruzavam-se confusamente nele, perdendo as formas, tomando vulto descomunal, para em seguida desaparecerem de súbito como que numa pouca de água lodacenta e agitada. Numerosos pensamentos lhe ocorriam ao espírito, porém havia um que o assaltava de con nuo e expelia todos os outros. Esse pensamento, digamo-lo já, era o dos seis talheres de prata e da colherde sopa que Magloire pusera na mesa e que lhe havia prendido a atenção.

Aqueles seis talheres de prata obcecavam-no Encontravam-se ali, a dois passos. Na ocasião em que ele passara pelo quarto imediato para vir para aquele em que se encontrava, vira a criada a arrumá-los num armário que ficava à cabeceira da cama do bispo.

Os talheres eram de prata maciça, juntamente com a colher de sopa, dariam, pelo menos, duzentos francos. O dobro do que ele nha ganho em dezanove anos. É verdade que teria ganho mais, se a administração o não tivesse «roubado».

O seu espírito oscilou mais de uma hora em reflexões incessantes, entremeadas de certo esforço renitente. Neste momento, soaram três horas Jean Valjean reabriu os olhos, ergueu-se de chofre, estendeu o braço, procurou às apalpadelas a mochila, a qual nha arrumado perto da cama, deixou pender as pernas, pousou os pés no chão e achou-se, quase sem saber como, sentado na beira da cama.

Após haver permanecido durante algum tempo nesta a tude, com ar pensa vo, que teria parecido sinistra a quem assim o visse, acordado no meio da escuridão, numa casa em que todos dormiam, agachou-se de súbito, descalçou os sapatos, pô-los cautelosamente no capacho ao pé da cama, voltou à primi va posição pensa va e ficou imóvel.

No meio das suas pavorosas meditações, as ideias que acima indicamos tumultuavam-lhe de con nuo no cérebro, entravam, saíam, tornavam a entrar, oprimiam-no como se carregasse um peso sobre ele, no meio de tudo isto, ocorria-lhe maquinalmente ao espírito, com singular per nácia, a lembrança de um forçado chamado Brevet que ele conhecera nas galés, que usava as calças seguras apenas por um suspensório de algodão trabalhado a agulha de meia. Não se lhe afastava do espírito o desenho em xadrez daquele suspensório.