Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 52 de 359

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Os Miseráveis

I — Princípio de repouso

Depois de Javert sair, Madelaine voltou-se para ela e disse-lhe com voz pausada, custando-lhe a falar, como um homem sisudo quando quer evitar as lágrimas.

— Ouvi tudo o que disse, mas não ve conhecimento de coisa alguma. Creio, porém, e sinto que é verdade. Ignorava até que vesse deixado de trabalhar na minha fábrica.

Mas porque não se dirigiu a mim? Aqui estou, porém: ficarão a meu cargo as suas dívidas e mandarei buscar a sua filha, ou, se o desejar, irá ter com ela e viverá aqui, em Paris, ou onde quiser. Tomá-las-ei ambas à minha conta, dar-lhe-ei todo o dinheiro que necessitar. Sen ndo-se feliz tornar-se-á honesta. E repare no que desde já lhe afirmo: se é verdade tudo quanto disse, o que não duvido, nunca deixou de ser virtuosa aos olhos de Deus. Pobre mulher!

Isto era mais do que a infeliz Fan ne podia suportar. Ter Cose e na sua companhia, libertar-se daquela vida infame, viver livre, rica, feliz e honesta com sua filha! Ver surgir de repente do meio da extrema miséria todas as realidades do paraíso!

Olhou com expressão incrédula para o homem que lhe falava, e só pôde aliviar o peito do peso de tamanhas venturas no arquejar de dois ou três soluços. Os joelhos vergaram-se-lhe e, antes de Madelaine ter tempo de impedi-la, sen u-a agarrar-lhe as mãos e depor nelas os lábios ardentes.

Em seguida caiu desmaiada.

LIVRO SEXTO — JAVERT

I — Princípio de repouso

Madelaine mandou transportar Fan ne para a enfermaria que estabelecera na sua própria casa e confiou-a aos cuidados das duas irmãs de caridade, que trataram imediatamente de a deitar. Sobreviera-lhe uma febre ardente, de modo que passou parte da noite a delirar e a falar em voz alta. Por fim, adormeceu.

Quando no dia seguinte, por volta do meio-dia acordou, ouviu o sussurro de uma respiração muito próximo do leito, desviou o cor nado e deu com os olhos em Madelaine, de pé e olhando para o que quer que fosse que lhe ficava em frente Naquele olhar lia-se a piedade, a aflição e a súplica; Fan ne seguiu lhe a direcção e viu que se dirigia para um crucifixo pregado na parede.

Madelaine estava transfigurado aos olhos de Fan ne. Afigurava-se-lhe vê-lo rodeado de luz e absorvido numa oração. Contemplou-o durante muito tempo sem o interromper, até que por fim disse-lhe timidamente:

— Que está aí a fazer?

Havia uma hora que Madelaine ali estava, esperando que Fan ne acordasse. Pegou-lhe na mão, tomou-lhe o pulso e respondeu:

— Como está?

— Muito bem, dormi bastante e creio que estou melhor. Isto não há-de ser nada.

Madelaine con nuou, respondendo à pergunta que ela primeiro lhe fizera, como se ainda a ouvisse:

— Eu orava ao mártir que está no céu.

E acrescentou no seu pensamento: «Pela mártir que está na terra».

Madelaine, que levara a noite e a manhã a colher informações, já sabia tudo, conhecia a história de Fantine nos seus mais pungentes pormenores. Continuou, pois:

— Pobre mãe, o que tem sofrido! Mas não se las me agora, porque tem o dote dos escolhidos da mão de Deus. É assim que os homens fazem anjos. Mas não é por culpa deles; não sabem consegui-lo de outro modo. Esse inferno de que saiu é a primeira forma do céu. Era indispensável começar assim.

E suspirou profundamente. Fan ne, porém, sorria-lhe, com esse sorriso sublime a que faltavam dois dentes.

Naquela mesma noite, Javert escreveu uma carta que foi pessoalmente entregar na administração do correio de Montreuil-sur-mer no dia seguinte pela manhã. Era para Paris e ia dirigida ao senhor Chafoouillet, secretário do senhor prefeito da polícia. Como o caso passado na repar ção de polícia se havia divulgado, tanto os empregados do correio, como outras pessoas que viram a carta antes de seguir o seu des no e reconheceram a letra de Javert, julgaram que era a sua demissão o que ele enviava.

Madelaine apressou-se a escrever aos Thenardier, aos quais Fan ne devia cento e vinte francos e a quem ele remeteu trezentos, dizendo-lhes que se pagassem daquela quan a e trouxessem logo a criança a Montreuil-sur-mer, onde sua mãe doente a reclamava.

Os Thenardier ficaram deslumbrados.

— Com a fortuna! — exclamou o estalajadeiro, dirigindo-se à mulher. — Não devemos entregar a pequena, parece-me que vai ser uma mina. Eu já sei o que isto é: foi algum papalvo que se agradou da mãe.

A sua resposta foi uma conta de quinhentos e tantos francos. Nesta conta figuravam, deitando a mais de trezentos francos, duas verbas incontestáveis: uma de um médico e outra de um bo cário, os quais nham sido, respec vamente, assistente e fornecedor dos remédios em duas longas doenças de Azelma e Eponine. Cose e nunca es vera doente. Bastava portanto uma substituição de nomes para o negócio ser perfeito.

Thenardier escreveu no fim da carta: Recebi por conta trezentos francos.

Madelaine enviou imediatamente mais trezentos francos, recomendando que não se demorassem em mandar Cosette.

— Pois sim! Agora é que não a devemos largar!

Entretanto, Fantine não melhorava e continuava a permanecer na enfermaria.

As irmãs de caridade só com repugnância é que a princípio aceitaram e trataram

«daquela mulher perdida». Quem tem visto os baixos-relevos de Reims, lembra-se da intumescência do lábio inferior das virgens castas olhando para as mulheres impúdicas.

Este an go desprezo das vestais pelas mulheres da vida fácil é um dos mais profundos ins ntos da dignidade feminina; sen ram-no as irmãs, com o acréscimo de intensidade que lhes dá a religião. Fan ne desarmou-as, porém, em poucos dias, com as suas palavras cheias de doçura e humildade e com aquele enternecimento a que se não pode vedar o coração em presença de uma mulher que é mãe.

Um dia, as irmãs ouviram-na dizer, no meio do delírio da febre:

— Tenho sido uma pecadora, mas se chegar a ter comigo a minha filha, é porque Deus me perdoou. Enquanto es ve na má vida, não quis Cose e na minha companhia, porque não poderia suportar o espanto triste dos seus belos olhos. Contudo, foi por ela que eu me fiz má, e é talvez por isso que Deus me perdoou. Sen rei a bênção do Senhor quando ela aqui es ver vendo a sua inocência, sen r-me-ei melhor. Ela não sabe nada. É

um anjo, minhas irmãs. Naquela idade, ainda se conservam as asas.

Madelaine ia vê-la duas vezes por dia, e ela perguntava-lhe sempre: — Quando verei a minha Cosette?