Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 32 de 359

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Os Miseráveis

V — Em casa de Bombarda

As raparigas bonitas tornam-se graciosamente pródigas de si mesmas. Parece que aquilo jamais acabará. Os filósofos, os poetas, os pintores, contemplam estes êxtases e

não sabem o que hão-de fazer deles, tal é o seu deslumbramento. — A par da para Cythera! — exclama Wateatr, Lancret, o pintor da plebe, contempla os burgueses arrebatados para o espaço; Diderot estende os braços a todos estes amores de um dia e d’Urfe mistura-lhes druidas.

Depois do almoço, os quatro pares foram ver o que então se chamava o «Canteiro do Rei», uma planta há pouco chegada da Índia, cujo nome nos não lembra agora, e que naquela ocasião atraía Paris inteiro a Saint-Cloud. Era um esquisito e gracioso arbusto de haste elevada, cujos inumeráveis ramos, delgados como fios, sem folhas, eram cobertos de prodigiosa quantidade de pequeninas rosas brancas, o que dava ao arbusto o aspecto de uma cabeleira coberta de flores. Havia sempre grande multidão aadmirá-lo.

Visto o arbusto, Tholomyés exclamara:

— Ofereço jumentos!

E, ajustando o preço com um burriqueiro, nham voltado por Vanves e Issy, onde houve incidente.

O parque, propriedade nacional, possuído nesta época pelo fornecedor Bourguin, estava aberto. Entraram e visitaram na sua gruta o anacoreta autómato, experimentaram os efeitos misteriosos do famoso gabinete dos espelhos, lasciva armadilha digna de um sá ro transformado em milionário, ou de Turcaret metamorfoseado em Priapo. Baloiçaram robustamente o grande balanço preso aos dois castanheiros celebrados pelo abade de Bernis.

Enquanto as raparigas se baloiçavam uma após outra, o que fazia esvoaçar as saias entre risadas universais, o toulousiano Tholomyés, meio espanhol, visto Toulouse ser prima de Tolosa, pôs-se a cantar numa melancólica melopeia a an ga canção galega, provavelmente inspirada por alguma bonita rapariga, voando em toda a força sobre uma corda presa a duas árvores:

Soy de Badajoz,

Amor me llama

Toda mi alma

Es en mis ojos

Porque enseñas

A tus piernas.

Só Fantine recusou baloiçar-se.

— Gosto pouco de quem se faz assim importante! — murmurou Favorita agastada.

Abandonados os jumentos, novo prazer: passaram o Sena num barco, e de Passy dirigiram-se a pé para a barreira da Estrela. Aquelas alegres criaturas estavam a pé desde as cinco horas da manhã. «Quem sente cansaço ao domingo?» dizia Favorita. «Ao domingo não trabalha a fadiga.»

As três horas, os quatro pares, arquejantes de prazer, trepavam pelas montanhas russas, edi cio singular que ocupava então as alturas de Beaujon e cujo tortuoso lineamento se avistava por cima das árvores dos Campos Elíseos.

De vez em quando, Favorita exclamava:

— E a surpresa? Queremos essa surpresa!

— Tenham paciência — respondia Tholomyés.

V — Em casa de Bombarda

Terminado o diver mento das montanhas russas, trataram de ir jantar. Assim, o alegre grupo, já um tanto fa gado, fundeara na casa de pasto de Bombarda, sucursal estabelecida nos Campos Elíseos pelo célebre restaurante deBombarda, cuja tabuleta se ostentava então na rua de Rivolli, próximo à travessa Delorme.

Uma sala grande, mas feia, com uma cama ao fundo (em vista da grande afluência na casa de pasto aos domingos, os jovens tiveram de contentar-se com este aposento); duas janelas, de onde se podia contemplar por entre os olmos o cais e o rio; duas mesas: numa, uma triunfante pilha de ramos misturados com chapéus de homem e de mulher; na outra, os quatro pares sentados em volta de um risonho amontoamento de pratos, travessas, copos, garrafas de vinho e de canjirões de cerveja à mistura; pouca ordem sobre a mesa, alguma desordem por baixo dela:

Faziam sob a mesa

Um tal motim c’os pés que ensurdeciam.

diz Molière.

Eis aqui onde acabava, às quatro horas da tarde, a peregrinação pastoril principiada às cinco da manhã . O sol declinava e o apetite extinguia-se.

Os Campos Elíseos, cheios de sol e de gente , cobriam-se de luz e de poeira, duas coisas de que se compõem a glória Os cavalos de Marly, mármores relinchantes, empinavam-se no meio de uma nuvem dourada. Os carros iam e vinham. Pela avenida de Neuilly descia um esquadrão de magníficos guardas de corpo, de clarim na frente; a bandeira branca, ligeiramente rosada pelos úl mos raios de sol, flutuava na cúpula das Tulherias. A Praça da Concórdia, então praça de Luís XV, regurgitava de passeantes sa sfeitos Muitos traziam a flor de lis de prata pendente da fita branca, que em 1817

ainda não nha inteiramente desaparecido das casacas. Aqui e além, no meio dos passeantes que as cercavam e aplaudiam, viam-se grupos de raparigas dançando e lançando ao vento uma can ga bourboniana, então célebre,des nada a fulminar os Cem Dias, cujo estribilho era o seguinte:

Venha o nosso pai de Gand.

Venha, venha o nosso pai.

Grupos de habitantes dos arrabaldes em trajos domingueiros e alguns até com as suas flores de lis como os burgueses, espalhavam-se pelo grande jardim e pelo jardim de Marigny, jogavam as argolas e giravam nos cavalos de madeira; uns bebiam, outros, aprendizes de impressor, traziam barretes de papel; era uma mul dão compacta, cujas risadas se ouviam ao longe.

Todos se mostravam sa sfeitos. Era um tempo de incontestável paz e de profunda tranquilidade realista; era a época em que um relatório confidencial e especial do prefeito da polícia Anglès ao rei, a respeito dos arrabaldes de Paris, terminava por estas linhas: «Considerando bem, senhor, não há nada a recear da parte desta gente. São criaturas descuidosas e indolentes como gatos. O povo miúdo das províncias é desinquieto, o de Paris não. Compõem-se de homens pequenos. Seriam necessários dois para fazer um granadeiro de Vossa Majestade. Da parte do povo miúdo de Paris não há que recear. É notável como a estatura desta gente tem diminuído há cinquenta anos aesta parte; o povo dos arrabaldes está mais pequeno do que antes da Revolução: Não é