Os Miseráveis
I — Ziguezagues estratégicos
A velha não teria talvez nenhuma intenção; porém, Jean Valjean, julgou entrever-lhe uma.
Apenas a velha saiu, Jean Valjean embrulhou num papel cem francos que nha num armário e meteu-os no bolso. Por mais precauções, porém, que tomasse nesta operação, para que não o ouvissem mexer em dinheiro, escapou-lhe das mãos uma moeda de cem soldos que rolou pelo soalho.
Ao escurecer, desceu à porta da rua e olhou com atenção para todos os lados do boulevard, porém não viu ninguém. O boulevard parecia absolutamente deserto.
Verdade é que podia estar alguém escondido atrás das árvores.
Depois tornou a subir e disse para Cosette:
— Anda daí.
Pegou-lhe na mão e acto contínuo saíram de casa.
LIVRO QUINTO — PARA CAÇADA TENEBROSA MATILHA SILENCIOSA I — Ziguezagues estratégicos
Necessária se torna aqui uma observação para inteligência do que vai ler-se e do que mais adiante se verá.
Bastantes anos há já que o autor deste livro, com pesar obrigado a falar de si, vive ausente de Paris. Depois que ele de lá saiu, Paris transformou-se; surgiu uma nova cidade, que de certo modo lhe é desconhecida. Escusado é dizer que ama Paris, porque Paris é a cidade natal do seu espírito. Em virtude, porém, das demolições e reconstruções, o Paris da sua juventude, esse Paris que ele religiosamente tem trazido sempre gravado na memória, é a esta hora um Paris de outro tempo. Permitam-lhe falar desse Paris, como se ele ainda exis sse. Possível é que onde o autor conduzir os leitores, dizendo-lhes: «Em tal rua há tal casa», já hoje não exista nem casa nem rua.
Eles que verifiquem, se se quiserem dar a esse trabalho, que, pelo que lhe respeita, ignora o Paris novo e escreve com o Paris antigo à vista duma ilusão para ele preciosa.
É-lhe doce a lembrança de que atrás dele ficou alguma coisa do que viu quando estava na sua terra, e que nem tudo se desvaneceu. Enquanto a gente pisa o solo da pátria, imagina que lhe são indiferentes aquelas ruas; sem valor aquelas janelas, aqueles tectos e aquelas portas; estranhas aquelas paredes; como quaisquer outras aquelas árvores com que deparamos no nosso caminho; inúteis as casas em que entramos, simples pedras o pavimento em que pousamos os pés. Mais tarde, quando um súbito esforço da desgraça nos quebra os laços que nos prendiam ao país natal, vemos então que aquelas ruas nos são caras; que nos faltam aqueles tectos, aquelas janelas e aquelas portas; que nos são necessárias aquelas paredes; nossas bem amadas aquelas árvores; que naquelas casas, em que não entrávamos, todos os dias entrávamos; e que pegado àquele solo, que já não pisamos, deixamos parte das nossas entranhas, do nosso sangue e do nosso coração. Todos esses lugares, que já não vemos, que talvez não tornaremos a ver, tomam para nós um doloroso encanto, vem-nos à lembrança com a melancolia de uma aparição, tornam-nos visível a terra santa, e são, para assim dizer, a própria forma da França; e amamo-los e evocamo-los tais quais eles são, tais quais eles eram, e obs namo-nos neles e não os queremos alterar em nada, porque nos afeiçoamos à figura da pátria como ao rosto de uma mãe.
Seja-nos lícito falar do passado no presente. Dito isto, pedimos ao leitor que o tome em nota e continuamos.
Jean Valjean deixara logo o boulevard e embrenhara-se pelas ruas, dando o maior número de voltas que podia e voltando às vezes atrás a ver se alguém o seguia.
É manobra própria do veado perseguido pela ma lha. Nos terrenos em que podem ficar impressas as pegadas, tem esta manobra, entre outras vantagens, a de enganar no rasto os caçadores e os cães. Chama-se a isto na arte venatória retirada falsa.
Era uma noite de Lua cheia, com o que Jean Valjean bem pouco se dava. A Lua, ainda muito próxima do horizonte, projectava nas ruas grandes lanços de sombra e luz.
Jean Valjean podia, pois, deslizar ao longo das casas e das paredes, observando do lado escuro a parte clara. Talvez ele, porém, não reflec sse bem que lhe ficava por
sondar convenientemente o lado escuro; todavia, em todos os becos desertos próximos à rua de Poliveau, julgou com toda a certeza que ninguém ia atrás dele.
Cose e caminhava sem fazer perguntas. Os sofrimentos dos seis primeiros anos da sua vida nham introduzido alguma coisa de passivo na sua natureza. Além disso, e é este um reparo do qual mais do que uma vez teremos ocasião de nos ocuparmos, estava acostumada, sem bem ter consciência disso, às singularidades do velho e às extravagâncias do destino. Finalmente, sentia-se em segurança, estando com ele.
Jean Valjean não sabia melhor do que Cose e para onde ia. Confiava-se a Deus, como ela se confiava a ele. Parecia-lhe que também um ser maior do que ele lhe travava da mão e julgava sen r que um ente invisível o conduzia. Finalmente, não nha nenhum propósito deliberado, nenhum plano, nenhum projecto. Nem mesmo nha a certeza de que aquele homem fosse Javert, e quanto mais, podia ser Javert, sem que Javert soubesse que ele era Jean Valjean, Pois não andava disfarçado? Não o supunham morto?
Contudo, passavam-se coisas, havia alguns dias, que se tornavam singulares. Não lhe era preciso mais. Estava determinado a não tornar a pôr os pés na casa de Gorbeau. Como um animal expulso do covil, procurava uma cova para se esconder até encontrar outra onde se alojasse.
Jean Valjean descobriu grande número de variados labirintos no bairro de Mouffetard, já adormecido como se ainda vesse a disciplina da idade média e o jugo do toque a recolher, combinando de diversos modos, em sábias estratégias, a rua de Censier com a rua de Copeau, a rua do Passeio de S. Vítor com a do Poço do Ermitão.
Não falta por estes sí os quem alugue quartos mobilados, Jean Valjean, porém, nem neles entrou, porque não achou o que lhe convinha. Uma coisa que ele nha como fora de dúvida era que, ainda quando por acaso lhe vessem andado em busca do rasto, lho tinham perdido.
Ao dar onze horas em Santo Estêvão do Monte, atravessava ele a rua de Pontoise, em frente do comissariado da polícia, que fica na casa número 11. Alguns instantes depois, o ins nto obrigou-o a voltar-se e à luz do lampião do comissariado, que os punha a descoberto, viu dis ntamente passarem por baixo do dito lampião do lado da rua que estava em trevas três homens que o seguiam de muito perto. Um dos três homens entrou no corredor da casa do comissário. O que caminhava na frente pareceu-lhe com toda a certeza suspeito.
— Anda, filha — disse ele para Cosette, deixando com presteza a rua de Pontoise.
Para isso fez um rodeio, contornou a passagem dos Patriarcas, que estava fechada pelo adiantado da hora, percorreu com ligeireza a rua da Espada de Pau e a do Aríete e meteu-se pela das Postas, onde há um beco, em que hoje está o colégio Rollin, e ao qual vem sair a rua Nova de Santa Genoveva.
(Convém dizer que a rua Nova de Santa Genoveva é uma rua an ga e que pela rua das Postas nem de dez em dez anos passa uma sege de posta. Esta rua das Postas, no século XIII, era habitada por oleiros e o seu verdadeiro nome é o de rua dos Potes).
A lua lançava neste beco uma luz viva. Jean Valjean escondeu-se numa porta, calculando que, se os homens ainda o seguissem, não podia deixar de os ver, ao passarem por aquela claridade.