Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 208 de 359

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Os Miseráveis

XIV — Onde um agente da polícia dá duas pistolas de algibeira a um advogado

Ocorreu-lhe de repente a lembrança de olhar por cima do muro por junto do qual caminhava. Estavam com efeito ali dois homens, sentados sobre a neve, encostados à parede e falando em voz baixa.

Eram-lhe ambos desconhecidos. Um trazia grandes barbas e ves a uma blusa, o outro

com grande cabeleira e coberto de andrajos. O primeiro nha um gorro grego, o outro não tinha nada na cabeça e os cabelos estavam cobertos de neve.

Mário debruçando-se quase no muro por cima do sí o em que eles estavam, podia ouvir o que diziam.

O da cabeleira acotovelava o outro, dizendo-lhe:

— Com Patron-Minette não pode falhar.

— Julgas isso? — respondeu o das barbas.

O outro prosseguiu:

— Cada uma deve ter pelo menos uma es lha de quinhentas balas (uma parte de quinhentos francos), e o pior que pode custar são para aí uns cinco, seis ou dez anos, quando muito, de prisão.

O primeiro respondeu com alguma hesitação e batendo o queixo com o frio:

— Esta parece-me que é a valer, mas não se pode ir ao encontro das coisas assim.

— Afianço-te que não pode falhar — tornou o da cabeleira.

— A capoeira do tio Coisa, há-de estar à espera.

Depois passaram a falar dum melodrama que na véspera nham visto no teatro da Gaité.

Mário continuou o seu caminho.

Pareceu-lhe que as palavras obscuras daqueles homens, tão estranhamente escondidos por detrás daquele muro e acocorados sobre a neve, não deixavam de ter relação com os abomináveis projectos de Jondre e. Aqueles dois homens tratavam decerto do tal negócio .

Dirigiu-se em seguida para o arrabalde de S. Marcai e na primeira loja que encontrou perguntou onde havia um comissário de polícia.

Indicaram-lhe a rua Pontoise número 14 e Mário tomou essa direcção.

Passando por um padeiro, comprou um pãozinho de dois soldos e comeu-o, prevendo que não jantaria.

Durante o caminho fez jus ça à Providência. Pensou em que se não vesse dado de manhã os seus cinco francos à filha de Jondre e, seguiria o carro do senhor Leblanc, e por consequência não teria conhecimento de coisa alguma; que não haveria nada que obstasse à cilada dos Jondre e, que o senhor Leblanc estaria perdido, e com ele, decerto, sua filha.

XIV — Onde um agente da polícia dá duas pistolas de algibeira a um advogado Chegando ao número 14 da rua de Pontoise, Mário subiu ao primeiro andar e perguntou pelo comissário de polícia.

— O senhor comissário não está cá — disse um escrevente mas está um inspector que faz as suas vezes. — É para caso urgente? Quer falar-lhe?

— Imediatamente — respondeu Mário.

O escrevente introduziu-o no gabinete do comissário.

Ali encontrou um homem de elevada estatura, de pé por detrás de uma grade, encostado a um fogão e levantando com ambas as mãos as abas de um vasto sobretudo de três cabeções. Tinha um rosto quadrado, uma boca pequena e firme, espessas suíças

grisalhas e um olhar capaz de despejar bolsos. Era um olhar do qual se poderia dizer que não penetrava, mas que apalpava.

O aspecto daquele homem não era menos feroz nem menos terrível de que o de Jondre e; muitas vezes não é menos inquietador o encontro de um cão de fila do que o de um lobo.

— O que quer? — perguntou ele abruptamente a Mário, sem anteceder a pergunta de qualquer fórmula de tratamento.

— O senhor comissário de polícia?

— Está ausente, mas eu represento-o.

— Trata-se de um assunto muito secreto.

— Pode falar.

— É da maior urgência.

— Então diga depressa.

Aquele homem sereno e arrebatado, era ao mesmo tempo medonho e tranquilizador.

Inspirava receio e confiança.

Mário contou-lhe o caso. Disse-lhe que um sujeito, que ele não conhecia senão de vista, devia ser naquela mesma noite ví ma duma cilada; que morando ele, Mário Pontmercy, advogado, num quarto vizinho do covil, surpreendera. Toda a trama através de um tabique; que o celerado que imaginara a cilada era um tal Jondre e, que parecia ter cúmplices, provavelmente ratoneiros das barreiras; entre outros um certo Panchaud, conhecido por Piintanier e por Bigrenaille; que as filhas de Jondre e estariam de sen nela; que não nha meio algum de prevenir o indivíduo ameaçado, por isso que nem mesmo sabia como se chamava; e que enfim tudo isto se devia executar às seis horas da tarde, no ponto mais deserto do boulevard do Hospital, na casa número 50-52.

O inspector ouvindo este inúmero ergueu a cabeça e disse friamente:

— Então é no quarto do fim do corredor.

— Precisamente — disse Mário, acrescentando: — Conhece a casa?

O inspector conservou-se por um momento silencioso e respondeu depois, aquecendo a sola da bota na boca do fogão:

— Aparentemente.

E continuou por entre dentes, falando menos com Mário do que com a sua gravata:

— Nisto deve andar o que quer que seja de Patron-Minette!

Estas palavras impressionaram Mário.

— Patron-Minette — repetiu ele. — Ouvi com efeito pronunciar esse nome.

E contou ao inspector o diálogo do homem de cabeleira com outro barbudo, que estavam sentados na neve por detrás do muro da rua do Petit-Banquier.

O inspector resmungou:

— O da cabeleira deve ser Brujon, e o das barbas o Demi-Liard, conhecido por Deux Miliards.

Depois baixou novamente os olhos e pôs-se a meditar.

— Quanto ao o Coisa, parece-me que também sei quem é. Lá queimei o casaco.

Fazem sempre lume demasiado nestes malditos fogões! Número 50-52. An ga

propriedade Gorbeau.

Em seguida olhou para Mário e perguntou-lhe:

— Não viu senão o tal barbudo e o da cabeleira?

— Vi também Panchaud.

— Não viu girar por lá uma espécie de peraltazinha do diabo?

— Não vi

— Nem um brutalhão enorme semelhante ao elefante do Jardim das Plantas?

— Não, senhor

— Nem um velhaquete assim com ares de pinto calçudo?

— Também não.

— Quanto ao quarto, esse ninguém o vê, nem mesmo os seus ajudantes, caixeiros e empregados. Admira-me pouco que o não tenha visto.

— Não vi, decerto. Mas que espécie de gente é essa? — perguntou Mário.

O inspector respondeu:

— Além disso não é ainda a hora dele.

E depois de tornar a conservar-se por um momento silencioso, continuou:

— Número 50-52. Conheço a espelunca. É impossível escondermo-nos no interior sem que os ar stas dêem por isso; se tal sucedesse, limitar-se-iam a transferir o espectáculo.

São muito modestos, incomoda-os o público. Nada, nada! Quero ouvi-los cantar para os fazer dançar.

Terminado este monólogo voltou-se para Mário e perguntou-lhe, fitando-o:

— Terá medo?

— De quê? — disse Mário.

— Dos tais homens.

— Tanto como de si! — replicou rudemente Mário, começando a notar que o beleguim o não tratara por senhor.

O inspector encarou Mário ainda com maior fixidez e con nuou com uma espécie de solenidade sentenciosa:

— Fala como homem destemido e honesto. A coragem não receia o crime, nem a honradez a autoridade.

Mário interrompeu-o:

— Mas que tenciona fazer?

O inspector limitou-se a responder:

— Os inquilinos dessa casa têm todos chave de trinco para de noite abrirem a porta da rua. Deve ter a sua.

— Tenho.