Os Miseráveis
XIV — Onde um agente da polícia dá duas pistolas de algibeira a um advogado
Ocorreu-lhe de repente a lembrança de olhar por cima do muro por junto do qual caminhava. Estavam com efeito ali dois homens, sentados sobre a neve, encostados à parede e falando em voz baixa.
Eram-lhe ambos desconhecidos. Um trazia grandes barbas e ves a uma blusa, o outro
com grande cabeleira e coberto de andrajos. O primeiro nha um gorro grego, o outro não tinha nada na cabeça e os cabelos estavam cobertos de neve.
Mário debruçando-se quase no muro por cima do sí o em que eles estavam, podia ouvir o que diziam.
O da cabeleira acotovelava o outro, dizendo-lhe:
— Com Patron-Minette não pode falhar.
— Julgas isso? — respondeu o das barbas.
O outro prosseguiu:
— Cada uma deve ter pelo menos uma es lha de quinhentas balas (uma parte de quinhentos francos), e o pior que pode custar são para aí uns cinco, seis ou dez anos, quando muito, de prisão.
O primeiro respondeu com alguma hesitação e batendo o queixo com o frio:
— Esta parece-me que é a valer, mas não se pode ir ao encontro das coisas assim.
— Afianço-te que não pode falhar — tornou o da cabeleira.
— A capoeira do tio Coisa, há-de estar à espera.
Depois passaram a falar dum melodrama que na véspera nham visto no teatro da Gaité.
Mário continuou o seu caminho.
Pareceu-lhe que as palavras obscuras daqueles homens, tão estranhamente escondidos por detrás daquele muro e acocorados sobre a neve, não deixavam de ter relação com os abomináveis projectos de Jondre e. Aqueles dois homens tratavam decerto do tal negócio .
Dirigiu-se em seguida para o arrabalde de S. Marcai e na primeira loja que encontrou perguntou onde havia um comissário de polícia.
Indicaram-lhe a rua Pontoise número 14 e Mário tomou essa direcção.
Passando por um padeiro, comprou um pãozinho de dois soldos e comeu-o, prevendo que não jantaria.
Durante o caminho fez jus ça à Providência. Pensou em que se não vesse dado de manhã os seus cinco francos à filha de Jondre e, seguiria o carro do senhor Leblanc, e por consequência não teria conhecimento de coisa alguma; que não haveria nada que obstasse à cilada dos Jondre e, que o senhor Leblanc estaria perdido, e com ele, decerto, sua filha.
XIV — Onde um agente da polícia dá duas pistolas de algibeira a um advogado Chegando ao número 14 da rua de Pontoise, Mário subiu ao primeiro andar e perguntou pelo comissário de polícia.
— O senhor comissário não está cá — disse um escrevente mas está um inspector que faz as suas vezes. — É para caso urgente? Quer falar-lhe?
— Imediatamente — respondeu Mário.
O escrevente introduziu-o no gabinete do comissário.
Ali encontrou um homem de elevada estatura, de pé por detrás de uma grade, encostado a um fogão e levantando com ambas as mãos as abas de um vasto sobretudo de três cabeções. Tinha um rosto quadrado, uma boca pequena e firme, espessas suíças
grisalhas e um olhar capaz de despejar bolsos. Era um olhar do qual se poderia dizer que não penetrava, mas que apalpava.
O aspecto daquele homem não era menos feroz nem menos terrível de que o de Jondre e; muitas vezes não é menos inquietador o encontro de um cão de fila do que o de um lobo.
— O que quer? — perguntou ele abruptamente a Mário, sem anteceder a pergunta de qualquer fórmula de tratamento.
— O senhor comissário de polícia?
— Está ausente, mas eu represento-o.
— Trata-se de um assunto muito secreto.
— Pode falar.
— É da maior urgência.
— Então diga depressa.
Aquele homem sereno e arrebatado, era ao mesmo tempo medonho e tranquilizador.
Inspirava receio e confiança.
Mário contou-lhe o caso. Disse-lhe que um sujeito, que ele não conhecia senão de vista, devia ser naquela mesma noite ví ma duma cilada; que morando ele, Mário Pontmercy, advogado, num quarto vizinho do covil, surpreendera. Toda a trama através de um tabique; que o celerado que imaginara a cilada era um tal Jondre e, que parecia ter cúmplices, provavelmente ratoneiros das barreiras; entre outros um certo Panchaud, conhecido por Piintanier e por Bigrenaille; que as filhas de Jondre e estariam de sen nela; que não nha meio algum de prevenir o indivíduo ameaçado, por isso que nem mesmo sabia como se chamava; e que enfim tudo isto se devia executar às seis horas da tarde, no ponto mais deserto do boulevard do Hospital, na casa número 50-52.
O inspector ouvindo este inúmero ergueu a cabeça e disse friamente:
— Então é no quarto do fim do corredor.
— Precisamente — disse Mário, acrescentando: — Conhece a casa?
O inspector conservou-se por um momento silencioso e respondeu depois, aquecendo a sola da bota na boca do fogão:
— Aparentemente.
E continuou por entre dentes, falando menos com Mário do que com a sua gravata:
— Nisto deve andar o que quer que seja de Patron-Minette!
Estas palavras impressionaram Mário.
— Patron-Minette — repetiu ele. — Ouvi com efeito pronunciar esse nome.
E contou ao inspector o diálogo do homem de cabeleira com outro barbudo, que estavam sentados na neve por detrás do muro da rua do Petit-Banquier.
O inspector resmungou:
— O da cabeleira deve ser Brujon, e o das barbas o Demi-Liard, conhecido por Deux Miliards.
Depois baixou novamente os olhos e pôs-se a meditar.
— Quanto ao o Coisa, parece-me que também sei quem é. Lá queimei o casaco.
Fazem sempre lume demasiado nestes malditos fogões! Número 50-52. An ga
propriedade Gorbeau.
Em seguida olhou para Mário e perguntou-lhe:
— Não viu senão o tal barbudo e o da cabeleira?
— Vi também Panchaud.
— Não viu girar por lá uma espécie de peraltazinha do diabo?
— Não vi
— Nem um brutalhão enorme semelhante ao elefante do Jardim das Plantas?
— Não, senhor
— Nem um velhaquete assim com ares de pinto calçudo?
— Também não.
— Quanto ao quarto, esse ninguém o vê, nem mesmo os seus ajudantes, caixeiros e empregados. Admira-me pouco que o não tenha visto.
— Não vi, decerto. Mas que espécie de gente é essa? — perguntou Mário.
O inspector respondeu:
— Além disso não é ainda a hora dele.
E depois de tornar a conservar-se por um momento silencioso, continuou:
— Número 50-52. Conheço a espelunca. É impossível escondermo-nos no interior sem que os ar stas dêem por isso; se tal sucedesse, limitar-se-iam a transferir o espectáculo.
São muito modestos, incomoda-os o público. Nada, nada! Quero ouvi-los cantar para os fazer dançar.
Terminado este monólogo voltou-se para Mário e perguntou-lhe, fitando-o:
— Terá medo?
— De quê? — disse Mário.
— Dos tais homens.
— Tanto como de si! — replicou rudemente Mário, começando a notar que o beleguim o não tratara por senhor.
O inspector encarou Mário ainda com maior fixidez e con nuou com uma espécie de solenidade sentenciosa:
— Fala como homem destemido e honesto. A coragem não receia o crime, nem a honradez a autoridade.
Mário interrompeu-o:
— Mas que tenciona fazer?
O inspector limitou-se a responder:
— Os inquilinos dessa casa têm todos chave de trinco para de noite abrirem a porta da rua. Deve ter a sua.
— Tenho.