Os Miseráveis
III — De como era preciso que a grilheta tivesse passado por alguma operação preparatória para assim se quebrar com uma só martelada
— Apliquemos-lhe então a do vinho — disse Thenardier.
Foi um momento enquanto se pôs o plano em execução e se deu de beber até fartar ao velho cantoneiro. Boulatruelle, porém, bebeu extraordinariamente, mas falou pouco, combinando com admirável ar
cio e em proporções magistrais a sede de um bebedor
de fama com a discrição de um juiz. A força, porém, de voltar à carga e de confrontar e revirar as poucas e obscuras frases que ele deixou escapar, Thenardier e o mestre-escola julgaram compreender o seguinte:
Boulatruelle, ao dirigir-se um dia ao amanhecer para o trabalho, ficou decerto maravilhado de ver, para assim dizer escondidos, debaixo de uma moita, num lugar escuso do bosque, uma pá e um alvião; mas, cuidando que talvez fosse a pá e o alvião
do senhor Six-Fours, aguadeiro, nem de tal coisa se tornou a lembrar. Na tarde, porém, desse mesmo dia, Boulatruelle viu, sem poder ser visto, por se achar encoberto com o tronco de uma árvore gigantesca, dirigir-se da estrada para o mais cerrado do bosque
«um sujeito que não era daqueles sí os, mas que ele conhecia perfeitamente», e cujo nome Boulatruelle obs nadamente se recusara a declarar. Este sujeito, que, segundo a tradição de Thenardier, era um companheiro das galés de Boulatruelle, trazia um embrulho, um objecto quadrado parecido com uma boceta grande ou com um caixão pequeno. Boulatruelle, ao ver aquilo, ficou estupefacto, de modo que só passados sete ou oito minutos foi que lhe ocorreu a ideia de seguir «o sujeito». Mas já era demasiado tarde; o sujeito entranhara-se no mais emaranhado da floresta, e como já era noite fechada, Boulatruelle não pôde dar com o lugar para onde ele deitou e tomou então a resolução de percorrer o bosque todo, «pois fazia luar». Daí por duas ou três horas, Boulatruelle viu o sujeito tornar a sair da espessura do bosque, trazendo desta feita não o tal caixãozinho, mas um alvião e uma pá. Boulatruelle deixara-o passar sem tomar logo a resolução de se acercar dele, porque se lembrou que, sendo o outro três vezes mais forte, e achando-se de mais a mais armado de um alvião, daria decerto cabo dele, conhecendo-o e vendo-se conhecido. Tocante efusão de dois an gos camaradas que se tornam a ver!
O alvião e a pá foram, porém, um raio de luz para Boulatruelle, que correu ao sí o onde pela manhã vira dois objectos semelhantes escondidos entre o mato e não encontrou nem uma coisa nem outra. Daqui concluiu ele que o tal sujeito que vira entrar para o bosque abrira algures uma cova com o alvião para enterrar o caixão e que depois a tapara com a pá. Ora, o caixão era pequeno de mais para conter um cadáver; logo con nha dinheiro, e daí as suas pesquisas. Boulatruelle explorou, sondou, vasculhou, remexeu todos os lugares onde a terra lhe pareceu revolvida de fresco, mas debalde.
Por mais que fizesse, não «desencantou» coisa nenhuma, de modo que ninguém em Mon ermeil se tornara mais a lembrar de tal. Apenas algumas honradas vizinhas disseram umas para as outras nos seus conciliábulos: «Tenham por certo que o cantoneiro de Gagny não andava com todos aqueles escavadouros se não pressen sse isca; certo é que o diabo sempre apareceu».
III — De como era preciso que a grilheta tivesse passado por alguma operação preparatória para assim se quebrar com uma só martelada
Pelos fins de Outubro de 1823, os habitantes de Toulon viram entrar no seu porto, para reparar algumas avarias que lhe causara uma tempestade, a nau Orion, que depois foi empregada em Brest, como vaso de escola naval, mas que então fazia parte da esquadra do Mediterrâneo.
A entrada deste navio no porto, apesar de escalavrado com os estragos que lhe havia causado o temporal, foi aparatosa. O pavilhão que trazia hasteado valeu-lhe uma salva regulamentar de onze tiros de peça, aos quais respondeu com outros onze, total de vinte e dois ros. Tem-se calculado que em salvas, cumprimentos reais e militares, troca de estrondosas cortesias, sinais de e queta, formalidades de portos e cidadelas salvas ao nascer e pôr do sol, ao abrir e fechar dos portos, dadas quo dianamente por todas as
fortalezas e navios de guerra, etc., etc., dispara o mundo civilizado todas as vinte e quatro horas, cento e cinquenta mil ros de peças inúteis na terra toda. Ora, a seis francos cada ro, perfaz tudo novecentos mil francos (Ao câmbio an go) por dia, ou trezentos milhões por ano, que se vão em fumo. Isto é apenas um pormenor. Neste meio tempo, os pobres morrem de fome.
O ano de 1823 foi aquele a que a Restauração chamou a época da guerra de Espanha.
Esta guerra encerrava num só muitos acontecimentos e grande força de singularidades. Uma importante questão de família concernente à casa de Bourbon; o socorro e protecção que o ramo de França dispensava ao ramo de Espanha, isto é, o esforço que aquele fazia para provar os seus direitos de primogenitura; um aparente retrocesso às nossas tradições nacionais, de envolta com a sujeição e a escravidão aos gabinetes do norte; a compreensão que o duque de Angoulême, apelidado pelas gazetas liberais herói de Andujar, exercia numa a tude triunfal, algum tanto contrariada pelo seu gesto pacífico, sobre o velho terrorismo, mais que real, do santo o cio, em luta com o terrorismo quimérico dos liberais; a ressurreição dos sem calções, com grande horror das matronas nobres, debaixo do nome de descamisados; os obstáculos que o monarquismo fazia ao progresso alcunhado de anarquia; a repen na interrupção das teorias de 89 na sapa; um basta in mado pela Europa à ideia francesa, realizando a volta ao mundo; ao lado do filho de França generalíssimo, o príncipe de Carignan, depois Carlos Alberto, envolvido como voluntário nesta cruzada dos reis contra os povos, com as suas dragonas de granadeiro de lã vermelha; nova entrada em campanha de soldados do império, porém após oito anos de repouso, envelhecidos, tristes e com o laço branco ao peito; a bandeira tricolor agitada no estrangeiro por um heróico punhado de franceses, como trinta anos antes o fora a bandeira branca em Coblentz; os frades à mistura com os soldados dos nossos batalhões; o espírito de liberdade e de novidade feito entrar na razão pelas baionetas; os princípios hasteados a ros de peça; a França desfazendo pelas armas o que nha feito pelo espírito; por úl mo a venda dos chefes inimigos, a hesitação dos soldados, as cidades cercadas por milhões; a ausência de perigos militares, e, todavia, a possibilidade de diferentes explosões, como numa mina invadida de surpresa; o pouco sangue derramado, a pouca honra conquistada; a vergonha para alguns, para nenhum a glória — eis no que consis u esta guerra feita por príncipes que descendiam de Luís XVI e comandada por generais que nham servido Napoleão, luta que teve a triste sorte de não fazer recordar a grande guerra nem a grande política.
Alguns feitos de armas, porém, foram importantes; entre outros, a tomada do Trocadero foi uma bela acção militar; mas, em suma, repe mos, as trombetas desta guerra produzem um som fanhoso, o todo foi suspeito e a história aprova a França na dificuldade com que aceita este falso triunfo. Pareceu coisa evidente que alguns oficiais espanhóis encarregados da resistência cediam com demasiada facilidade, da vitória desprendeu-se a ideia de corrupção, afigurou-se a muitos que o que fora ganho mais haviam sido os generais do que as batalhas e o soldado vencedor recolheu-se humilhado. Guerra que diminuía de efeito, porque nas dobras da bandeira pareciam ler-
se as palavras — Banco de França — em caracteres distintos.
Soldados houve da guerra de 1808 sobre quem, com estampido assustador, desabaram as muralhas de Saragoça, que em 1823 franziam o sobrolho ao ver a facilidade com que se lhes abriam as cidadelas e que nham saudades de Palafox. É o génio da França: gostar ainda mais de ter na sua frente Rostopchine do que Ballesteros.
Sob um ponto de vista ainda mais grave, sobre o qual convém também insis r, esta guerra, que dava ansa ao enfraquecimento do espírito militar em França, causava a indignação do espírito democrá co. Era uma tenta va de servidão. O alvo a que nesta campanha tendiam os esforços do soldado francês, filho da democracia, era a conquista de um jugo para outrem. Disforme contra-senso! A França é feita para despertar a alma dos povos, não para a sufocar. Desde 1792 para cá, todas as revoluções da Europa são a revolução francesa; é de França que irradia a liberdade para todos os outros povos. É um facto solar este. Cego quem o não vê! Assim o disse Bonaparte.
A guerra de 1823 era, pois, juntamente um atentado contra a generosa nação espanhola e um atentado contra a revolução francesa. Quem come a essa via de facto monstruosa era a França, mas à força, que à força é quanto os exércitos pra cam, não tendo a liberdade por alvo. Indica-o a frase obediência passiva. Um exército é um estranho primor de combinação, em que a força resulta de uma grande soma de impotências. Deste modo explica-se a guerra feita pela humanidade contra a humanidade, contra a vontade da humanidade.
Pelo que respeita aos Bourbons, foi-lhes fatal a guerra de 1823, conquanto a vessem tomado por um sucesso. É que não viram o perigo que resulta de querer matar uma ideia com uma senha, iludindo-se a tal ponto na sua simplicidade, que introduziram como elemento de força no seu estabelecimento a acção imensamente debilitante de um crime. De modo que a sua polí ca tornou-se insidiosa, deitaram à terra em 1823, o gérmen de 1830 e a campanha de Espanha serviu de argumento para as violências e azares do direito divino. Como a França restabelecera el-rei neto em Espanha, entenderam, que também podia muito bem restabelecer dentro de si o rei absoluto, e desse modo vieram a cair no terrível erro de tomar a obediência do soldado pelo consen mento da nação. Esta confiança é que deita os tronos a perder. Não convém adormecer nem à sombra da mancenilheira, nem a sombra de um exército.
Voltemos, porém, à Orion.
Enquanto duravam as operações do exército comandado pelo príncipe generalíssimo, cruzava no Mediterrâneo uma esquadra, e, como atrás dissemos, a Orion pertencia a essa esquadra e dera entrada no porto de Toulon obrigada pelas avarias que lhe causara uma tempestade no mar.
A presença de um navio de guerra num porto tem certo atrac vo que chama e prende as atenções da mul dão. É que há nisto certa grandeza, e a mul dão ama tudo o que é grande.
Uma nau de linha é um dos encontros mais magníficos entre o génio do homem e o imenso poder da natureza.
Uma nau de linha é composta simultaneamente das coisas mais pesadas e mais leves
que há, porque ao mesmo tempo tem de lidar com as três formas da substância, sólido, líquido e fluído, e contra todas três lutar. Tem onze garras de ferro para cravar no granito que forra o fundo do mar, e mais asas e antenas que os insectos voláteis para subirem às nuvens a recolher o hálito dos ventos. Cento e vinte canhões dão livre saída à sua respiração estrondosa, como outras tantas enormes trombetas, e respondem al vamente ao raio. Forceja o Oceano pela desvairar na imensidade das suas vagas, todas entre si terrivelmente semelhantes, porém o navio tem uma alma, a bússola, e a bússola aconselha-o apontando-lhe sempre o norte. Nas noites escuras, quando a vista do anil do céu é vedada aos olhos dos peregrinos do mar, os faróis que acende suprem as estrelas, que encobrem a serração. Assim, pois, contra o vento tem ela as cordas e os panos, contra a água a madeira, contra a rocha o ferro, o cobre, o chumbo, contra a sombra a luz, contra a imensidade uma agulha.
Quem quiser formar ideia de todas as proporções gigantescas, cujo conjunto cons tui a nau de linha, não tem mais do que entrar nos estaleiros cobertos, de seis andares, dos portos de Brest ou Toulon, onde os navios em construção se encontram, para assim dizer, como que debaixo de uma campânula. Aquela trave colossal é uma verga; aquela grossa coluna de madeira, que jaz no chão, é o mastro grande, o qual desde a ponta da raiz até ao cimo, que se perde nas nuvens, tem sessenta toesas de comprimento e três pés de diâmetro na base, O mastro grande inglês eleva-se a duzentos e dezassete pés acima da linha de flutuação. A marinha dos nossos antepassados empregava cabos, nós empregamos correntes. O simples montão de correntes, que traz em si uma nau de cem peças, tem quatro pés de altura, vinte de largura e oito de profundidade. E para construir um navio assim que quan dade de madeira não é precisa? Três mil esteres ou metros cúbicos. É uma floresta flutuante.
E note-se que só se trata aqui da embarcação militar de há quarenta anos, do simples navio de vela; o vapor, então na sua infância, acrescentou depois novos milagres ao prodígio chamado navio de guerra. Presentemente, o navio misto de hélice, por exemplo, é uma máquina maravilhosa, impelida por um velame que tem três mil metros quadrados de superfície e por uma caldeira da força de dois mil e quinhentos cavalos.
Sem falar dessas novas maravilhas, o an go navio de Cristóvão Colombo e de Ruyter é uma das grandes obras-primas do homem. Inesgotável em força, como o infinito em sopros, aloja o vento nas suas velas, flutua e reina, sem se extraviar da esteira que segue, na imensa difusão das vagas.
Chega, porém, uma hora em que o sopro da tempestade parte, como uma haste de palha, aquela trave de sessenta pés de comprimento; em que o vento rijo do furacão verga como um vime aquele mastro de quatrocentos pés de altura; em que aquela âncora que pesa trezentas arrobas se torce nas goelas da vaga, como o anzol do pescador nas guelras de um peixe, em que aqueles canhões monstruosos soltam rugidos lamentosos e inúteis, que o furacão arrebata pela amplidão do espaço e por entre a serração da procela; em que, finalmente, todo aquele poder e majestade se abisma e se sente à mercê de um poder superior, de uma majestade mais alta.
Todas as vezes que uma força imensa se expande para chegar a uma imensa fraqueza,
o homem involuntariamente é levado a meditar. Daqui provém, portanto, a mul dão de curiosos que pejam os cais de qualquer porto, e que, sem bem saberem porquê, rodeiam essas maravilhosas máquinas de guerra e de navegação.
Todos os dias, pois, desde pela manhã até à noite, estavam os cais, parapeitos e molhes do porto de Toulon sempre cobertos de ociosos e basbaques, como em Paris se diz, que vinham ali e se demoravam só para ver a Orion.
A Orion era um navio doente, cujos achaques havia muito duravam. Nas suas viagens anteriores haviam-se-lhe amontoado na quilha e adjacências tão espessa camada de conchas e lixo, que a sua velocidade ficava reduzida a metade, o que fez com que no ano antecedente o vessem posto em seco para lhe rasparem o lixo e as conchas, depois do que o lançaram de novo ao mar. Esta operação, porém, alterou-lhe o cavilhame da quilha, de modo que na altura das Baleares, as juntas abriram, e como então as embarcações não eram forradas de folha de ferro, o navio fez água. Além disto, sobreveio um temporal equinocial que lhe quebrou o talha-mar pelo lado de bombordo, metendo-lhe dentro uma canhoneira e danificando-lhe o joanete de proa e a cevadeira.
Em virtude, pois, destas avarias, a Orion recolheu-se a Toulon, onde estava fundeado junto do Arsenal, sofrendo os concertos de que carecia e aprestando-se para voltar de novo ao tráfego da navegação. O casco pelo lado de es bordo não sofrera dano; porém, segundo o costume, estavam despregadas algumas cintas do costado aqui e ali para deixar penetrar o ar no cavername.
Um dia, pela manhã, a mul dão que ali se aglomerava a contemplá-lo foi testemunha de um desastre.
Estando a tripulação a tratar de ferrar o velame, o gajeiro, que se ocupava a cozer a vela da mezena de es bordo, para a riçar, perdeu o equilíbrio, ameaçando despenhar-se da grande altura a que estava. Ao vê-lo cambalear pela falta de apoio, a mul dão que se aglomerava no cais do Arsenal soltou unânime um grito de pavor. A cabeça pesou-lhe mais que o resto do corpo e o homem deu uma volta em roda da verga com as mãos estendidas para o abismo; no ímpeto da queda, porém, em que se ia a despenhar, lançou uma das mãos aos ovens, em seguida a outra e ficou dependurado no ar, com o mar por baixo a uma profundidade que causava ver gens. O abalo da queda, porém, imprimira aos ovens um violento movimento de vaivém, de modo que o homem ficou baloiçando na ponta daquela corda como a pedra de uma funda.
Ir em socorro dele era correr um risco terrível. Nenhum dos marinheiros, todos pescadores da costa, havia pouco recrutados para o serviço da armada, a tal ousava aventurar-se. Entretanto, o infeliz gajeiro ia perdendo as forças, pois bem que se lhe não visse a angús a do rosto, conhecia-se-lhe em todos os membros que eles iam a cansar-se-lhe. Os braços repuxavam-se-lhe em sacudidelas horríveis. A cada esforço que ele fazia para tentar subir à altura do apoio que lhe faltara, aumentavam as oscilações do cabo a que se agarrara na queda; mas, apesar de serem dolorosos os impulsos que o balanço da corda lhe causavam, não gritava com medo de perder forças. A cada instante se esperava o momento em que ele largaria a corda e todas as cabeças se voltavam por vezes para o lado, a fim de o não verem despenhar-se. Há ocasiões em que a ponta de uma corda,
uma vara, o esgalho de uma árvore são a própria vida, e é uma coisa horrorosa ver despegar-se e cair delas um ser animado, como se fora um fruto maduro.
De súbito, os olhos de toda aquela mul dão ansiosa avistaram um homem trepando pelo cordame com a agilidade de um símio. Esse homem era um forçado, pois estava ves do de vermelho, e um forçado por toda a vida, porque trazia um barrete verde. Ao chegar ao cesto da gávea, uma rajada de vento arrebatou-lhe o barrete, deixando a descoberto uma cabeça toda branca; aquele homem pois, não era um rapaz.
Efec vamente, apenas o homem ficara desastrosamente dependurado, um forçado, que fazia parte de uma chusma empregada a bordo da Orion, correu à presença do oficial de quarto, no meio da perturbação e hesitação da equipagem, e enquanto todos os marinheiros tremiam e recuavam, ele pediu licença para ir arriscar a sua vida pela salvação do gajeiro. A um sinal afirma vo do oficial, quebrara com uma martelada o gancho da grilheta que lhe prendia o pé, e depois de ter pegado numa corda, a rou-se aos ovens. Ninguém naquela ocasião fez reparo na facilidade com que ele quebrou a cadeia. Só mais tarde é que tal circunstância foi lembrada.
O forçado chegou à verga num abrir e fechar de olhos e parou alguns segundos como que a medi-la com a vista. Estes segundos, porém, durante os quais o vento baloiçava o gajeiro na extremidade de uma corda, pareceram séculos aos que estavam a ver. Por fim, o forçado elevou os olhos ao céu e deu um passo para diante. A mul dão respirou.
Viram-no ir a correr pela verga adiante. Chegado à extremidade dela, atou uma ponta da corda que trouxera, deitou abaixo a outra e principiou a descer com as mãos ao longo da corda que deixara pendente. Tornou-se então inexprimível a angús a que oprimiu o peito dos espectadores; em lugar de um homem suspenso sobre o abismo eram agora dois.
Dir-se-ia que aquele homem era uma aranha aprestando-se para se apossar de uma mosca, com a diferença, porém, de que a aranha ali levava a vida e não a morte.
Dez mil olhares estavam fixos naquele grupo. Nem um grito, nem uma palavra só, o mesmo tremor enrugava a fronte de todos. No meio daquela mul dão nem uma só boca deixava de comprimir a respiração, como que temendo juntar o mais ligeiro hálito ao vento que sacudia os dois desgraçados.
Neste meio tempo, o forçado nha conseguido chegar ao pé do marinheiro em perigo.
Era tempo: um minuto mais e o homem, exausto de forças e desesperado de socorro, deixar-se-ia cair no abismo. O forçado amarrou-o solidamente com a corda, à qual se segurava com uma das mãos enquanto com a outra trabalhava, e a mul dão viu-o enfim tornar a guindar-se para a verga e içar o marinheiro para aquele lugar, no qual o susteve um instante para o deixar recuperar forças, e, agarrando-o em seguida nos braços, trazê-lo neles até ao cepo, caminhando pela verga adiante e dali até ao cesto da gávea, onde o deixou nas mãos dos companheiros.
Neste momento a mul dão rompeu em aplausos; dos olhos de alguns velhos guardas das galés rebentaram involuntárias as lágrimas, no cais, as mulheres abraçaram-se e todas aquelas vozes gritaram com uma espécie de enternecido furor: «Perdão para esse homem!»
Neste meio tempo preparava-se ele para descer imediatamente a fim de tomar o seu lugar entre os outros forçados da chusma. Para chegar mais depressa deixou-se escorregar pelo cordame e principiou a correr por uma verga inferior adiante. Todos o seguiam com os olhos. Houve um momento em que o susto foi geral; ou porque lhe escasseassem de súbito as forças ou porque lhe desse alguma ver gem, afigurou-se aos espectadores vê-lo hesitar e cambalear. De repente, a mul dão soltou um grito pavoroso; o forçado acabava de cair ao mar.
A queda era perigosa. Junto à Orion estava fundeada a fragata Algesiras, e o pobre forçado nha caído entre os dois navios. Era portanto de recear que ele, no ímpeto do mergulho, viesse sair exactamente debaixo da quilha de um ou outro.