Os Miseráveis
VII — Um coração jovem em presença de um coração velho
— Um dia sem te ver! É impossível.
— Sacrifiquemos um dia para termos talvez toda a vida.
E Mário acrescentou em voz baixa e aparte:
— É um homem que não altera por coisa alguma os seus hábitos; não recebe ninguém senão à noite.
— De que homem falas tu? — perguntou Cosette.
— Eu não disse nada
— Mas que esperança é a tua?
— Espera até depois de amanhã.
— Queres que seja assim?
— Sim, Cosette
Ela então tomou-lhe a cabeça entre as mãos, pondo-se nos bicos dos pés, para lhe poder chegar, e diligenciou ler-lhe nos olhos a sua esperança.
— É verdade — tornou Mário — convém que saibas onde moro: ninguém sabe o que pode suceder: moro em casa do tal meu amigo chamado Courfeyrac, na rua dos Vidraceiros, número 16.
Em seguida, metendo a mão no bolso, rou um canivete e, abrindo-o, escreveu na parede: Rua dos Vidraceiros, número 16.
Cose e, entretanto, con nuara a fitar-lhe os olhos, procurando neles a revelação do segredo que o rapaz ocultava.
— Diz-me o teu pensamento, Mário, porque tu tens um pensamento. Diz-me o que é, para que eu passe bem a noite!
— O meu pensamento é que é impossível que Deus queira separar-nos. Espera-me depois de amanhã.
— O que hei-de eu fazer até lá? — disse Cose e. — Tu andas pela rua de um para outro lado! Como são felizes os homens! Eu ficarei sozinha! Como vou estar triste! O
que farás tu amanhã à noite, dize?
— Irei tentar uma coisa.
— Então suplicarei a Deus e pensarei em daqui até lá, para que obtenhas o resultado que desejas. Não te farei mais perguntas porque o não queres; és o meu senhor. Passarei o serão de amanhã cantando aquela música de «Euryanto», de que tu gostas e que uma noite vieste escutar por fora da janela. Mas depois de amanhã hás-de vir cedo. Esperar-te-ei às nove horas em ponto, previno-te. Que coisa tão triste que são os dias grandes! Repara bem, quando derem nove horas estarei no jardim.
— E eu também.
E sem que o dissessem, movidos pelo pensamento, arrastados pelas correntes eléctricas que põem dois amantes em con nua comunicação, ambos ébrios de voluptuosidade até mesmo na dor, caíram nos braços um do outro, sem repararem que os seus lábios se nham unido, enquanto os olhos erguidos, trasbordando de êxtase e arrasados de lágrimas, contemplavam as estrelas.
Quando Mário saiu estava a rua deserta. Foi na ocasião em que Eponina seguiu os malfeitores até ao boulevard.
Enquanto Mário pensava, com a cabeça encostada à árvore, atravessara-lhe o espírito uma ideia, que ele próprio julgava insensata e impossível. Adoptara uma resolução violenta.
VII — Um coração jovem em presença de um coração velho Por este tempo, Gillenormand, de quem há muito nos não ocupamos, orçava pelos seus noventa e um, senão mais, e con nuava a viver com sua filha na rua das Mulheres do Calvário, número 6, na velha casa que era propriamente dele. Como os leitores estarão lembrados, Gillenormand era um desses velhos de outros tempos, que esperam a morte com robustez, que não vergam ao peso dos anos nem se deixam alquebrar pelo influxo dos pesares.
Apesar disso, porém, havia algum tempo que a filha, ao ver que ele já não ba a nas criadas nem martelava com a bengala à porta com a mesma força, quando Biscainho se demorava a ir abrir-lha, dizia:
— Meu pai está acabado!
A revolução de Julho apenas o nha exasperado por espaço de seis meses. Uma ocasião pegara no Monitor e vira com serenidade este cadeado de palavras:
«O senhor Humblo-Conté, par de França».
O caso é que o bom velho ia desaparecendo. Não que ele se mostrasse alquebrado ou rendido, porque isso era tão incompa vel com a sua natureza sica como com a sua natureza moral, mas interiormente sen a-se desfalecer. Havia quatro anos que esperava
por Mário, sempre com a convicção de que o liber nozinho lhe bateria à porta mais dia menos dia; agora chegava a dizer consigo, em certas horas tristes, que por pouco que Mário se demorasse... Não era a morte o que se lhe tornava insuportável; a ideia de que nunca tornaria a ver Mário, era uma ideia que jamais lhe entrara um instante no cérebro até então: agora começava a aparecer-lhe, e gelava-o. A ausência, como sucede sempre nos sen mentos naturais e verdadeiros, não fizera senão aumentar o amor do avô ao neto ingrato, que se fora por semelhante modo. É nas noites de Dezembro com dez graus de frio, que se pensa mais no Sol. O senhor Gillenormand era, ou julgava ser, sobretudo, incapaz de dar um passo, ele, avô, para seu neto; seria mais fácil estalar, dizia ele. Não se achava culpado, mas não pensava em Mário senão com profunda ternura e o mudo desespero do homem velho, que vai entrando nas trevas.
Começava a perder os dentes e isso aumentava-lhe ainda a tristeza.
O senhor Gillenormand, sem contudo o confessar a si mesmo, porque ficaria por isso furioso e envergonhado, não quisera nunca a uma amante como queria a Mário.
Mandara colocar no seu quarto, em frente da cama, para ser a primeira coisa que visse apenas acordasse, um an go retrato da sua outra filha, que já não exis a, a senhora de Pontmercy, retrato do tempo em que ela nha dezoito anos. Olhava sem cessar para ele. Um dia sucedeu-lhe dizer, contemplando-o:
— Parece-se muito.
— Com minha irmã? — disse Mademoiselle Gillenormand.
— Decerto.
O velho acrescentou:
— E com ele também.
Uma ocasião em que o senhor Gillenormand estava sentado com os joelhos unidos e os olhos quase fechados, numa a tude de grande aba mento, arriscou-se sua filha a dizer-lhe:
— Ainda está muito zangado com ele, meu pai?
E calou-se; não se atreveu a adiantar-se mais.
— Com quem? — perguntou ele.
— Com o pobre Mário.
O senhor Gillenormand ergueu a cabeça, apoiou o punho emagrecido e encarquilhado na mesa, e gritou com a sua voz mais irritada e vibrante:
— Pois não! Pobre Mário! Um brejeiro, um velhaco, um rapaz vaidoso e ingrato, sem coração, sem alma, um orgulhoso, um mau indivíduo!
E voltou-se para o lado oposto, para que a filha lhe não visse as lágrimas que nha nos olhos.
Três dias depois rompeu o silêncio em que es vera mergulhado quatro horas, para dizer à filha, à queima-roupa:
— Já ve a honra de dizer à senhora Gillenormand que não me tornasse a falar de semelhante coisa!
A filha renunciou, portanto, a qualquer tenta va mais, e inferiu do que via e ouvia este profundo diagnóstico:
Não há que duvidar. Meu pai, depois que minha irmã fez aquela asneira, nunca lhe ficou com grande afecto, e está claro que também não pode ver Mário.
«Depois que fez aquela asneira» queria dizer, depois que casou com o coronel.
Apesar disso, porém, e como é fácil de supor, todas as diligências dela para subs tuir Mário pelo seu favorito oficial de lanceiros nham sido infru feras. Gillenormand não estivera pelo qui pro quo. Vácuos do coração nem tudo os enche. Pela sua parte, Teodulo não desgostaria de ficar com a herança, mas repugnava-lhe o mister que teria de desempenhar. O velho não gostava do lanceiro e o lanceiro não estava para aturar o velho.
Teodulo era jovial, mas falador; frívolo, mas vulgar; amigo de diver r-se, porém pouco escrupuloso na escolha dos seus passatempos; nha amantes, é verdade, e falava muito delas, também é verdade, mas era sempre em mau sen do. Todas as suas qualidades nham algum defeito. Gillenormand já estava farto de lhe ouvir contar não sei que conquistas que ele nha feito na rua de Babilónia, nas proximidades do seu quartel.
Além disto, Teodulo, quando lhe parecia, vinha de farda e com o seu laço tricolor, o que o tornava meramente impossível. Gillenormand dissera, por último, a sua filha:
— Já estou farto de Teodulos! Simpa zo pouco com militares em tempo de paz!
Recebe-o tu, se quiseres. Quanto a mim, não estou para o aturar. Não sei se gosto mais dos espadachins do que desses senhores, que andam simplesmente a arrastar as espadas pelas ruas! Para bem dizer, o nir das espadas numa batalha é menos miserável, assim mesmo, do que a bulha que esses senhores fazem a arrastá-las pelo chão. Além disso, bambolear-se como um tranca-ruas e andar espar lhado como um maricas é ser duas vezes ridículo! Um verdadeiro homem evita sempre estes extremos.
Nem traga-mouros nem alfenim. Guarda o teu Teodulo lá para ti!
Por mais que sua filha lhe dissesse: «Mas bem vê que é seu sobrinho», a verdade era que Gillenormand antes queria, ser avô até às pontas dos cabelos do que tio.
Em verdade, Teodulo não fizera mais do que dar ao velho, que não era falho de penetração nem de espírito, ensejo de comparar, e o resultado desta comparação fora fazê-lo mais desejar Mário.
Uma tarde, no dia 4 de Junho, o que não obstava a que Gillenormand não es vesse com uma bela fogueira diante de si, achava-se ele só naquele seu quarto forrado, depois de ter despedido a filha, que fora trabalhar na sua costura para a sala próxima.
Gillenormand estava com os pés apoiados nas travessas do fogão, quase escondido no meio do seu biombo de Coromandel, encostado a uma mesa, sobre a qual ardiam duas velas sob um pára-luz verde, meio enterrado na sua poltrona e com um livro na mão, que não lia. A extravagância do seu trajo daria azo a que pelas ruas o seguissem, se sua filha, quando ele saía, não vesse o cuidado de o cobrir com uma ampla capa, que lhe evitava os dissabores por que passaria sem ela. Em casa, Gillenormand nunca andava de robe, a não ser para se levantar ou para se deitar.
— É uma das coisas que nos faz parecer velhos — dizia ele.
Gillenormand pensava em Mário amorosa e amargamente, e, segundo o costume, o azedume era o que predominava. A sua azedada ternura acabava sempre por ferver e
converter-se em indignação. Gillenormand nha chegado ao estado em que se toma, por úl mo, uma resolução defini va, ainda que seja a que nos dilacera. Estava quase a afirmar consigo que era escusado esperar, porque Mário, a não ter voltado, também já não voltaria, e portanto, que devia rar daí o sen do. Apesar, porém, da diligência que fazia para o conseguir, não lhe era possível, porque o seu afecto de pai podia mais do que ele.
— Pois quê! Ele não voltará? — dizia consigo; e era este o seu doloroso estribilho.
Após isto, pendeu a cabeça para o peito e fitou nas brasas do fogão o seu olhar lastimoso e irritado.
No mais profundo silêncio da sua abstracção, entrou o an go criado Biscainho e perguntou:
— O senhor pode receber o senhor Mário?
O velho ergueu-se num salto da cadeira, lívido e semelhante a um cadáver que pusessem em contacto com os condutores de uma pilha. O sangue refluíra-lhe todo ao coração.
— Mário... quê? — balbuciou ele.
— Isso não sei — respondeu Biscainho, intimidado e enleado pelos modos de seu amo
— porque não fui eu que lhe falei. A Nicete é que me veio dizer que estava ali um senhor, que viesse eu dizer que era o senhor Mário.
O senhor Gillenormand balbuciou em voz baixa:
— Manda entrar.
E conservou-se na mesma a tude, com a cabeça trémula e os olhos fitos na porta, a qual pouco depois tornou a abrir-se. Em seguida entrou um mancebo. Era Mário: Mário parou logo no limiar, como esperando que o mandassem entrar.
Escondido, como ficava, na penumbra das luzes, o seu vestuário quase miserável não podia ser notado pelo velho. Não se lhe dis nguia mais que o rosto, sereno e grave, porém estranhamente triste.
O senhor Gillenormand, como que materializado pelo pasmo e alegria, conservou-se alguns instantes sem ver outra coisa além de um clarão, como quando se tem uma aparição. Estava prestes a desfalecer; via Mário através de um deslumbramento. Era ele!
Era, com efeito, Mário!
Finalmente! Ao cabo de quatro anos! Abrangeu-o, para assim dizer, todo inteiro, com um só olhar. Achou-o interessante, nobre, dis nto, crescido, homem feito, com uma a tude conveniente, com um aspecto encantador. Teve vontade de abrir os braços, de o chamar, de se precipitar para ele; as entranhas fundiam-se-lhe em arrebatamento, as palavras afectuosas dilatavam-no e transbordavam-lhe do peito. Enfim, toda aquela ternura se patenteou e lhe chegou aos lábios, e, pelo contraste que era a essência da sua organização, produziu uma aspereza.
Disse-lhe desabridamente:
— O que vem fazer aqui?
Mário respondeu embaraçado:
— Senhor...
O senhor Gillenormand quisera que Mário se lhe lançasse nos braços. Sen u-se descontente de Mário e de si mesmo. Conheceu ser desabrido e Mário frio. Era para o excelente velho insuportável e irritante ansiedade o sen r-se tão terno e tão choroso no ín mo, e não poder ser exteriormente senão áspero. O azedume tornou a dominá-lo e por isso interrompeu-o num tom enfadado:
— Então para que veio?
Isto significava: «Se não veio para me abraçar?»
Mário encarou seu avô, a quem a palidez dera um rosto de mármore.
— Senhor...
O velho prosseguiu com voz severa:
— Vem pedir-me perdão? Já reconheceu as suas faltas?
Julgou que assim meteria Mário a caminho, e que o «pequeno» de certo quebraria.
Mário estremeceu: exigiam-lhe que renegasse seu pai; baixou os olhos e respondeu:
— Não, senhor.
— Nesse caso — exclamou impetuosamente o velho, com uma dor pungente e repassada de cólera — que me quer?
Mário juntou as mãos, deu mais um passo e disse com voz fraca e trémula:
— Tenha dó de mim!
Estas palavras comoveram o senhor Gillenormand; ditas mais cedo tê-lo-iam enternecido, mas nham vindo demasiado tarde. O avô ergueu-se e apoiou-se na bengala com ambas as mãos; nha os lábios brancos, a fronte vacilava-lhe, mas dominava Mário curvado com a sua elevada estatura.
— Compadecer-me de si, senhor! Um adolescente pedir a um velho de noventa anos que se compadeça dele? Quem entra na vida a quem sai dela! Quem frequenta os teatros, os bailes, os cafés, os bilhares; quem tem talento e galanteia as mulheres com felicidade; quem tem uma bela figura a quem, na força do Verão, se põe sentado ao fogão! Pedir compaixão quem possui todas as verdadeiras riquezas deste mundo a quem só tem todas as pobrezas da velhice, os achaques e o isolamento! Pedir compaixão quem tem os seus trinta e dois dentes, um bom estômago, o olhar penetrante, quem tem força, ape te, saúde, alegria, uma mata de cabelos pretos, a quem já nem brancos os tem! A quem já não tem dentes, nem o vigor nas pernas, que nha outrora, nem cabeça para reter coisa nenhuma; a quem sem cessar confunde a rua de Charlot com a rua de Chaume e a rua de Chaume com a rua de Saint-Cloud; a quem chega a este ponto! Quem tem diante de si um futuro brilhante a quem não vê em roda de si senão trevas!
Implorar compaixão quem, isso está sabido, tem uma mulher que o ama, a quem não é amado por ninguém neste mundo! E vir pedir-lhe a sua compaixão! Realmente! Molière não se lembrou de uma coisa assim! Se os senhores advogados costumam gracejar deste modo, dou-lhe os meus sinceros parabéns, porque na verdade, o caso tem graça!
E o octogenário continuou com inflexão de voz irada e grave:
— É verdade, mas então que me quer?
— Senhor — respondeu Mário — sei que a minha presença lhe desagrada, porém eu venho simplesmente fazer-lhe um pedido, e, em seguida, retirar-me-ei.
— Com que tolo eu estou metido! disse o velho.
— Quem é que lhe diz que se vá embora?
Estas palavras, que Gillenormand acabava de proferir, eram a tradução de outras, mais afáveis, que ele não deixava sair do fundo do coração: «Pede-me perdão, Mário, anda! Dá-me um abraço!»
Gillenormand sentia que dentro de poucos instantes o rapaz se iria embora, que o seu mau acolhimento, longe de o atrair, ainda mais o repelia, que a sua dureza não lhe podia conciliar as boas graças; dizia tudo isto consigo mesmo e a sua dor com isso aumentava, e como a sua dor se conver a imediatamente em cólera, a sua dureza cada vez subia mais de ponto. Gillenormand queria que Mário entendesse, e como Mário não entendia, involuntariamente dava azo a que o pobre velho se tornasse furioso Este continuou:
— Como! Pois abandonou seu avô, saiu de minha casa para ir lá para onde lhe pareceu, encheu sua a de desgostos, viveu na «estroinice» o tempo que quis, saindo quando queria, entrando quando queria, diver ndo-se e levando vida de vadio, sem nunca dar sinal de si, contraiu as dívidas que lhe pareceu, sem ao menos me mandar dizer que as pagasse eu, fez-se estróina como os outros, andou lá por onde quis, e, ao cabo de quatro anos, procura-me a porta e não tem outra coisa que me dizer senão isso?
Este modo violento de impelir o rapaz para uma expansão afectuosa, longe de produzir o efeito que o velho desejava, apenas fez com que Mário se conservasse em silêncio. Gillenormand cruzou então os braços, gesto que a ele lhe dava um aspecto sobremodo imperioso, e apostrofou amargamente o rapaz do modo seguinte:
— Acabemos com isto! Vem pedir-me alguma coisa, diga? Se vem, fale, e não estejamos aqui a perder tempo!
— Senhor — disse Mário com o olhar de um homem que se sente a ponto de resvalar num precipício — eu venho aqui pedir-lhe se me dá licença de casar.
Em vez de responder, Gillenormand tocou a campainha e, apenas Biscainho entreabriu a porta, gritou-lhe:
— Diga a minha filha que venha cá.
Daí a um segundo, tornou a abrir-se a porta e a filha de Gillenormand não entrou, mas mostrou-se; Mário conservava-se de pé, mudo, com os braços pendentes e aspecto de réu, enquanto seu avô passeava pelo quarto de um lado para o outro. Apenas deu pela presença de sua filha, voltou-se para ela e disse-lhe:
— Não é nada. É o senhor Mário que vem saber se pode casar! Mais nada. Dê-lhe os parabéns e pode retirar-se!
O tom rouco e sacudido com que ele proferia estas palavras davam claramente a conhecer a raiva que lhe refervia no peito A filha de Gillenormand fitou seu sobrinho com ar assustado, sem dar grandes mostras de que o nha conhecido, nem soltar a menor palavra ou fazer o menor gesto, e desapareceu ao sopro de seu pai, como um feto nas asas de um furacão.
A este tempo, Gillenormand nha voltado para junto do fogão e con nuava, encostado à pedra:
— Quer casar? Aos vinte e um anos! Depressa arranjou o negócio! Visto isso só lhe falta uma formalidade, pedir uma licença! Faça favor de se sentar, senhor. Com que então agora há-de estar sa sfeito! Como sabe, houve uma revolução, depois que deixei de ter a honra de o ver, e os jacobinos levaram a melhor. Ou o senhor deixou de ser republicano desde que está barão? Provavelmente acumula. Faz um molho do republicanismo para misturar com o baronato. Também é dos condecorados de Julho?
Tomou parte na tomada do Louvre? Aqui logo na rua de Santo António, defronte da rua das Nonaidières, fica uma casa que tem no terceiro andar uma bala incrustada na parede com esta inscrição: «28 de Julho de 1830». Recomendo-lhe que a vá ver, porque merece a pena, pela linda vista que faz! Oh, lá os seus amigos fazem coisas muito bonitas! É
verdade, porque não mandam eles fazer um chafariz na praça do senhor duque de Berry? Com que então está resolvido a casar? E com quem, se a pergunta não é indiscreta?
Chegado a este ponto, fez uma pausa, e sem dar tempo a que Mário respondesse, acrescentou com arrebatamento:
— É verdade, e a sua profissão? O senhor tem um belo modo de vida! Quanto lhe rende o seu mister de advogado?
— Nada! — respondeu Mário com uma espécie de firmeza e de resolução quase ferozes.
— Nada? Então vive unicamente com as mil e duzentas libras que eu lhe dou?
Mário não respondeu e Gillenormand continuou:
— Ah, já entendo! A noiva é rica?
— Tanto como eu.
— Como? Pois não tem dote?
— Não, senhor.
— Nem esperanças de vir a ter alguma coisa?
— Creio que não.
— Essa não está má! E o pai? Que qualidade de homem é?
— Não sei.
— Então como se chama ela?
— Eufrásia Fauchelevent.
— Fauce quê?
— Fauchelevent.
— Pitt! — fez o velho com modo desdenhoso.
— Senhor! — exclamou Mário. Porém, Gillenormand prosseguiu como que falando consigo mesmo:
— Sim, senhor, acho-lhe graça! Vinte e um anos, uma mulher sem dote e mil e duzentas libras por ano. Há-de ser bonito ver a senhora baronesa de Pontmercy a comprar cinco réis de salsa a uma hortaliceira!
— Senhor — tornou Mário no desvairamento de quem vê esvaecer-se-lhe a derradeira esperança. — Peço-lhe por quanto há, suplico-lhe de mãos postas e de joelhos que me permita desposá-la!
O velho soltou uma estridente e lúgubre gargalhada, e exclamou num frouxo de riso, interrompido a cada instante por outro de tosse:
— Ah! Ah! Ah! O senhor disse com os seus botões: «Enfim, visto não querer a desgraça que eu tenha ainda vinte e cinco anos, não há remédio senão ir ter com o velhote e pedir-lhe por bons modos que me deixe fazer esta tolice. Chegar-me-ei ao pé dele e dir-lhe-ei: «Eu venho aqui pedir-lhe uma coisa, senão nem cá aparecia. Quero que você, velho cre no, me deixe casar com a menina fulana, filha do senhor sicrano.
Verdade é que eu só tenho de meu o dia e a noite, e ela a camisa que traz no corpo. Mas isso não faz ao caso. Deu-me para aqui. Tenho vontade de lançar ao rio a minha carreira, o meu futuro, a minha mocidade, e vida; desejo dar um mergulho na miséria com uma mulher unida comigo!» E, apesar de ser uma tolice rematada, o velho fóssil não terá dúvida em dizer que sim, que case lá com a menina Pousselevent, Coupelevent… ou como se chama ela... Pois está enganado, senhor. Não consinto, não consinto!
— Meu pai.
— Não consinto!...
Ao ver o acento com que o velho pronunciava este «não consinto», Mário perdeu toda a esperança e atravessou lentamente o quarto, de cabeça curvada e cambaleando, mais com ar de um moribundo do que de um homem que se re ra. Ao ver que o rapaz se re rava, que já sobre ele se ia fechar a porta, Gillenormand, que o não perdia de vista, por um desses rápidos movimentos peculiares aos velhos impetuosos, encaminhou-se para a porta, agarrou em Mário pela gola do casaco, arrastou-o para dentro do quarto e exclamou, atirando-o para uma cadeira:
— Conte-me já isso!
Esta tremenda revolução causara-a aquela simples frase «meu pai», que Mário deixara escapar.
O rapaz encarou-o com olhar desvairado. O cambiante rosto de Gillenormand não exprimia, mais do que uma agreste, mas inefável bondade. Tinha sucedido à severidade de há pouco uma quase meiguice.
— Vamos, seu pateta; ponha-me isso em pratos limpos. Conte lá a história dos seus namoricos! Estes rapazes de agora sempre são muito toleirões!
— Meu pai... — tornou Mário.
A estas palavras, o rosto de velho como que se iluminou de um inexprimível clarão.
— Isso, isso, assim! Chama-me pai e verás!
Os modos rudes de Gillenormand pareciam agora tão cheios de bondade, tão meigos, tão francos, tão paternais, que Mário, nesta súbita passagem do desalento para a esperança, ficou como que desfalecido e embriagado. Gillenormand contemplava-o cheio de pasmo, porque só agora que o rapaz estava sentado junto à mesa, onde ardiam as duas velas, é que notava o triste estado do seu vestuário.
— Pois então, meu pai... — disse Mário.
— Nada — atalhou Gillenormand — agora vejo que, realmente, estás num estado miserável! Eu, se te visse numa estrada com semelhante trajo, tomava-te por um ladrão!
Foi a uma gaveta, tirou uma bolsa e disse, pousando-a em cima da mesa:
— Aqui tens cem luíses para comprares um chapéu.
— Oh, meu pai, meu bom pai! — prosseguiu Mário. — Não imagina como eu a amo!
Eu não sei como isto foi. Vi-a pela primeira vez no Luxemburgo, onde ela costumava ir passear. Ao princípio, nem para ela olhava, mas depois, sem saber como, principiei a amá-la. Foi a minha desgraça! Agora falo com ela todos os dias, lá na casa onde mora, e sem o pai saber; eu entro pelo jardim e ela vem ter comigo. Mas veja que desgraça!
Disse-lhe o pai que se aprontasse, porque dentro de poucos dias par riam para Inglaterra. Apenas eu soube semelhante coisa, disse comigo: «Vou procurar meu avô e contar-lhe tudo, porque eu, se não caso com ela, endoideço, morro de pesar!» Ora aqui tem tudo como é. Creio que não omiti nada. Ela mora na rua Plumet, numa casa que tem um jardim tapado por uma grade. Fica mesmo nas proximidades dos Inválidos.
Gillenormand sentara-se junto de Mário, com gesto radiante e saboreando uma farta pitada, ao mesmo tempo que saboreava o som da voz do rapaz. À palavra rua Plumet, o velho interrompeu a sua aspiração e exclamou, deixando cair o resto da pitada sobre os joelhos:
— Rua Plumet? Tu disseste na rua Plumet? Ora deixa ver... Nessa rua não fica um quartel? Fica, fica, não há dúvida. Teu primo Teodulo, aquele lanceiro, o oficial, tem-me falado nisso. Ora vejam, um namorico! É isso, é; rua Plumet, chamada dantes rua Blomet.
Agora me lembro. Eu já ouvi falar nessa pequena da rua Plumet. Ora, ora! Num jardim!
Alguma Pamela. Não tens mau gosto! Aqui para nós, suponho que o pateta do lanceiro também por lá andou a fazer-lhe o seu bocado de namoro. Não sei a que termos isso chegou Mas, enfim, não quer dizer nada. Quanto mais, é um toleirão que se gaba do que não faz, e por isso é preciso estar com a pedra no sapato. Olha, Mário, realmente parece-me bem que um rapaz como tu se apaixone por uma rapariga. É próprio da idade em que estás. Antes te quero assim do que jacobino. Es mo mais que te enamorasses de uma pequena, de vinte pequenas, com mil pipas!, do que do senhor Robespierre! Pela minha parte, declaro que em matéria de sansculotte não engraço senão com as mulheres. Ora adeus! As raparigas bonitas são sempre as raparigas bonitas; a isto não há que objectar. Mas tornando à pequena. Com que então, falando às escondidas do papá?
Isso é da regra. Eu disso também já posso contar. Não foi uma nem duas! Sabes tu como essas coisas correm? Não se toma o caso a sério nem se precipita a gente no trágico; gozar e andar. Vai-se a casa do avô, que sempre lá tem a um canto algumas amarelas, e diz-se-lhe: «Meu avó, passa-se isto» E ele responde: «Pois sim, sim, eu também já fui rapaz, bem sei por onde isso corre. Rapazes são rapazes e o que querem é passar o seu tempo. Pega lá duzentas pistolas e diverte-te. Teus netos far-te-ão o mesmo e tu responder-lhes-ás como eu. Vai, vai, e goza enquanto é tempo».
Vês como se arranjam estas coisas? Lá casar isso nem por sombras! É uma coisa escusada, não sei se percebes?...
Mário, que se achava petrificado e em estado de não poder ar cular uma só palavra, acenou com a cabeça que não, e o velho desatou a rir, piscando-lhe o olho e batendo-lhe com a mão no joelho.
Depois fitou-o com ar misterioso, mas alegre, e exclamou, encolhendo os ombros com
gesto da maior meiguice:
— Pateta, quero dizer que faças dela tua amante!
Mário empalideceu. De quanto o velho nha dito não compreendera uma só palavra Toda aquela algaravia de rua Blomet, de Pamela, de quartel e lanceiro passara-lhe por diante como uma fantasmagoria. Nada daquilo podia referir-se a Cose e, que era um lírio. O velho divagava, porém esta divagação terminava por uma frase que Mário compreendera e que era uma mortal injúria para Cose e. Aquela frase «que faças dela tua amante!» penetrou como uma espada no coração do rapaz.
Levantou-se portanto, pegou no chapéu, que jazia no chão, e encaminhou-se para a porta, com passo firme e seguro. Ao transpor o limiar, voltou-se, cortejou o avô com uma inclinação profunda, levantou a cabeça com gesto decidido e exclamou:
— Há cinco anos ultrajou meu pai, senhor; hoje ultraja minha mulher. Já não lhe peço mais nada. Adeus!
Gillenormand, estúpido de pasmo, abriu a boca, estendeu os braços, tentou erguer-se, porém antes dele ter tempo de proferir uma palavra, aporta fechou-se e Mário desapareceu.
Decorridos alguns instantes, durante os quais o pobre velho se conservou imóvel e como fulminado, sem poder falar nem respirar, como se uma mão de ferro lhe apertasse a garganta, levantou-se, por fim, da cadeira, correu para a porta com a velocidade que lhe permitiam os seus noventa e um anos, abriu-a e gritou: