Os Miseráveis
IX — Onde Mário passa por morto aos olhos de quem não é fácil de enganar
Quanto a nós, é duvidoso que Thenardier, prestando a um desconhecido o auxílio daquela chave e fazendo-o sair por aquela porta,
vesse a intenção pura e
desinteressada de salvar um assassino.
Thenardier ajudou Jean Valjean a pegar outra vez em Mário, depois dirigiu-se para a grade, em bicos de pés, acenando a Jean Valjean que o seguisse, espreitou para fora, pôs um dedo na bota e deteve-se alguns segundos, como que suspenso. Terminada a sua inspecção, meteu a chave na fechadura. A lingueta correu e a porta girou, sem estalido nem rangido, de qualidade alguma. Era visível que a grade e os gonzos, cuidadosamente
azeitados, se abriam, mais vezes do que parecia. Aquele silêncio era sinistro; sen am-se nele as entradas e saídas fur vas dos homens nocturnos e os passos cautelosos do crime. Evidentemente, o cano era cúmplice de alguma misteriosa quadrilha. Aquela grade taciturna era alguma receptadora.
Thenardier entreabriu a porta apenas o necessário para dar passagem a Jean Valjean, tornou a fechar a grade, com duas voltas, e meteu-se outra vez pelo meio da escuridão, sem fazer maior ruído que um sopro.
Parecia um gre, caminhando pé ante pé. Daí por um instante, aquela hedionda Providência achava-se de novo submersa no invisível.
Jean Valjean achou-se da parte de fora.
IX — Onde Mário passa por morto aos olhos de quem não é fácil de enganar Apenas se viu fora da grade, Jean Valjean deitou Mário na ribanceira.
Até que, finalmente, se via livre dos miasmas, da escuridão, do horror, e inundado de ar salubre, puro, vivaz, alegre, livremente respirável. Tudo em torno dele respirava silêncio, mas o silêncio aprazível do Sol, escondendo-se num horizonte límpido. Era a hora do crepúsculo.; aproximava-se a noite, a grande libertadora, a amiga de todos os que têm precisão de um manto de trevas para sair de uma angús a. O céu parecia sorrir-lhe serenamente. O rio vinha tocar-lhe os pés com o sussurro de um beijo. Ouvia-se o diálogo aéreo dos ninhos, despedindo-se nos olmos dos Campos Elíseos. Algumas estrelas, incrustadas no azul descorado do zénites e apenas visíveis aos olhos do pensador, cin lavam trémulas e quase impercep veis na imensidade do espaço. A tarde desenrolava por cima da cabeça de Jean Valjean todas as doçuras do infinito.
Era a hora indecisa e aprazível que não diz sim nem não. Havia já bastante escuridão para se não dis nguir qualquer pessoa a alguma distância e ainda suficiente claridade para a podei reconhecer de perto.
Jean Valjean sen u-se, durante alguns segundos, dominado por toda esta serenidade augusta e acariciadora; há destes momentos de esquecimento, em que o sofrimento renuncia a torturar o infeliz; eclipsa-se tudo no pensamento; a paz cobre o pensador com um véu de trevas, e, sob o crepúsculo, que resplandece e à imitação do céu que se ilumina, a alma cobre-se de estrelas.
Jean Valjean não pôde deixar de contemplar a vasta escuridão clara que lhe ficava por cima; pensa vo, tomava no majestoso silêncio do céu eterno um banho de êxtase e oração. Em seguida, por um movimento rápido, como se lhe voltasse a consciência do dever, curvou-se para Mário, e tomando uma pouca de água no côncavo da mão, deitou-lhe algumas gotas no rosto. As pálpebras do rapaz con nuaram fechadas, porém a sua boca entreaberta respirava.
Ia Jean Valjean a meter outra vez a mão no rio, quando, de repente, experimentou essa espécie de sobressalto que nos acomete, quando, sem vermos, sen mos alguém por trás de nós.
Já noutra parte indicámos esta impressão, que toda a gente conhece.
Voltou-se.
Alguém, efectivamente, como há pouco, se achava por trás dele.
Era um homem de elevada estatura, ves ndo um comprido casacão, e que, de braços cruzados, com uma grossa bengala de castão de chumbo na mão direita, contemplava o quase cadáver de Mário, meio agachado.
Parecia uma aparição, visto àquela indecisa claridade do fim do dia. Um homem simples ter-lhe-ia medo por causa do crepúsculo; um homem reflec do por causa da grossa bengala que ele empunhava. Jean Valjean reconheceu Javert.
Por certo que o leitor adivinhou que o perseguidor de Thenardier não era outro senão Javert.
Logo após a sua inesperada saída da barricada, Javert dirigira-se à prefeitura de polícia, teve uma breve audiência com o prefeito, a quem verbalmente fez o seu relatório, e saiu para dar cumprimento a uma incumbência de serviço, que consis a em vigiar a ribanceira da margem direita, junto aos Campos Elíseos, a qual havia certo tempo preocupava a atenção da polícia.
Chegado aí, encontrara Thenardier e seguira-o.
Fácil é de compreender que o serviço da abertura da grade, tão obsequiosamente prestado a Jean Valjean, fora uma habilidade de Thenardier, que, pressen ndo ainda a presença de Javert por aqueles sí os, por essa espécie de faro de homem espiado., que nunca engana, entendeu que devia lançar um osso ao mas m para com ele se entreter.
Um assassino! Que mina! Seria uma dessas fortunas que nunca se desprezam.
Thenardier, fazendo sair Jean Valjean, dava uma presa à polícia, fazia-lhe largar a pista dele, conseguia ficar esquecido por uma aventura maior, recompensava Javert pelo tempo que o fizera esperar, o que sempre lisonjeia um espião, ganhava trinta francos e tinha toda a esperança de escapar, graças a semelhante diversão.
Jean Valjean passara de um escolho a outro.
Estes dois encontros, seguidos sem intermédio um após outro, eram horríveis.
Javert não reconheceu Jean Valjean, porque este, como já dissemos, não parecia o mesmo. Sem descruzar os braços e apenas apertando a bengala na mão com um movimento imperceptível, Javert disse em voz rápida, mas serena:
— Quem é você?
— Sou eu.
— Você quem?
— Jean Valjean.
Javert meteu a bengala entre os dentes, curvou o corpo, pousou as robustas mãos nos ombros de Jean Valjean, apertando-lhos como em dois tornos, examinou-o e reconheceu-o. Os seus rostos quase se tocavam.
O olhar de Javert era terrível.
Jean Valjean deixou-se apertar por Javert, como um leão que não resis sse às garras de um lince.
— Inspector Javert — disse ele — está senhor de mim! Já desde pela manhã que eu me considerava como seu prisioneiro. Não lhe disse onde morava para lhe fugir. Aqui me tem, porém Peço-lhe uma coisa.
Javert como que o não ouvia, tão distraído se achava a contemplá-lo. O seu queixo
franzido: levantava-lhe os lábios até junto do nariz, sinal de feroz cogitação. Finalmente, largou Jean Valjean, endireitou-se como se fosse formado de uma peça inteiriça, abarcou na mão a bengala e proferiu, ou antes, murmurou, como num sonho, a seguinte pergunta:
— Que faz aqui? Quem é este homem?
O espião continuava a não tratar Jean Valjean por tu.
Jean Valjean respondeu e o som da sua voz pareceu despertar Javert:
— Justamente a respeito dele é que eu queria falar-lhe. Disponha de mim como lhe aprouver, mas ajude-me primeiro a conduzi-lo a casa dele. Não lhe peço outra coisa!
O rosto de Javert contraiu-se, como lhe sucedia todas as vezes que mostravam julgá-lo capaz de uma concessão. Contudo não disse que não.
Em seguida, baixou-se outra vez, molhou em água o lenço que rara do bolso e correu-o pelo ensanguentado rosto de Mário.
— Este homem estava na barricada — disse ele a meia voz e como falando consigo mesmo. — É o tal a quem chamavam Mário.
Espião de primeira qualidade, que tudo observara, tudo escutara e tudo tomara nota, apesar de se julgar prestes a morrer; que até no meio da agonia espiara, e debruçado no primeiro degrau do sepulcro tomara apontamentos.
Travou da mão de Mário e tomou-lhe o pulso.
— É um ferido — disse Jean Valjean.
— É um morto — respondeu Javert.
— Por enquanto não — tornou Jean Valjean.
— Então trouxe-o da barricada até aqui? — atalhou Javert.
Era necessário que a sua preocupação fosse muito grande para não insis r naquele singular meio de salvação pelo encanamento, nem ao menos reparar no silêncio de Jean Valjean depois da sua pergunta.
Pelo que respeita a este, parecia que um único pensamento o dominava. Por isso tornou:
— Mora no Marais, na rua das Mulheres do Calvário, em casa de seu avô... Já me não lembra o nome.
E, mal acabara de proferir estas palavras, meteu a mão num dos bolsos do casaco de Mário, rou a carteira, abriu-a na página em que o rapaz escrevera a lápis a sua úl ma recomendação e entregou-a a Javert.
Havia no ar bastante claridade flutuante para se poder ler. Além disso, os olhos de Javert possuíam a fosforescência felina das aves nocturnas. Por consequência, decifrou facilmente as poucas linhas escritas por Mário, e murmurou:
— Gillenormand, rua das Mulheres do Calvário, número 6.
Depois gritou:
— Cocheiro!
O cocheiro que Javert in mara em silêncio para o seguir esperava a pouca distância as ordens do espião.
Javert meteu no bolso a carteira de Mário.