Os Miseráveis
XIII — Clarões efémeros
«Morra!»
No dia 6 de Junho de 1832, uma companhia de guarda nacional do termo, comandada pelo capitão Fannicot, de quem há pouco falámos, fez-se dizimar, por simples fantasia, na rua da Chanvrerie, O facto, por mais singular que pareça, foi registado pelo processo judicial instaurado logo em seguida à insurreição de 1832.
O capitão Fannicot, burguês impaciente e destemido, espécie de condotiére da ordem, um daqueles que há pouco caracterizámos, governamentalista faná co e Indomável, não podia resis r à tentação de fazer fogo antes da hora, e à ambição de tomar a barricada só por si, isto é, com a sua companhia. Exasperado pela aparição sucessiva da bandeira vermelha e da casaca velha, que ele tomou por bandeira preta, censurava em voz alta os generais e os chefes dos corpos, que se achavam em conselho, e que não julgando
chegado o momento decisivo do ataque, deixavam, segundo a expressão célebre de um deles, «coser a insurreição no seu próprio suco». Quanto a ele, achava a barricada madura, e como o que está maduro deve cair, tentou.
Os homens a quem comandava eram resolutos como ele; «furiosos», disse uma testemunha. A sua companhia, a mesma que fuzilara o poeta Jean Prouvaire, era a primeira do batalhão postado na esquina da rua. No momento em que menos se esperava, arrojou o capitão os seus homens contra a barricada. Este movimento executado com mais boa vontade do que estratégia, custou caro à companhia Fannicot.
Antes que ela vesse chegado a dois terços da rua, foi recebida por uma descarga geral da barricada. Quatro dos mais audazes, que corriam na frente, foram fulminados à queima-roupa, mesmo ao pé do reduto, e a corajosa turba de guardas nacionais, gente extremamente valorosa, mas que não nha a tenacidade militar, teve de re rar, depois de alguma hesitação, deixando na rua quinze cadáveres.
O instante de hesitação deu aos insurgentes tempo para tornarem a carregar as armas, e uma segunda descarga assaz mor fera, alcançou a companhia antes que ela pudesse chegar à esquina da rua, que lhe servia de abrigo. Por um momento achou-se entre dois fogos e suportou o ro da peça que estava em bateria, e que, não tendo recebido ordem contrária, continuara a fazer fogo.
Este ataque, mais furioso do que sério, irritou Enjolras.
— Imbecil! — disse ele. — Faz com que lhe matem os soldados e gasta-nos as munições para nada!
Enjolras falava como verdadeiro general de revolta.
A insurreição e a repressão não lutam com armas iguais.
A insurreição, prontamente exausta, não tem senão um certo número de ros de que pode dispor e certo número de combatentes a arriscar. Uma patrona vazia, um homem morto, não podem ser subs tuídos. A repressão tendo o exército, não conta os homens, e tendo Vincennes, não conta os tiros. A repressão tem tantos regimentos, como homens a barricada, e tantos arsenais como a barricada cartucheiras. Assim, estas lutas são de um contra cem e terminam sempre pela aniquilação das barricadas; salvo quando a revolução surgindo inopinadamente, venha lançar na balança o seu flamejante gládio de arcanjo. Isto sucede. Então tudo se ergue, as pedras entram em ebulição, os redutos populares pululam. Paris, estremece soberanamente, o quid divinum desprende-se, pairam na atmosfera um 10 de Agosto e um 29 de Julho, aparece uma prodigiosa luz, a goela escancarada da força recua e o exército, feroz leão, vê diante de si, de pé e tranquila, a profetiza que se chama França.
XIII — Clarões efémeros Nos caos de sen mentos e paixões que defendem uma barricada há de tudo: há denodo, juventude, pundonor, entusiasmo, ideal, convicção, contumácia de jogador, intermitências de esperança.
Uma dessas intermitências, um desses vagos estremecimentos de esperança, perpassou de súbito, e no momento em que menos se esperava, pela barricada da rua da Chanvrerie.
— Escutem — disse repen namente Enjolras, sempre firme no seu posto de observação — parece-me que Paris sempre acordou!
Efec vamente, na manhã do dia 6 de Junho, a insurreição, no decurso de uma ou duas horas, experimentou uma tal ou qual recrudescência. A obs nação dos sinos de Saint-Merry reanimou algumas veleidades. Nas ruas da Pereira e dos Gravilliers, chegaram a começar-se barricadas, que não passaram dos fundamentos. Próximo à porta de S. Mar nho, inves u sozinho e a peito descoberto com um esquadrão de cavalaria um rapaz armado com uma clavina. Chegou ao meio do boulevard, pôs um joelho em terra, apontou a arma em direcção ao comandante do esquadrão, disparou e con nuou o seu caminho, depois de o matar, dizendo:
— Sempre é um de menos, de quem já não temos que temer!
Finda, porém, a sua tarefa, carregou sobre ele a cavalaria e acu lou-o. Na rua de S.
Diniz, houve uma mulher que se pôs a fazer fogo sobre a guarda municipal, entrincheirada por trás de uma gelosia, cujas tábuas estremeciam a cada ro que a mulher descarregava sobre os soldados. Na rua da Cossonerie, foi preso um rapaz de catorze anos, por se lhe encontrarem os bolsos cheios de cartuchos. Chegaram-se a atacar algumas casas de guarda. À entrada da rua de Ber n-Poirée, rompeu, de súbito, entre o povo e um regimento de couraceiros, comandado pelo general Cavaignac de Baragne, um vivíssimo roteio. Na rua de Planche-Mibray, os moradores a ravam de cima dos telhados sobre a tropa cacos e utensílios caseiros, o que é mau sinal; quando contaram o caso ao general Soult, o an go tenente de Napoleão tornou-se pensa vo, recordando-se, sem dúvida, do dito de Suchet em Saragoça: