Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 292 de 359

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Os Miseráveis

Quinta Parte — Jean Valjean

As operações militares da guarda não foram inúteis. Foi conquistado o carrinho e aprisionado o bêbado. Um foi posto em depósito, o outro, mais tarde, um tanto perseguido como cúmplice. O ministério público de então provou nesta circunstância o seu zelo infatigável pela defesa da sociedade.

A aventura de Gavroche, que faz parte da tradição do bairro do Templo, é uma das recordações mais terríveis dos velhos burgueses do Marais, e é in tulada em sua memória: Ataque nocturno à guarda da imprensa real.

QUINTA PARTE — JEAN VALJEAN

LIVRO PRIMEIRO — A GUERRA ENTRE QUATRO PAREDES

I — O Charybdes do arrabalde de Santo António e o Scylla do arrabalde do Templo As duas mais memoráveis barricadas que podem ser mencionadas pelo observador das doenças sociais, não pertencem ao período em que está incluída a acção deste livro.

Estas duas barricadas, ambas símbolos, sob dois aspectos diferentes, de uma situação temível, surgiram do chão, por ocasião da fatal insurreição de Junho de 1848, a maior guerra das ruas que a história tem visto.

Sucede algumas vezes, mesmo contra a liberdade, a igualdade e a fraternidade, mesmo contra o voto universal, mesmo contra o governo de todos por todos, que do fundo das suas aflições, do seu desânimo, de suas febres, privações, miasmas, ignorâncias e trevas, a grande desesperada, a ínfima plebe, protesta, e a populaça dá batalha ao povo.

Lúgubres combates estes, em que os miseráveis atacam o direito comum, em que a oclocracia se insurge contra o demos, pois que essa demência encerra sempre maior ou menor porção de direito, pois que esse duelo par cipa do suicídio, e essas palavras miseráveis, ralé, oclocracia, gentalha, empregadas como injúrias, mais provam, infelizmente, os erros dos que dominam do que os daqueles que sofrem, mais os dos privilegiados do que os dos deserdados.

Pelo que nos toca, nunca proferimos uma só dessas palavras sem nos sen rmos tomados de dor e de respeito, porque quando a filosofia sonda os factos por elas designados, a par de muitas misérias, encontra não poucas grandezas. Atenas era uma oclocracia; os miseráveis fizeram a Holanda; a plebe salvou Roma por mais de uma vez; a gentalha seguia Jesus Cristo.

Não há homem pensador que não: se tenha de do, por vezes, a contemplar as magnificências das ínfimas regiões.

Era de certo a essa gentalha, a todos esses pobres, a todos esses vagabundos, a todos esses miseráveis, de entre os quais saíram os apóstolos e os már res, que S. Jerónimo se referia, quando misteriosamente dizia: «Fex itrbis, lex vorbis».

As exasperações da mul dão que sofre e se vê torturada, as suas insensatas violências contra os princípios que lhe cons tuem a vida, as suas vias de facto contra o direito, são golpes de Estado populares, e por isso devem ser reprimidos. Nessas ocasiões, o homem probo mostra a sua dedicação à mul dão, combatendo-a. Combate-a, mas como ele a acha digna de desculpa, ao mesmo tempo que se lhe opõe! Como ele a venera, ao mesmo tempo que lhe resiste! Dá-se então um desses raros casos em que, apesar de se fazer o que se deve, se sente uma espécie de desanimação, um como movimento interior que despersuade de ir mais avante; persiste-se porque é necessário, mas a consciência entristece-se depois de satisfeita e o coração como que se confrange com o cumprimento do dever.

Junho de 1848, digamo-lo já, foi um facto excepcional e quase impossível de classificar na filosofia da história. Nada do que acabamos de dizer tem aplicação a essa extraordinária revolta, em que se sente a santa ansiedade do trabalho reclamando os seus direitos. Foi necessário, era mesmo dever combatê-la, porque ela atacava a república. No fundo, porém, que foi Junho de 1848? Uma revolta do povo contra si mesmo.

Não se dá digressão, uma vez que não se perca de vista o assunto; portanto, seja-me lícito ocupar, por um momento, a atenção do leitor com as duas barricadas, absolutamente únicas, de que acima falamos, e que caracterizaram essa insurreição.

Uma pejava a entrada do arrabalde de Santo António, a outra defendia as avenidas do arrabalde do Templo. Jamais olvidarão essas duas medonhas e primorosas obras da guerra civil os que, sob o límpido céu de Junho, assistiram à sua construção.

A barricada do arrabalde de Santo António era monstruosa; nha a altura de uma casa de três andares e setecentos pés de largura. Obstruía, com toda a sua extensão, a ampla embocadura do arrabalde, isto é, três ruas; desigual, cheia de mon culos, de excrescências; de covas, rasgadas por uma imensa abertura, reforçada por alguns aterros que formavam uns como bas ões, com seus ângulos reentrantes e salientes, solidamente travada nos dois grandes promontórios de casas do arrabalde, surgia como um dique de ciclopes no fundo do temeroso local, que presenciou as cenas de 14 de Julho. Dezanove barricadas se elevavam por trás daquela barricada mãe no interior das ruas que se seguiam. Bastava olhar para ela para se conhecer que o sofrimento agonizante do arrabalde era chegado ao extremo momento em que uma miséria vai produzir uma catástrofe. De que era construída a barricada? Do entulho de três prédios de seis andares, para esse fim demolidos, diziam uns. Do prodígio de todas as cóleras, diziam outros. O seu aspecto era o de todas as construções do ódio: a Ruína. Podia dizer-se: «Quem construiu isto?» e do mesmo modo se podia dizer: «Quem destruiu isto?» Era o improviso da efervescência. Olé! Venha essa porta! Essa grade! Esse coberto! Esse fogareiro quebrado! Essa panela velha! Dai tudo! Lançai tudo! Puxai, rolai, cavai, desmantelai, arrancai, demoli tudo! Era a colaboração da lájea da rua, da viga, do varão de ferro, do caco, do caixilho quebrado, da cadeira arrombada, do talo de couve, do trapo, de andrajo e da maldição! Era uma grande coisa e uma coisa pequena. Era o abismo parodiado na praça pelo tumulto. A massa a par com o átomo; o lanço de parede demolido e o alguidar quebrado; uma confraternidade temerosa de toda a espécie de destroços, a que não faltava nem o rochedo de Sisipho nem a telha de Job. Em suma, uma coisa terrível. Era a acrópole dos andrajos. Acidentavam os taludes vários carros deitados de lado, entre os quais figurava uma enorme carroça, que, com o eixo voltado para o ar, semelhava um gilvaz no meio daquela desordenada frontaria; um omnibus, guindado entre risos para Q cimo daquele confuso acervo, como se os arquitectos daquela selvajaria quisessem misturar o jocoso com o terrível, oferecia a lança desaparelhada a não sei que aéreos cavalos. Aquele acervo gigantesco, aluvião da revolta, apresentava-se ao espírito como um Ossa sobre o Pelion de todas as revoluções; 93 sobre 89, o 9 Termidor sobre o 10 de Agosto, o 18 brumário sobre o 21 de Janeiro, venaimacio sobre prairial, 1848 sobre 1830. O local era apropriado e a barricada digna de aparecer no próprio sí o de onde nha desaparecido a Bas lha. Se o Oceano fizesse diques, seria daquele modo que os construiria. Aquela informe aglomeração de tão diversos objectos como que deixava transparecer a fúria da vaga. Que vaga? A mul dão.

Dir-se-ia que estava ali o tumulto petrificado. Parecia ouvir-se zumbir por cima daquela barricada, como se achassem ali no seu cor ço as enormes e escuras abelhas do progresso violento. Era uma mata? Era uma bacanal? Era uma fortaleza? Parecia uma coisa construída pelas asas da ver gem. Era um reduto quase cloaca, um monturo quase olímpico. Viam-se, em desesperada desordem, frechais de telhados, pedaços de trapeiras com o seu papel pintado, caixilhos de janelas com todos os seus vidros cobertos de entulho, à espera da ar lharia, fogões, armários, mesas, bancos, uma aglomeração raivosa dessas mil coisas indigentes, de que nem o mendigo faz caso, e que contêm, ao mesmo tempo, o furor e o nada. Dir-se-ia o andrajo de um povo, andrajo de pau, de ferro, de bronze, de pedra, que o arrabalde a rara para ali com uma colossal vassourada, convertendo a sua miséria em barricada. Cepos, correntes deslocadas, madeiramentos com formas de forcas, rodas horizontais saindo de entre o entulho, amalgamavam com aquele edi cio da anarquia o sombrio aspecto dos an gos suplícios sofridos pelo povo.

A barricada de Santo António tudo conver a em armas; saía dali tudo o que a guerra civil pode a rar à cabeça da sociedade; não era combate, era paroxismo; as clavinas que defendiam aquele reduto, entre as quais havia alguns bacamartes, eram carregadas com pedacinhos de louça, ossos, botões e até roldanas de veladores, projécteis perigosos, por causa do cobre. Era uma barricada impetuosa, que elevava aos ares um clamor inexprimível; em certas ocasiões, cobria-se de mul dão e de tempestade para provocar o exército; coroava-a uma chusma de cabeças flamejantes; enchia-a um redemoinhar tumultuoso; nha uma crista eriçada de espingardas, de sabres, paus, chuços, machados, baionetas, entre as quais se desfraldava ao vento uma bandeira vermelha; ouviam-se os gritos de comando, as canções de ataque, os rufos do tambor, os soluços das mulheres e as risadas tenebrosas dos famintos. Era uma coisa descomunal e animada, da qual, como do lombo de um animal eléctrico, saía um faiscar de raio, O espírito da revolução cobria com a sua nuvem aquele cume, onde rugia a voz do povo, que parece a voz de Deus; estranha majestade se desenvolvia daquele tânico cesto de entulho. Era um monturo e era o Sinai.

Como acima dissemos, aquela barricada atacava, em nome da revolução. O quê?

Aquela barricada, o acaso, a desordem, o desvairamento, o equívoco, o incógnito, nha na sua frente a assembleia cons tuinte, a soberania do povo, o sufrágio universal, a nação, a república; era a Carmagnole desafiando a Marselhesa.

Desafio insensato, mas heróico, pois é certo que aquele velho arrabalde é um herói.

O arrabalde e o seu reduto auxiliavam-se mutuamente. O arrabalde prestava os ombros ao reduto e este debruçava-se sobre eles. A vasta barricada oferecia o aspecto de um rochedo, de encontro ao qual ia quebrar-se a estratégia dos generais da África.

Suas cavernas, suas excrescências, suas verrugas e sinuosidades eram uns como trejeitos que ela fazia, rindo ironicamente sob o fumo. Era uma massa informe, em que se sumia a metralha, em que as bombas se enterravam e desapareciam, em que só as balas conseguiam abrir brecha: de que serve bombardear o caos? E os regimentos, acostumados às mais ferozes visões da guerra contemplavam com olhar desassossegado

aquela espécie de reduto-fera, pelo eriçamento javali, montanha pela enormidade.

Se a um quarto de légua dali, isto é, da esquina da rua Velha do Templo, que desemboca no boulevard, próximo ao Chateau-d’Eau, se estendesse ousadamente o pescoço fora da ponta formada pela frente do armazém Dallemagne, avistar-se-ia ao longe, adiante do canal, na rua que costeia a ladeira de Belleville, no ponto culminante da serra, uma parede singular ao nível dos segundos andares das casas, espécie de linha de união entre os prédios da direita e os da esquerda, como se a rua vesse por si mesmo dobrado a sua parede mais alta para repen namente se fechar. Este muro era construído com as lájeas da rua. Era direito, correcto, frio, perpendicular, nivelado, esquadrado, alinhado e aprumado. Faltava-lhe decerto o cimento, mas, como em certos muros romanos, esta circunstância não perturbava a sua rígida arquitectura. Adivinhava-se-lhe a profundidade pela altura. A cimalha era matema camente paralela à base. De espaço a espaço, dis nguiam-se-lhe na alvacenta super cie seteiras quase invisíveis, que pareciam fios negros, situados a distância igual uns dos outros. A rua via-se deserta em toda a sua extensão, as portas e as janelas todas fechadas. No fundo elevava-se aquela trincheira, que fazia da rua um beco sem saída; muro imóvel e sossegado, em que se não via ninguém nem se ouvia coisa alguma: o mínimo grito, o mínimo rumor, o mínimo sopro. Um sepulcro.

Inundava de luz aquela coisa terrível o deslumbrante Sol de Junho. Era a barricada do arrabalde do Templo.

Ao dar com os olhos nela, era impossível, ainda aos mais intrépidos, não ficarem pensa vos diante daquela misteriosa aparição. Era uma coisa ajustada, encaixilhada, rec línea, simétrica e fúnebre. Revelava ciência e trevas. Conhecia-se que o chefe daquela barricada ou era um geómetra ou um espectro. Olhava-se para aquilo e falava-se em voz baixa.

De tempos a tempos, se alguém, soldado, oficial ou representante do povo, se aventurava a atravessar a solitária calçada, ouvia-se um assobio agudo e fraco, e o viandante caía ferido ou morto, ou, se escapava, via-se cravar em alguma janela, na caliça de uma parede ou na fenda de duas pedras uma bala, algumas vezes de biscainho, porquanto os homens da barricada nham arranjado duas peçazinhas de ar lharia de dois pedaços de tubos de gás, tapados numa extremidade com estopa e jolo. Não se gastava inu lmente a pólvora, porque quase todos os ros se empregavam. Aqui e além, viam-se pela rua alguns cadáveres e charcos de sangue. Lembro-me de ter visto, nessa ocasião, uma borboleta branca esvoaçando pelo sítio da barricada. O Verão não abdica.

Nos arredores, os sótãos estavam atulhados de feridos.

Quem passava sen a-se alvo da oculta pontaria feita por invisíveis entes em toda a extensão da rua.

Agrupados por trás da volta, que faz a ponte do canal à entrada do arrabalde do Templo, os soldados da coluna de ataque observavam, graves e silenciosos, aquele lúgubre reduto, imóvel e impassível, do meio do qual saía a morte. Alguns chegavam até ao meio do lombo formado pela ponte, porém de rojo e com o maior cuidado para não serem vistos.

Admirava e estremecia o valente coronel Monteynard a vista daquela barricada.

— Que construção! — dizia ele a um representante. — Nem uma só pedra desalinhada! Parece porcelana!

Neste momento, a cruz que trazia ao peito foi-lhe quebrada por uma bala e ele caiu.

— Cobardes! — diziam alguns. — Porque se não mostram? Para que se escondem?

Atrevam-se a aparecer! Não são capazes!

A barricada do arrabalde do Templo, defendida por oitenta homens e atacada por dez mil, resis u por espaço de três dias. No quarto, fizeram como em Zaatcha e em Constan na, entraram pelas casas dentro, subiram aos telhados e a barricada foi tomada. Nem um só dos oitenta cobardes pensou em fugir; todos morreram nela, à excepção do chefe, Barthélemy, de quem em breve nos vamos ocupar.

A barricada do arrabalde de Santo António era o tumulto dos trovões; a barricada do Templo era o silêncio. Havia entre os dois redutos a diferença que vai do terrível ao sinistro. Uma parecia uma goela, outra uma máscara.

Admi ndo que a gigantesca e tenebrosa insurreição de Junho era composta de uma cólera e de um enigma, sen a-se na primeira barricada o dragão e por trás da segunda a esfinge.

Estas duas fortalezas haviam sido construídas por dois homens, chamados um, Cournet, outro; Barthélemy Cournet presidira à construção da barricada de Santo António; Barthélemy à da barricada do Templo. Cada uma delas era a imagem do homem que presidira à sua construção.

Cournet era um homem de estatura elevada, ombros largos, rosto corado, pulso de ferro, coração intrépido, alma leal, olhar sincero, mas terrível. Ousado, enérgico, irascível, tempestuoso; o mais cordial dos homens, o mais temeroso dos combatentes. A guerra, a luta, a refrega, eram o seu meio respirável e a sua mais jovial distracção. Fora em tempo oficial de marinha, e pelos seus gestos e voz conhecia-se que saía do Oceano e que vinha da tempestade, con nuando o furacão na batalha. A não ser o génio, havia em Cournet alguma coisa de Danton, como a não ser a divindade, havia em Danton alguma coisa de Hércules.