Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 101 de 359

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Os Miseráveis

X — Quem procura o melhor, às vezes encontra o pior

O desconhecido rou de um dos bolsos, que nha ao lado, uma carteira velha de couro preto, abriu-a e pegou em três notas que pôs em cima da mesa. Depois apoiou sobre elas o largo polegar e disse para o taberneiro:

— Mande chamar Cosette.

Que fazia ela enquanto se passava isto?

Apenas acordou, Cose e correu ao fogão e achara dentro do soco aí depositado a moeda em ouro, que o desconhecido lá deixara. Não era um Napoleão, era uma moeda de vinte francos, nova, da restauração, em cuja e gie, como nas de todas as outras do mesmo cunho, a coroa de louro se achava substituída pela caudazinha prussiana.

Cose e ficou deslumbrada. Principiava a embriagá-la o seu des no. A pobre criança não sabia o que era uma moeda em ouro, nunca vira nenhuma, e escondeu-a com a maior presteza no bolso, como se a vera roubado. Conquanto conhecesse que aquilo lhe pertencia realmente e adivinhasse de onde lhe vinha aquele dom, sen a uma espécie de alegria entremeada de medo. Estava sa sfeita, e, mais que tudo, estupefacta; não lhe pareciam reais aquelas coisas tão magníficas e bonitas. Assustava-a a boneca, assustava-a a moeda em ouro, tremendo vagamente diante daquelas magnificências.

Só o desconhecido é que não a assustava, antes pelo contrário, a tranquilizava. Desde a véspera, que ela por entre os seus espantos, por entre as sombras vagas do seu sonho, nha o seu espiritozinho de criança constantemente ocupado com a lembrança daquele velho de aspecto tão mesquinho e triste, mas tão rico e cheio de bondade. Cose e, menos feliz que a menor andorinha do céu, nunca soubera o que era o refugiar-se uma criatura à sombra e sob as asas de uma mãe. Havia cinco anos, isto é, até onde podiam

remontar as suas reminiscências, que a pobre criança tremia de medo e tiritava de frio.

Nua sempre ao ventar agudo da desgraça, parecia-lhe agora que já se achava vestida.

A sua alma outrora sen ra frio, agora sen a calor. Cose e já não temia tanto a Thenardier, porque não se achava só; havia mais alguém a seu lado, e esse alguém dava-lhe coragem para se defrontar menos receosa com os aspectos medonhos do seu infortúnio.

Após o seu precioso achado, principiara imediatamente a sua tarefa de todas as manhãs. Porém, aquele luís, que trazia consigo naquele mesmo bolso do avental de onde tão desastradamente lhe caíra na noite antecedente a moeda de quinze soldos, fazia-a andar distraída e como que fora de si. Ela não se atrevia a tocar-lhe, mas passava às vezes cinco minutos a contemplá-lo, de boca aberta. Ao varrer a escada, parava e assim ficava, imóvel, esquecida de tudo, alheada da sua vassoura e do universo inteiro, e ocupada a ver brilhar aquela estrela no fundo do bolso do seu roto avental.

Foi quando ela se achava numa dessas contemplações que a Thenardier, que por ordem do marido a vinha buscar, se acercou dela, e, coisa inaudita, sem lhe dar uma bofetada ou lhe atirar uma injúria, lhe disse quase com doçura:

— Anda daí já, Cosette.

Um instante depois, Cosette entrava na sala do andar de baixo da estalagem.

O desconhecido pegou na trouxa que nha trazido e desatou-a. A trouxa con nha um ves do de lã, um avental, um roupão de fustão, um saiote, um lenço para o pescoço, umas meias de lã, uns sapatos, um vestuário completo para uma rapariguinha de oito anos. Todos estes objectos eram pretos.

— Minha filha — disse o homem — leva isto e veste-te depressa. Despontava o dia quando os habitantes de Mon ermeil, que principiavam a abrir as portas das suas casas, viram passar pela rua de Paris um velho pobremente ves do, dando a mão a uma pequenina toda de luto, que levava nos braços uma boneca cor-derosa. Os dois viandantes dirigiam-se para a parte de Livry.

Era Cosette e o homem de casacão amarelo.

Ninguém o conhecia a ele, e quanto a Cose e, como já não ia coberta de andrajos, também muitos não a conheceram.

Cose e par a. Mas com quem? Ignorava-o. Para onde? Não o sabia. O mais que ela compreendia era que se ausentava da taberna de Thenardier e de sua mulher.

Ninguém se lembrara de lhe dizer adeus nem ela de o dizer a ninguém. Saía daquela casa odiada e odiando.

Pobre e meiga criatura, cujo coração até ali só fora oprimido!

Cose e caminhava gravemente, abrindo os seus rasgados olhos e contemplando o céu. De vez em quando curvava a cabeça e deitava um olhar para dentro do bolso do seu avental novo, onde metera o luís, olhando depois para o velho. A pobre criança sentia-se como que na presença de Deus, tão entranhadamente celes al era a felicidade que lhe transbordava da alma!

X — Quem procura o melhor, às vezes encontra o pior

Segundo o seu costume, a Thenardier deixara o marido, sem se intrometer naquele

negócio, de que aguardava sucessos de estrondo. Quando Cose e e o homem par ram, Thenardier deixou passar um grande quarto de hora, após o qual chamou a mulher de parte e mostrou-lhe os mil e quinhentos francos.

— Ora! Que grande coisa!

Era a primeira vez, desde o dia em que principiaram a viver juntos, que ela ousava criticar um acto do marido.

O tiro acertou no alvo.

— Realmente, tens razão! — disse ele. — Sou um imbecil! Deixa-me cá ver o chapéu.

E, dobrando as três notas, meteu-as no bolso e saiu a toda a pressa, mas enganou-se e tomou primeiro pela direita. Como, porém, alguns vizinhos, a quem perguntou, o orientassem sobre o caminho que levava a Cotovia e o homem do casacão, dizendo-lhe que os nham visto caminhar na direcção de Livry, Thenardier seguiu a indicação que eles lhe deram, caminhando com ligeireza e falando consigo próprio.

— Aquele homem é um milhão ves do de amarelo e eu sou um grande animal! Ele primeiro deu vinte soldos depois cinco francos, depois cinquenta francos, depois mil e quinhentos, e sempre com a mesma facilidade. Por consequência, daria quinze mil, se lhos pedissem, mas eu vou já pilhá-lo.

E depois aquela trouxa de roupa, já de antemão preparada para a pequena, tudo isto era singular; aqui anda grande mistério. Ora quem tem seguro um mistério e o deixa fugir. Os segredos dos ricos são esponjas cheias de ouro, que se devem espremer o mais que for possível, porque sempre deitam alguma coisa. Todos estes pensamentos lhe redemoinhavam no cérebro e ele concluía sempre, dizendo: «Sempre sou muito burro!»

Quando se sai de Mon ermeil e se transpõe o cotovelo formado pela estrada que vai para Livry, vê-se estender esta até muito longe pela planície. Thenardier pois, ao chegar aí, calculou que devia avistar o homem e a pequena, e por isso olhou até onde lhe alcançava a vista, mas não viu nada. Perguntou outra vez; pois tudo isto lhe fazia perder tempo. Disseram-lhe algumas pessoas que o homem e a criança em cuja busca andava se tinham encaminhado para o bosque para o lado de Gagny.

Os dois viandantes levavam-lhe alguma dianteira, porém uma criança anda devagar e ele caminhava depressa, e, além disso, conhecia aqueles sítios aos palmos.

De repente, Thenardier parou e pôs-se a bater na testa, como quem esqueceu o essencial e está disposto a voltar atrás.

— E eu que não trouxe a espingarda! — disse ele consigo.

Thenardier era dessas naturezas duplas que às vezes passam pelo meio de nós sem darmos fé delas e que desaparecem sem ser conhecidas, porque o des no não as mostrou senão por uma face. A sorte de muitos homens é viver assim meio submergidos.

Numa situação serena e simples, Thenardier possuía tudo o que era necessário para fazer não diremos para ser do que está convencionado chamar-se um negociante honrado, um homem capaz. Ao mesmo tempo, porém, dadas certas circunstâncias, revolvendo-lhe certos abalos o fundo da natureza, ele possuía tudo o que era necessário para ser um celerado. Era um lojista com laivos de monstro.

Satanás devia às vezes ir acocorar-se ao canto da espelunca em que ele vivia e pôr-se

a meditar em presença daquela obra-prima de medonha disformidade.

Após uma hesitação de alguns instantes, o estalajadeiro disse consigo:

— Ora! Estava bem servido. Enquanto eu ia e vinha, punham-se-me eles ao fresco.

E con nuou o seu caminho com presteza, quase com ar de confiança e com a sagacidade da raposa que fareja um bando de perdizes.

Com efeito, depois que transpôs os lagos e atravessou obliquamente a grande clareira que fica à direita — da alameda de Bellevue, ao chegar ao estendal de verdura que quase circunda a colina, cobrindo a abóbada do an go aqueduto da abadia de Chelles, avistou por cima de um silvado um chapéu, sobre o qual já tantas conjecturas levantara.

Era o chapéu do homem. Como o silvado era baixo, Thenardier conheceu que o homem e Cose e estavam ali sentados. Não se via a criança por causa da sua pequenez, mas descobria-se a cabeça da boneca.

Thenardier não se enganava. O homem sentara-se ali para deixar Cose e descansar um bocado. O taberneiro afastou as silvas e apareceu subitamente aos olhos dos viandantes em cuja procura vinha.

— Mil perdões e desculpas, senhor — disse ele todo esbaforido — mas aqui tem o seu dinheiro.

E, ao dizer isto, apresentava ao desconhecido as três notas.

O homem olhou para ele e disse-lhe:

— Que quer dizer isso?

Thenardier respondeu respeitosamente:

— Senhor, o que quer dizer é que torno a levar Cosette comigo.

A criança estremeceu e cingiu-se muito ao seu protector.

Quanto a este respondeu, cravando os seus nos olhos de Thenardier:

— Tornar a levar Cosette?

— Sim, senhor, torno-a a levar. Eu lhe conto; reflec e vi que não nha feito bem em fazer o que fiz, por que, enfim, eu não tenho direito para lhe ceder a criança. Senhor, saiba que eu sou um homem de bem. Ora a pequena não me pertence, pertence à mãe.

Quem ma confiou foi a mãe e por isso não a posso entregar a mais ninguém senão à mãe. O senhor dirá: «Mas a mãe morreu». Bem, nesse caso não posso dar a criança senão a uma pessoa que me trouxesse um escrito assinado por ela em como eu devo entregar a criança a essa tal pessoa. Isto é claro.

O homem, em vez de responder, meteu a mão no bolso e Thenardier, ao ver tornar a aparecer a carteira das notas, sentiu um estremecimento de alegria.

«Bem!» disse ele consigo. «Sentido, que o homem vai-me querer corromper!»

Antes de abrir a carteira, o viajante circunvagou a vista para todos os lados, como se receasse ser visto naquela operação. O lugar estava completamente deserto. Não havia vivalma nem no bosque, nem em toda a extensão do vale. O homem abriu pois a carteira e rou dela não o punhado de notas que Thenardier esperava, mas um simples papelinho, que desembrulhou e apresentou aberto ao estalajadeiro, acrescentando:

— Tem muita razão. Leia.

Thenardier pegou no papel e leu:

Montreuil-sur-mer, 25 de Março de 1823

Senhor Thenardier

Fará favor de entregar Cosette ao portador desta.

A importância de que fala ser-lhe-á integralmente paga.

Sou com a maior consideração, etc.

Fantine.

— Conhece essa assinatura? — tornou o homem.

A assinatura era efec vamente de Fan ne e Thenardier conheceu-a. Não havia que replicar. O estalajadeiro sen u dois violentos despeitos: o de renunciar à corrupção que esperava e o de ser derrotado.

O homem acrescentou:

— Pode guardar esse papel para sua defesa.

Thenardier submeteu-se em boa ordem, porém não sem resmungar por entre dentes:

— A assinatura está bem imitada. Mas, enfim, vá lá.

Depois tentou um esforço desesperado.

— Está bem, senhor — disse ele — uma vez que o senhor é o portador. Mas quero que me paguem o que ainda falta, o que não é assim tão pouco.

O homem pôs-se de pé e disse, sacudindo aos piparotes o pó que lhe cobria a manga do casacão:

— Senhor Thenardier, a mãe desta criança julgava dever-lhe, em Janeiro, cento e vinte francos, porém em Fevereiro você mandou-lhe uma conta de quinhentos, dos quais recebeu trezentos em fins de Fevereiro e no princípio de Março recebeu mais outros trezentos. Desde então até agora têm decorrido nove meses que, a quinze francos por mês, como se ajustou, perfaz cento e trinta e cinco francos. Ora, nha recebido cem francos de mais; restam, por consequência, trinta e cinco, que é quanto se lhe deve, e eu dei-lhe há pouco mil e quinhentos.

Thenardier experimentou o que experimentam os lobos quando se sentem mordidos e agarrados pelos dentes de ferro da armadilha em que caíram.