Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 275 de 359

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Os Miseráveis

V — Preparativos

O movimento perpétuo residia em seus pequenos braços e o clamor infindo em seus pequenos pulmões.

— Vá, vamos a isto! Mais pedras! Mais pipas! Onde as há para se irem buscar? Venha um cesto de entulho para tapar este buraco. Está muito pequena a barricada. É preciso que cresça. Arrumem-lhe tudo que acharem. Deitem a casa abaixo. Uma barricada é o chá da tia Gibou. Olhem, aqui está muito à mão uma porta de vidraça!

Isto fez exclamar, cheios de pasmo, os trabalhadores:

— Uma porta de vidraça? O que queres tu que se faça de uma porta de vidraça,

tubérculo?

— Tubérculos são vocês! — retorquiu Gavroche. — Uma porta de vidraça numa barricada é uma coisa excelente; não impede que seja atacada, mas incomoda os que a quiserem tomar. Vocês nunca saltaram um muro coberto de fundos de garrafas, para irem palmar maçãs? Uma porta de vidraça corta os calos aos guardas nacionais, quando queiram subir à barricada. Com a fortuna, o vidro é traidor! Vocês, amigos, sabem pouco disto e têm a imaginação pouco desenfreada!

No fim de tudo estava furioso contra a sua pistola sem cão e corria sem cessar, de um a outro, gritando:

— Quero uma espingarda! Dêem-me uma espingarda! Porque me não dão uma espingarda?

— Uma espingarda para ti?! — disse Combeferre.

— Ora essa! — replicou Gavroche. — Porque não? Então não ve uma em 1830, quando se disputou com Carlos X?

Enjolras encolheu os ombros.

— Quando as houver para todos os homens., então se darão às crianças.

Gavroche voltou-se atrevidamente para ele e respondeu-lhe:

— Se fores morto primeiro do que eu, tirar-te-ei a tua.

— Garoto! — disse Enjolras.

— Fedelho! — replicou Gavroche.

Um elegante, transviado do bom caminho e que estava pasmado no fim da rua, operou uma diversão a este incidente.

Gavroche gritou-lhe:

— Eh! Venha para o pé da gente! Então não se faz nada por esta velha pátria?

O elegante fugiu.

V — Preparativos

Os periódicos daquele tempo dizendo que a barricada da rua da Chanvrerie,

«construção quase inexpugnável!», como eles lhes chamavam, chegava à altura de um primeiro andar, enganaram-se. O facto é que a sua altura média não era superior a seis ou sete pés. Estava construída de modo que os combatentes podiam à vontade, ou abrigar-se atrás dela, ou dominá-la, e mesmo subir-lhe ao cimo por meio de uma quádrupla fileira de pedras, como degraus pela parte de dentro. Exteriormente a barricada, composta de pedras de calçada, de pipas seguras por vigas e tábuas, que encaixavam nas rodas da carroça de cal e do omnibus tombado, apresentava o aspecto de um obstáculo eriçado e inextricável. Entre a parede das casas e a extremidade da barricada mais afastada da taberna, nham deixado uma abertura suficiente para passar um homem, de modo que era possível uma sor da. Na lança do ónibus erguida ao alto sobre a barricada flutuava, segura com cordas, uma bandeira vermelha.

A barricada pequena da rua Mondétour, oculta por detrás da casa da taberna, não se via. As duas barricadas reunidas formavam um verdadeiro reduto. Enjolras e Courfeyrac nham julgado ú l não entrincheirar a outra secção da rua Mondétour, que abre, pela rua dos Pregadores, uma saída para os Mercados, querendo, sem dúvida, conservar

possível comunicação com o exterior, receando pouco serem atacados pela perigosa e difícil rua dos Pregadores.

Deste modo, o interior da barricada em que a taberna formava um ângulo saliente com a saída livre, que cons tuía o que Folard, no seu es lo estratégico, teria chamado um desfiladeiro, e tomando também em linha de conta a exígua abertura que dava saída para a rua de Chanvrerie, apresentava o aspecto de um quadrilátero irregular, fechado por todos os lados. Entre o grande parapeito e as casas que formavam o fundo da rua, havia um intervalo de uns vinte passos, de sorte que podia dizer-se estar a barricada encostada àquelas casas todas habitadas, mas completamente fechadas de alto a baixo.

Este trabalho foi feito sem impedimento em menos de uma hora, sem que aquele punhado de homens atrevidos visse surgir uma barre na nem uma baioneta. Os raros burgueses que se arriscavam ainda naquele momento da revolta a passar pela rua de S.

Diniz, olhavam para a rua da Chanvrerie, viam a barricada e dobravam o passo.

Concluídas as duas barricadas e arvorada a bandeira, trouxeram para fora da taberna uma mesa; Courfeyrac saltou para cima dela.

Enjolras foi buscar a caixa quadrada e Courfeyrac abriu-a. A caixa estava cheia de cartuchos. Quando apareceram os cartuchos houve um estremecimento entre os mais bravos e um momento de silêncio.

Courfeyrac distribuiu-os, sorrindo.

Cada um recebeu trinta cartuchos. Muitos nham pólvora e puseram-se a fazer mais, com as balas que estavam fundindo. Quanto ao barril de pólvora estava sobre uma mesa à parte e ficou de reserva.

O toque da chamada que percorria Paris, não cessava, mas acabara por não ser mais do que um ruído monótono, a que eles não davam atenção. Este ruído ora se afastava, ora se aproximava com lúgubres ondulações.

Todos carregaram ao mesmo tempo as espingardas e as clavinas sem precipitação e com solene gravidade. Enjolras foi postar três sen nelas fora das barricadas, uma na rua da Chanvrerie, a segunda na rua dos Pregadores e a terceira à esquina da Pequena Truanderie.

Depois de construídas as barricadas, distribuídos os postes, carregadas as armas, postadas as vedetas, isolados no meio daquelas temíveis ruas por onde já não passava ninguém, cercados por aquelas casas mudas e como mortas, onde não palpitava o mínimo movimento, envolvidos pelas primeiras sombras do crepúsculo, no meio daquela obscuridade e silêncio em que se sen a avançar o que quer que era, e que nha não sei que de trágico e de aterrados, sós, armados, resolutos e tranquilos, esperavam.

VI — Enquanto esperavam

Que fizeram eles naquelas horas de espera?

É indispensável que o digamos, porque tudo pertence à história.

Enquanto os homens faziam cartuchos e as mulheres fios, enquanto as vedetas velavam, de armas no braço, pela barricada, enquanto Enjolras incapaz de ser distraído, velava pelas vedetas, reuniram-se Combeferre, Courfeyrac, Jean Prouvaire, Feuilly, Bossuet, Joly, Bahorel e ainda outros, como nos dias tranquilos das suas palestras de

estudantes e num canto da taberna transformada em casa mata, a dois passos do reduto que nham levantado com as carabinas carregadas e escorvadas, apoiadas nas costas das cadeiras, todos aqueles belos rapazes, tão próximos de uma hora suprema, começaram a recitar versos de amor.

Versos que aqui reproduzimos:

Diz filha, ainda te lembras

Desses tempos descuidados,

Quando eram só nossos sonhos

Sermos amantes e amados?

Juntando aos meus os teus anjos

Ninguém quarenta fizera;

No próprio Inverno sombrio

Nos sorria a Primavera.

Bom tempo era então; bom tempo!...

Vivia a França em banquete.

Certo dia no teu cinto.

Piquei-me num alfinete.

Eras o enlevo de todos;

Se ias ao Prado jantar.

Quantas vezes vi as rosas

De pura inveja corar!...

E então diziam: «Reparem,

Que aroma, que formosura;

Hão-de pender-lhe dos ombros

Asas de esplêndida alvura».

Íamos sós: quem nos via

Punha-se a olhar de soslaio:

Era o doce mês de Abril

Casado com o mês de Maio.

O nosso refúgio humilde

Todo era amor e alegria;

Mal a boca eu descerrava

Tua alma me respondia.

Tivemos junto à Sorbonne,

Tanto idílio de inocência!...

Não se imolava a ternura Sobre as aras da ciência.