Os Miseráveis
V — O Judas da providência
E, falando deste modo, desdobrara a súplica dirigida «ao benfeitor da igreja de S.
Jacques do Haut-Pas».
— Olha! — exclamou ela. — Esta é para o velho que vai à missa. Agora são horas; vou-lha levar. Talvez nos dê para o almoço.
E, depois de soltar uma risada, acrescentou:
— Quer saber o que vale, se hoje almoçarmos? O almoço de hoje vale-nos pelo almoço de antes de ontem, pelo jantar de antes de ontem, pelo almoço de ontem, pelo jantar de ontem, tudo isto de uma vez, esta manhã. Apre! Seus cães! Se não estão contentes, que os leve a breca!
Isto fez lembrar a Mário o fim para que a infeliz o nha vindo procurar. Meteu a mão ao bolso, mas não achou nada.
Entretanto, a jovem con nuava a falar, porém como se já não vesse consciência de que Mário a ouvisse.
— Às vezes saio de tarde e não volto senão no outro dia. No Inverno passado, antes de para aqui virmos, a nossa casa era debaixo dos arcos das pontes. Minha irmã dava-lhe para chorar. Realmente, a água é uma coisa que mete tristeza! Às vezes, quando me chegava vontade de me deitar a afogar, dizia eu: «Ui! Sempre está tão fria!» Eu cá saio quando quero; às vezes até durmo nos fossos. De noite, quando ando pelo boulevard, olho para as árvores e parecem-me forcas, olho para as casas e parecem-me negras e grandes como as torres de Nossa Senhora, afigura-se-me que as paredes são o rio, e digo comigo: «Mau! Temos água!» As estrelas parecem-me lampiões de iluminação, parece mesmo que deitam fumo e que se apagam com o vento, sinto-me atordoada, como se vesse uma parelha de cavalos a soprarem-me aos ouvidos; apesar de ser de noite, ouço realejos e um barulho de máquinas a trabalhar, mil coisas, eu sei lá! Afigura-se-me que me a ram pedras, e eu deito a fugir sem querer saber de mais nada, e anda-me tudo à roda. Quando ando sem comer, tenho sempre destas esquisitices.
E pôs-se a olhar para o rapaz com ar desvairado.
Mário tanto procurou nos bolsos, que por fim chegou a juntar cinco francos e dezasseis soldos, que eram todo o seu dinheiro naquela ocasião. «Para o jantar de hoje», disse ele consigo. «Sempre guardarei os dezasseis soldos; para o de amanhã veremos».
E meteu outra vez ao bolso os dezasseis soldos, dando os cinco francos à jovem, que lançou mão deles.
— Bom! Já temos Sol!
E como se o Sol vesse a propriedade de lhe derreter no cérebro uma avalancha de gíria, prosseguiu:
— Cinco francos! Um monarca luzente nas batas! Ai que léria! O senhor é um soce das pontas. Dois dias de soquideira pros gelfos! Agora é rus r como cobra! Cinco francos em prata nas minhas mãos! Custa-me a acreditar! O senhor é muito boa pessoa. São dois dias de alimento para a família! Agora podemos encher a barriga!
E, puxando a camisa para os ombros, fez uma grande cortesia ao rapaz, depois um gesto familiar com a mão e encaminhou-se para a porta, dizendo:
— Passe muito bem. É o mesmo. Sempre vou a casa do tal velhote. Ao passar, divisando sobre a cómoda uma côdea de pão seca já negra do pó, a rou-se a ela com sofreguidão, comendo-a e resmungando ao mesmo tempo:
— É boa! Mas tão dura, que me quebra os dentes!
E saiu.
V — O Judas da providência
Havia cinco anos que Mário vivia na pobreza, rodeado de privações e mesmo de penúria, mas só então descobriu que nunca conhecera a verdadeira miséria. Acabava de a ver. Era aquela larva que lhe passara por diante dos olhos. É que, com efeito, quem nunca viu senão a miséria do homem não viu nada, precisa ver a miséria da mulher; quem nunca viu senão a miséria da mulher, não viu nada, precisa ver a miséria da
criança.
Quando o homem chega às úl mas extremidades, chega ao mesmo tempo aos úl mos recursos. Desgraçados dos entes sem defesa que o cercam! O trabalho, o salário, o pão, o lume, o ânimo, a boa vontade, tudo lhe falta ao mesmo tempo. A luz moral apaga-se no interior; no meio destas sombras encontra o homem a fraqueza da mulher e a da criança, e amolda-as violentamente às ignomínias.
Então todos os horrores se tornam possíveis. O desespero é rodeado por frágeis tabiques, que dão todos para o vício ou para o crime.
A saúde, a mocidade, a honra, as santas e severas delicadezas da carne ainda nova, o coração, a virgindade, o pudor, essa epiderme da alma, são sinistramente manejados pela apalpadela que busca recursos, que encontra o opróbrio e que acomoda com ele.
Pais, mães, filhos, irmãos, irmãs, homens, mulheres, raparigas, aderem e agregam-se quase como uma formação mineral, nesta nebulosa promiscuidade de sexos, de parentescos, de idades, de infâmias e de inocências. Agacham-se, encostados uns aos outros, numa espécie de des no-pocilga. É lentamente o modo porque se olham reciprocamente Desventurados! Como estão pálidos! Como tremem de frio! Parece que habitam em planeta muito mais distante do Sol do que nós.
Aquela rapariga foi para Mário uma espécie de enviado das trevas. Revelou-lhe completamente o lado hediondo da noite.
Mário quase se repreendeu das preocupações de sonho e paixão que o nham impedido até aquele dia de lançar os olhos para os seus vizinhos. Ter-lhes pago a renda da casa, fora uma coisa maquinal, que qualquer pessoa teria feito, mas ele, Mário, devia ter feito mais. O quê! Por estar apenas separado por uma parede daqueles entes abandonados, que viviam às apalpadelas no meio da escuridão, e separado do resto dos viventes, roçava por eles, era de certo modo o úl mo elo do género humano, que eles tocavam, sen a-os viver, ou antes, agonizar, junto de si, e não lhes dava a mínima atenção! Todos os dias, a todos os instantes, ouvia-lhes os passos, sen a-os andar de um lado para o outro, ouvia-os falar através da parede e não aplicava o ouvido! As palavras que proferiam con nham gemidos, e ele nem mesmo os escutava! O seu pensamento estava noutra parte, sonhava com brilhos impossíveis, com amores aéreos, com loucuras, e entretanto, havia criaturas humanas, seus irmãos em Jesus Cristo, seus irmãos pelo povo, que agonizavam a seu lado! Agonizavam inu lmente! Ele chegava a fazer parte da sua desgraça, agravava-a mesmo! Por que se vessem outro vizinho menos quimero e mais atento, um homem vulgar e carita vo, teria sido evidentemente notada a sua indigência, os seus sinais de miséria teriam sido percebidos e haveria talvez já muito tempo que teriam sido recolhidos e salvos! Pareciam decerto, muito depravados, muito corrompidos e aviltados, mesmo muito odiosos; mas são muito raros os que caíram sem se enlamear; e depois há um ponto em que os desventurados e os infames se amalgamam e confundem numa só palavra, na palavra fatal miseráveis; de quem é a culpa? E depois, não deve ser tanto maior a caridade quanto mais profunda é a perdição?