Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 249 de 359

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Os Miseráveis

IV — Os dois deveres: velar e esperar

Daí vem o infortúnio dos tempos, essas pavorosas comoções que se chamavam outrora jacqueries, ao pé das quais as agitações puramente polí cas são brinquedos de criança, e que não são já a luta do oprimido contra o opressor, mas da privação contra o bem-estar. Então tudo desaba.

As jacqueries são os terramotos do povo.

É a este perigo, iminente talvez na Europa pelos fins do século XVIII, que vem cortar o passo à revolução francesa, esse imenso acto de probidade.

A revolução francesa, que não é senão o ideal armado com o gládio, ergueu-se, e, com

o mesmo movimento inesperado, fechou a porta do mal e abriu a porta do bem Desembaraçou a questão, promulgou a verdade, expulsou o miasma, tornou saudável o século, coroou o povo.

Pode dizer-se que criou o homem segunda vez, dando-lhe segunda alma o direito.

O século XIX herda e aproveita-se da sua obra, e hoje a catástrofe social que há pouco indicámos, é de todo impossível. Quem a denuncia é cego! Quem a teme é néscio! A revolução é a vacina da jacquerie.

Graças à revolução, estão mudadas as condições sociais. As doenças feudais e monárquicas já não estão no nosso sangue. Na nossa cons tuição já não há Idade Média. Já não estamos nos tempos em que as medonhas agitações internas irrompiam, em que se sen a debaixo dos pés a corrida obscura de um ruído surdo, em que aparecia à super cie da civilização não sei que levantamento de galerias de toupeiras, em que o Sol se fendia, em que a parte superior das cavernas se abria e em que de repente se viam sair da terra cabeças monstruosas.

O senso revolucionário é um senso moral. O sen mento do direito, desenvolvido, desenvolve o sen mento do dever. A lei de todos é a liberdade que termina onde começa a liberdade de outro, segundo a admirável definição de Robespierre. Desde 89

todo o povo se dilata no indivíduo sublimado; não há nele pobre que, sen do o seu direito, não tenha a sua porção de luz; o faminto sente em si a hones dade da França; a dignidade do cidadão é uma armadura interior; quem é livre é escrupuloso; quem vota reina. Daqui a incorrup bilidade; daqui o aborto das cobiças insalubres, daqui os olhos heroicamente baixos na presença das tentações. A salubridade revolucionária é tal, que num dia libertador, num H de Julho, num 10 de Agosto, já não há populaça. O primeiro grito das mul dões iluminadas e que se engrandecem é: morram os ladrões! O progresso é honrado. Por quem foram escoltados em 1848 os caixões que con nham as riquezas das Tulherias? Pelos trapeiros do arrabalde de Santo António. O andrajo estava de guarda ao tesouro. A virtude tornou brilhantes aqueles esfarrapados. Havia ali, naqueles carros, naquelas caixas mal fechadas, algumas entreabertas, entre aqueles cem estojos deslumbrantes, a velha coroa da Franca, do Regente, toda de diamantes, sobrepujada pelo carbúnculo da realeza, que valia trinta milhões. E os pés descalços guardavam esta coroa.

Assim, pois, já não havia jacquerie. Sinto-me contristado pelo desgosto dos hábeis.

Era o velho medo que produzia o seu úl mo efeito e que não poderá tornai a ser empregado na polí ca. A mola real do espectro está par da. Agora toda a gente a conhece. O espantalho já não espanta. Os que passam tomam familiaridades com o manequim, os estercorários pousam nele, os burgueses riem-se-lhe em cima.

IV — Os dois deveres: velar e esperar

Sendo assim, está dissipado todo o perigo social? Não, decerto. Nada de jacquerie. A sociedade pode sossegar por este lado; o sangue não tornará a subir-lhe à cabeça; mas deve dar-lhe atenção ao modo porque respira. A apoplexia já não é para temer, mas a tísica existe. A tísica social chama-se miséria.

Morre-se minado do mesmo modo que fulminado.

Não deixemos de o repe r: cuidar antes de tudo das mul dões deserdadas e dolorosas, aliviá-las, arejá-las, esclarecê-las, amá-las, alargar-lhes magnificamente os horizontes, prodigalizar-lhes a educação sob todas as formas, oferecer-lhes o exemplo do trabalho nunca o exemplo da ociosidade, diminuir o peso do fardo individual, aumentando a noção do fim universal, limitar a pobreza sem limitar a riqueza, criar vastos campos de ac vidade pública e popular, ter como Briarea cem braços para estender para todos os lados aos aflitos e aos fracos, empregar o poder colec vo no grande dever de abrir oficinas para todos os braços, escolas para todas as ap dões e laboratórios para todas as inteligências, aumentar o salário, diminuir a fadiga, balancear o deve e haver, isto é, proporcionar o gozo ao esforço e a saciedade à necessidade, numa palavra, desembaraçar o aparelho social em proveito dos que sofrem e dos que ignoram; maior claridade e maior comodidade, não o esqueçam as almas simpá cas, é o que cons tui a primeira das obrigações fraternais; é, saibam-no os corações egoístas, a primeira das necessidades políticas.

E, digamo-lo, isto tudo não é mais que um começo. A verdadeira questão: o trabalho não pode ser uma lei sem ser um direito.

Não insistimos mais, não é este o lugar próprio.

Se a natureza se chama providência, a sociedade deve chamar-se previdência.

O desenvolvimento intelectual e moral não é menos indispensável do que o melhoramento material. Saber é um viá co, pensar é de primeira necessidade; a verdade é tanto alimento como o pão. Uma razão, em jejum de ciência e de saber emagrece.

Las memos, do mesmo modo que os estômagos, os espíritos que não comem. Se há alguma coisa mais pungente do que um corpo agonizante por falta de pão, é uma alma morrendo à fome de luz.

O progresso pende todo para o lado da solução. Um dia ficar-se-á estupefacto.

Elevando-se o género humano, as camadas profundas sairão naturalmente da zona de aflição. O desaparecimento da miséria operar-se-á por uma simples elevação de nível.

Será um erro duvidar desta solução abençoada.

O passado, com efeito, é demasiadamente forte na hora em que estamos.

Restabelece-se. Esta rejuvenescência de um cadáver é surpreendente. Ei-lo que marcha e que avança. Parece vencedor; é um defunto, mas conquistador. Vem com a sua legião, as supers ções, a sua espada, o despo smo: com a sua bandeira, a ignorância, tem ganho dez batalhas. Avança, ameaça, ri-se, está às nossas portas. Quanto a nós não desesperamos. Vendamos o campo em que acampa Aníbal.

Nós que cremos o que podemos temer?

As ideias não são mais susceptíveis de recuar do que os rios.

Mas pensem bem os que não querem nada do futuro. Dizendo não ao progresso, não é o futuro o que eles condenam, mas a si mesmos. Adquirem por suas mãos uma doença sombria; inoculam-se o passado. Não há senão um modo de recusar o Amanhã, é morrer.

Ora, quanto a mortes, a do corpo o mais tarde possível, a da alma, nunca; é isto o que nós queremos.

Sim, o enigma será decifrado, a esfinge falará, o problema será resolvido. Sim, o povo esboçado pelo século XIX. Quem o duvidar é idiota! O parto do futuro, o próximo nascimento do bem-estar universal, é um fenómeno divinamente fatal.

Os factos humanos são regidos por imenso avançar do todo, que os conduzem, sem excepção de um só, num tempo dado, ao estado lógico, isto é, ao equilíbrio, à equidade.

Da humanidade resulta uma força composta de terra e de céu, que a governa; esta força é uma produtora de milagres; os desfechos maravilhosos não são mais di ceis do que as peripécias extraordinárias. Ajudada com a ciência que vem do homem e com o acontecimento que vem de um outro, espantasse pouco das contradições na disposição dos problemas que ao vulgo parecem impossibilidades. Esta força não é menos hábil em fazer brotar uma solução da aproximação das ideias, do que da aproximação dos factos, e tudo pode esperar-se da parte desta misteriosa potência do progresso, que um dia confronta o Oriente com o Ocidente no fundo de um sepulcro e faz dialogar os imãs com Bonaparte no interior da grande pirâmide.

Entretanto, nada de descanso, nada de hesitação, nada de tempo de espera na grandiosa marcha dos espíritos para a frente.

A filosofia social é essencialmente a ciência da paz. Tem por fim e deve ter como resultado, a dissolução das cóleras pelo estudo dos antagonismos.

Examina, investiga e analisa; depois recompõe.

Dirige-se pelo caminho da redução, suprimindo de tudo o ódio.

Tem-se visto mais de uma vez uma sociedade despenhada no abismo pelo vento desencadeado sobre os homens; a história está cheia de naufrágios de povos e de impérios; num dia passa o tufão, o desconhecido, e leva consigo costumes, leis e religião; é tudo arrebatado. As civilizações da Índia, da Chaldea, da Pérsia, da Assíria e do Egipto, desapareceram todas umas após outras. Porquê? Ignoramo-lo. Quais são as causas destes desastres? Não o sabemos. Aquelas sociedades poderiam ter sido salvas? Foi delas a culpa? Obs naram-se nalgum vicio fatal que as perdeu? Que porção de suicídio houve naquelas mortes terríveis de uma nação e de uma raça? Perguntas sem resposta.

A sombra cobre as civilizações condenadas. Submergiram-se, porque faziam água; é o mais que podemos dizer, e é com uma espécie de assombro que vemos, no fundo do mar que se chama passado, por trás dos séculos vagas colossais, soçobrar os imensos navios, Babilónia, Nínive, Társea, Tebas e Roma, sob o medonho sopro que sai de todas as bocas das trevas. Mas trevas ali, claridade aqui. Ignoramos as doenças das civilizações an gas, conhecemos as enfermidades da nossa. Temos por sobre toda ela o direito de luz; contemplamos as suas belezas e pomos em perfeita nudez as suas deformidades.

Onde ela tem o mal, sondamos; e uma vez reconhecido o sofrimento, o estudo da causa conduz à descoberta do remédio.

A nossa civilização, obra de vinte séculos, é ao mesmo tempo o monstro e seu prodígio deles; vale a pena de ser salva. Sê-lo-á. Confortá-la é já muito; esclarecê-la, é ainda alguma coisa. Os trabalhos da filosofia moderna devem todos convergir para este fim. O pensador hoje tem um grande dever auscultar a civilização.

Repe mo-lo: esta auscultação anima; e é pela insistência na animação que queremos terminar estas poucas páginas, entreacto austero de um drama doloroso. Sob a mortalidade social sente-se a imortalidade humana. O globo, por ter num e noutro ponto as suas chagas, as crateras e as suas impigens, os sulfatados, por efeito de um vulcão que rebenta e lança a sua lava, não morre. Doenças de povo não matam o homem.