Os Miseráveis
V — Biscainho e Nicolette
república, ele tornava-se fulo Ide raiva e irritava-se a ponto de cair no chão desmaiado.
Às vezes fazia alusão aos seus noventa anos e dizia: «Felizmente, estou livre de ver duas vezes noventa e três». Outras vezes, porém, inculcava que ainda esperava viver cem anos.
V — Biscainho e Nicolette
Gillenormand tinha as suas teorias. Eis uma delas:
«Quando um homem é apaixonado por mulheres e tem em casa uma, de quem nada se lhe dá, feia, rabugenta, legí ma, amiga de andar sempre a falar nos seus direitos, lida no código, e ciosa até, se isso vem a talho, só lhe resta um meio de se livrar de tal praga e viver em paz: é largar-lhe os cordões da bolsa. Torna-o livre essa abdicação. A mulher tem então em que se ocupar, toma gosto pelo manusear do dinheiro que lhe enche os dedos de verdete, empreende a educação dos caseiros e a criação dos rendeiros, consulta os advogados, preside aos escrivães, arenga aos tabeliães, visita os juízes, acompanha os processos, redige os arrendamentos, dita os contratos, vê-se soberana, vende, compra, faz e desfaz ajustes, promete e compromete, liga e desliga, cede, concede e retrocede, arranja e desarranja, entesoura e esbanja, economiza e gasta à larga, faz asneiras, prazer supremo, e isso consola-a. Enquanto que o marido a deixa, tem ela a satisfação de lhe dar cabo do que ele possui».
Esta teoria era a que ele a si mesmo aplicara, tornando-a toda a história da sua vida.
A segunda mulher administrara-lhe a casa de modo que, quando ele por graça de Deus se achou viúvo, restava-lhe unicamente o necessário para poder passar, conver-tendo em renda vitalícia quase tudo, que vinham a ser uns quinze mil francos, três quartas partes dos quais se ex nguiriam por sua morte. Dera este passo resolutamente, pouco preocupado com o cuidado de deixar uma herança. Além disso, nha visto que os patrimónios corriam seus riscos, tornando-se às vezes bem nacionais. Gillenormand tinha presenciado os avatares do três por cento consolidados e acreditava pouco no livro da razão.