Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 161 de 359

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Os Miseráveis

VII — Regra: Não receber ninguém senão à noite

A tal criatura que se chamava Magnon, fez-lhe no ano seguinte idên co presente. Era outro rapaz. Desta vez, o senhor Gillenormand capitulou. Remeteu à mãe os dois pequenos, obrigando-se a pagar para a sua criação oitenta francos por mês, com a condição de que a dita mãe não continuasse a obsequiá-lo. E acrescentou:

— Espero que a mãe os trate bem. De tempos a tempos irei vê-los.

E não faltou ao que prometeu. Gillenormand vera um irmão padre, que fora durante trinta e três anos, reitor da academia de Poi ers, e que morrera com setenta e nove anos. Perdi-o muito moço, dizia ele. Este irmão, de que ficou muito pouca memória, era um pacífico avarento, que, julgando-se obrigado, por ser padre, a dar esmola aos pobres que encontrava, mas não lhes dando nunca senão dinheiro em cobre já sem curso, verdadeiras chapas, descobrindo assim meio de ir para o inferno pelo caminho do paraíso. Quanto a Gillenormand, esse não regateava nunca a esmola, e dava-a espontânea e nobremente. Era benévolo, arrebatado, carita vo e, se fosse rico, as suas tendências seriam sempre para a magnificência.

Queria que tudo o que lhe dizia respeito fosse feito com grandeza, até mesmo os

roubos de que era vítima.

Um dia, tratando-se de uma herança, e tendo sido espoliado por um procurador, de modo grosseiro e visível, soltou esta solene exclamação:

— Fora com ele, que foi porco! Tenho realmente vergonha de tais ladroeiras. Neste século tudo tem degenerado, até os tratantes. Com a fortuna! Não é assim que se deve roubar um homem como eu. Fui roubado como numa estrada, mas mal roubado. Silvae sint consulte dignae!

Tivera como dissemos, duas mulheres; a primeira dera-lhe uma filha que se conservara solteira, e a segunda uma outra que falecera aos trinta anos e que desposara, por amor ou por acaso, um soldado de fortuna, que servira nos exércitos da república e do império, que nha a cruz de Austerlitz e que fora promovido a coronel em Waterloo.

É a vergonha da minha família, dizia o velho burguês.

Tomava muito rapé e nha uma graça par cular no modo porque sacudia os bofes de renda, com as costas da mão. A sua crença em Deus era pouco ardente.

VII — Regra: Não receber ninguém senão à noite

Eis o retrato do senhor Lucas Espírito Gillenormand, a quem não havia caído o cabelo, que nha mais de grisalho do que de branco, e que ele trazia sempre penteado em forma de orelhas de cão. Mas, em suma, e apesar de tudo, venerável.

Gillenormand possuía do século dezoito a frivolidade, mas também a grandeza.

Em 1814, e nos primeiros anos da restauração, Gillenormand, então ainda moço, pois nha apenas setenta e quatro anos, morava no arrabalde de S. Germano, na rua Servandoni, ao pé da igreja de S. Sulpício. Para o Marais re rara-se depois que deixara o mundo, isto é, muito depois dos oitenta anos completos. Abandonado o mundo, emparedara-se nos seus hábitos e ninguém o rava deles. O principal, aquele em que era invariável, consis a em ter a porta herme camente fechada de dia e não falar a ninguém, fosse quem fosse, e para qualquer negócio que fosse, senão de tarde. Jantava às cinco horas e dessa hora por diante a sua porta estava aberta. Era a moda do seu século e não queria alterá-la. O dia, dizia ele, é um biltre, que não merece senão com a porta na cara. As pessoas de bem costumam acender o espírito, quando a noite acende as estrelas. E o velho entrincheirava-se para toda a gente, para o próprio rei em pessoa, se lá fosse.

Era a antiga elegância do seu tempo.

VIII — Nem sempre dois fazem um par Quanto às duas filhas de Gillenormand, de quem há pouco falámos, nham nascido com dez anos de intervalo. Na sua juventude haviam-se parecido muito pouco uma com a outra, e, tanto no carácter como no rosto, não pareciam de nenhum modo irmãs. A mais nova era um espírito gracioso, com aspirações a tudo o que era luz, dada a flores, a versos e a música, esvoaçando em amplidões fulgurantes, entusiasta, etérea, idealmente desposada desde a sua infância com uma vaga figura heróica. A mais velha nha também a sua quimera; via, por entre nuvens de ouro, um fornecedor, algum gordo e rico assen sta, um marido esplendidamente estúpido, um milhão feito homem ou algum prefeito.

As recepções da prefeitura, o porteiro agaloado, os bailes oficiais, os discursos do maire, «a senhora prefeita», todas estas coisas davam-lhe volta à cabeça.

Assim desvairavam as duas irmãs, cada qual arrebatada pelos seus sonhos, enquanto foram donzelas. Ambas tinham asas; uma, porém, tinha-as de anjo, outra de ganso.

Nenhuma ambição se realiza completamente, ao menos neste mundo. Nenhum paraíso, no tempo presente, se torna terrestre. A mais nova casara com o homem dos seus sonhos, mas morrera. A mais velha ficara solteira.

Na ocasião em que dela nos ocupamos nesta nossa história, era uma invencioneira recatada, uma vestal, um dos narizes mais afilados e um dos espíritos mais rombos que podia haver. Circunstância caracterís ca: fora do estreito círculo da família, ninguém lhe sabia o nome do bap smo. Todos a tratavam pela filha mais velha do senhor Gillenormand.

Em pontos de recato virginal, a filha mais velha do senhor Gillenormand dera invejas a uma Miss. Era o pudor personificado. Tinha na sua vida um sucesso espantoso que lhe deixara uma recordação de horror: uma ocasião, um homem viu-lhe a liga da perna.

Em vez de o fazer diminuir, a idade fez crescer o desmesurado pudor da donzela.

Nunca lhe parecia aconchegado de mais, nem de mais tapado, o lenço de cassa do pescoço. Era de ver como ela embrechava de colchetes e pregava alfinetes nos sí os para onde ninguém se lembraria de olhar. É qualidade inerente à mulher invencioneira tomar tantas mais precauções, quanto menos ameaçada anda a sua virtude.

Todavia, explique quem puder estes usuais mistérios da inocência, a filha de Gillenormand nem por sombras se esquivava aos abraços de um oficial de lanceiros, seu segundo sobrinho, chamado Teodulo.

Apesar dos favores que ela dispensava ao predilecto lanceiro, era-lhe apropriada a classificação de invencioneira que atrás lhe demos. A filha de Gillenormand era uma como alma crepuscular. A invencionice é meia virtude e meio vício.

Ao recato da invencioneira unia ela a bea ce, duas coisas que andam quase sempre juntas. Era irmã da confraria de Nossa Senhora, andava de véu branco em certos dias fes vos e, rezava em voz baixa orações especiais, reverenciava «o puríssimo sangue», venerava «o sagrado coração», punha-se em contemplação, durante horas seguidas, diante de um altar recoco-jesuíta, vedado ao resto dos fiéis, e aí deixava voejar livre a alma por entre nuvenzinhas de mármore e grandes raios de madeira dourada.

Tinha a donzela uma irmã em Jesus Cristo, virgem velha como ela, chamada Mademoiselle Vaubois, inteiramente estúpida, e comparada com a qual a filha de Gillenormand podia desvanecer-se de ser uma águia. Fora dos Agnus Dei e das Ave-Marias, Mademoiselle Vaubois não nha outros conhecimentos mais do que sobre diferentes processos de fazer doce. Perfeita no seu género, Mademoiselle Vaubois era o arminho da estupidez sem uma só pinta de inteligência.

Digamos a verdade, Mademoiselle Gillenormand ganhara mais do que perdera em envelhecer. É o que acontece a todas as naturezas passivas.

Nunca pra cava maldades, o que é uma bondade rela va, e, além disso, os anos, que desfazem as asperidões, trouxeram-lhe a mansidão própria deles. Ensombrava-se-lhe o

rosto de uma nuvem de tristeza obscura, cujo segredo nem ela própria conhecia.

Em toda ela havia o pasmo de uma vida que está no seu termo, sem nunca ter do princípio.

Habitava na mesma casa em que morava o pai e era quem superintendia no governo domés co. Gillenormand vivia com a filha na sua companhia, do mesmo modo que Monsenhor Bemvindo conservava na sua uma irmã, como vimos. Não são raros estes casais de um velho e de uma velha e na verdade têm sempre o tocante aspecto de dois entes fracos que mutuamente se amparam.

Além deles, havia em casa, entre este velho e essa velha, um rapazinho, que na presença de Gillenormand estava constantemente a tremer e sem ousar dizer uma palavra. Quando o velho lha dirigia era sempre em tom severo e às vezes de bengala no ar.

— Venha cá, seu tratante!

— Patife! Chegue-se aqui já ao pé de mim!

— Diga, seu pedaço de mafoto!

— Se o torno a ver! Seu brejeiro!, etc., etc.

Idolatrava-o. Era seu neto.

Mais adiante tornaremos a encontrar esta criança.