Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 211 de 359

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Os Miseráveis

XVII — Emprego da moeda de cinco francos de Mário

E continuou a cantarolar:

Corre à glória que te espera,

Que meu pobre coração

Nesta ausência desespera

De encontrar consolação!

Depois olhou mais uma vez para o espelho e saiu, tornando a fechar a porta.

Passado um momento, Mário ouviu os passos das duas raparigas que passavam descalças pelo corredor, e a voz de Jondrette que lhes gritava:

— Tomem bem sen do! Uma do lado da barreira, a outra à esquina da rua do Pe t-Banquier. Não percam um instante de vista a porta da casa, e à mais pequena coisa que vejam, é correr logo para aqui a galope! Já têm uma chave para poder entrar.

A filha resmungou:

— Estar de sentinela com os pés descalços em cima da neve!

— Deixa estar que amanhã hás-de ter sapatos de seda cor de escaravelho! — disse-lhe o pai.

As raparigas desceram a escada e, ao cabo de alguns segundos a porta da rua fechando-se, anunciou que já tinham saído.

Já não estavam em todo o casebre senão Mário e os Jondre e; e provavelmente os entes misteriosos que Mário lobrigara no crepúsculo, atrás da porta do cubículo desabitado.

XVII — Emprego da moeda de cinco francos de Mário Mário julgou ter chegado o momento de voltar para o seu observatório. Num abrir e fechar de olhos e com a ligeireza própria da sua idade, achou-se aplicando um olho no buraco do tabique.

O interior da habitação dos Jondre e oferecia um aspecto singular; Mário achou logo a explicação da estranha claridade que havia notado. Via-se ali uma vela acesa, me da num cas çal coberto de verdete, mas não era a vela que realmente iluminava o casarão.

O antro estava todo como que iluminado pela reverberação dum grande fogareiro de ferro colocado na chaminé, com um vivíssimo lume de carvão. Era o fogareiro que a Jondre e preparava pela manhã. O carvão ardia e o fogareiro estava quase rubro; destacava-se nele uma chama azulada e vacilante, que ajudava a dis nguir o fei o do formão comprado por Jondre e na rua de Pedro Lombardo, cujo ferro estava todo me do no braseiro. Viam-se a um canto, junto da porta, e como que dispostos para uso previsto, dois volumes, um dos quais parecia um montão de ferros, o outro um molho de cordas. Tudo isto fazia flutuar entre uma ideia demasiadamente sinistra, ou em extremo simples o espírito de quem não vesse a mínima ideia sobre o que ali se preparava. A pocilga assim iluminada mais se assemelhava a uma forja do que a uma boca do inferno; mas Jondrette, àquela claridade parecia muito mais um demónio do que um ferreiro.

O calor do braseiro era tal que derre a a vela, do lado voltado para ele. Sobre a chaminé estava uma lanterna de furta fogo, de cobre muito velha, digna de Diógenes transformado em Cartouche.

O fogareiro colocado ao pé das fornalhas, respirava pela chaminé, e não espalhara em torno de si o mais leve cheiro.

O luar, entrando pelos quatro vidros da janela, projectava a sua claridade esbranquiçada no casarão avermelhado e flamejante; e para o poé co espírito de Mário sonhador no próprio momento de acção, era como que um pensamento do céu aliado às disformes concepções da terra.

O ar que penetrava pelo vidro quebrado contribuía para dissipar o cheiro do carvão e para dissimular a presença do fogareiro.

O covil de Jondre e, se não esqueceram o que dissemos a respeito do pardieiro Gorbeau, era admiravelmente escolhido para servir de teatro a um facto violento e de um invólucro a um crime. Era o quarto mais re rado, da casa mais isolada, do boulevard mais deserto de Paris. Se as ciladas não existissem inventar-se-iam ali.

O casarão era separado do boulevard por toda a espessura do prédio e por grande

número de quartos desabitados, e a única janela que nele havia dava para terrenos incultos, fechadas com muros nuns pontos e noutros com tapumes.

Jondre e acendera o cachimbo e sentara-se, fumando, na cadeira sem assento. Sua mulher dizia-lhe o que quer que era em voz muito baixa.

Se Mário fosse Courfeyrac, isto é, um desses homens que riem em todas as ocasiões da vida, teria soltado uma gargalhada quando reparou na mulher de Jondre e. Tinha na cabeça um chapéu preto de plumas semelhante aos dos arautos que haviam figurado na sagração de Carlos X, nos ombros um grande xaile desusado, caindo sobre uma saia de malha, e nos pés os sapatos de homem desprezados pela filha. Fora uma tal toile e o que arrancara a Jondre e esta exclamação: Bom! Fizeste bem em te ves r. É preciso que inspires confiança!

Quanto a Jondre e não nha despido o sobretudo novo, se bem que demasiado largo, que o senhor Leblanc lhe havia dado, con nuando o seu vestuário a oferecer frisante contraste entre o sobretudo e as calças, contraste que aos olhos de Courfeyrac constituía o ideal do poeta.

De repente, Jondrette ergueu a voz:

— É verdade, agora me lembro. Com este tempo vem decerto de carruagem. Acende a lanterna, desce com ela lá para baixo e põe-te atrás da porta da rua Quando sen res a carruagem parar, abri-la-ás imediatamente, subirás adiante alumiando a escada e o corredor, e enquanto ela aqui entrar tornarás a descer depressa, pagarás ao cocheiro e mandarás embora a carruagem.

— E dinheiro? — perguntou a mulher.

Jondrette meteu a mão no bolso e deu-lhe cinco francos.

— Mas o que é isto? — exclamou ela.

Jondrette respondeu com dignidade:

— É o monarca que o vizinho deu esta manhã.

E acrescentou:

— Não sabes? Precisamos de duas cadeiras.

— Para quê?

— Para haver assentos.

Mário sentiu-se estremecer ouvindo Jondrette dar pacificamente esta resposta.

— Lá por isso... Eu te vou buscar a cadeira do vizinho.

E com um movimento rápido abriu a porta do casarão e saiu para o corredor.

Mário não nha materialmente tempo de descer da cómoda e de correr a esconder-se debaixo da cama.

— Leva a luz! — gritou Jondrette.

— Não — disse ela — é muita coisa junta, tenho de trazer também as cadeiras. E

demais faz luar que parece dia.

Mário sen u a pesada mão de Jondre e procurando às apalpadelas a chave da sua porta, no meio da escuridão. A porta abriu-se, Mário ficou como pregado no lugar em que estava, pela força da surpresa e pasmo.

A mulher entrou.

A janela ou pos go do quarto de Mário deixava passar uma rés a de luar entre dois grandes laços de sombra, um dos quais cobria tão completamente a parede a que ele estava encostado, que era impossível distingui-lo.

A mulher de Jondre e circunvagou a vista sem descobrir Mário, pegou nas duas únicas cadeiras que havia no quarto e saiu, deixando fechar a porta com estrondo.

— Aqui estão as duas cadeiras — disse ela para o marido, apenas entrou na mansarda.

— E aí está também a lanterna — disse o marido. — Vai para baixo quanto antes.

A mulher obedeceu imediatamente e Jondrette ficou só.

No mesmo instante colocou as cadeiras aos dois lados da mesa, voltou o formão dentro do braseiro, pôs na frente da chaminé um velho biombo que ocultava o fogareiro, dirigiu-se depois para o canto onde estava o molho de cordas e baixou—se como para examinar qualquer coisa.

Mário reconheceu então que o que julgava ser um molho de cordas era uma escada muito bem feita, com degraus de madeira e dois grandes ganchos numa das extremidades para a segurar.

Aquela escada e algumas pesadas ferramentas, tão descomunalmente grandes, que mais pareciam massas de ferro que se achavam amontoados atrás da porta, não estavam pela manhã no covil de Jondre e; era portanto evidente que nham sido para ali levados de tarde, durante a ausência de Mário.

«São ferramentas de ferreiro», pensou Mário.

Se Mário fosse um pouco entendido naquela matéria, teria reconhecido, no que tomava por ferramentas de ferreiro, certos instrumentos próprios para forçar uma fechadura ou uma porta, e outros para cortar ou talhar; duas sinistras famílias de utensílios a que os ladrões chamavam brocas e segadeiras.

A chaminé e a mesa com as duas cadeiras estavam exactamente na frente de Mário.

Ocultado como estava o fogareiro, não era o casarão alumiado senão pela luz da vela, e o menor volume sobre a mesa ou sobre a chaminé, projectava uma grande sombra.

Metade duma parede ficava quase oculta por um pote de água sem boca. Havia naquele recinto uma espécie de sossego medonho e ameaçador. Sen a-se ali a expecta va de alguma coisa espantosa.

Jondre e deixara apagar o cachimbo grave sinal de preocupação e sentara-se. A claridade da vela tornava-lhe salientes os ângulos ferozes e acentuados do rosto. De vez em quando enrugava as sobrancelhas e estendia a mão direita, como se respondesse aos úl mos conselhos do sombrio monólogo interior. Nestas sombrias réplicas que dava a si mesmo, puxou vivamente para si a gaveta da mesa e rou dela uma comprida faca de cozinha, que ali estava oculta e cujo gume experimentou numa unha Feito isto, tornou a guardar a faca e fechou novamente a gaveta.

Mário, pela sua parte, levou a mão à pistola que nha no bolso direito, puxou por ela e armou-a.