Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 218 de 359

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Os Miseráveis

II — Mal cozido

Os Bourbons levaram consigo o respeito, mas não a saudade. Como acabamos de dizer, a sua desgraça foi maior do que eles. Os Bourbons desapareceram no horizonte.

A revolução de Julho teve imediatamente amigos e inimigos em todo o mundo. Uns precipitaram-se para ela com entusiasmo e alegria, outros afastaram-se, segundo a sua natureza. Os príncipes da Europa, no primeiro momento, mochos daquela alvorada, fecharam os olhos, escandalizados e estupefactos, e só os tornaram a abrir para ameaçar. Susto que se compreende, cólera que se desculpa. Aquela estranha revolução fora apenas um repelão, nem mesmo dera à realeza vencida a honra de a tratar como

inimiga e de lhe derramar o sangue. A revolução de Julho, aos olhos dos governos despó cos, sempre interessados em que aliberdade se calunie por si mesma, cometera o erro de ser formidável e de permanecer suave. No fim de tudo, coisa alguma foi tentada ou maquinada contra ela. Os mais descontentes, os mais irritados, os mais receosos saudaram-na; quaisquer que sejam os nossos egoísmos e rancores, sempre, nos acontecimentos em que se sente a colaboração de alguém que trabalha mais alto do que o homem, sobressai misterioso respeito.

A revolução de Julho é o triunfo do direito derrubando o facto. Coisa cheia de esplendor.

O direito derrubando o facto. Daqui o brilho da revolução de 1830, daqui também a sua mansidão. O direito que triunfa não tem a mínima necessidade de ser violento.

O direito é o justo e o verdadeiro.

O caracterís co do direito é ser ele eternamente belo e puro. O facto, mesmo o mais necessário, na aparência, mesmo o mais bem aceite pelos contemporâneos, só existe como facto, se contém pouco direito, ou absolutamente nenhum, é des nado infalivelmente a tomar-se, com o correr dos tempos, disforme, imundo, talvez mesmo monstruoso. Querendo-se comprovar por uma vez a que ponto de fealdade pode chegar o facto, visto à distância dos séculos, olhe-se para Maquiavel. Maquiavel não é um mau génio, nem um demónio, nem um escritor cobarde e miserável; não é mais do que o facto. E não é só o facto italiano, é o facto europeu, o facto do século XVI.

Parece hediondo, e é-o, com efeito, na presença da ideia moral do século XIX.

Esta luta do direito e do facto existe desde a origem das sociedades. Terminar o duelo, amalgamar a ideia com a realidade humana, fazer penetrar pacificamente o direito no facto e o facto no direito tal é o trabalho dos sábios.

II — Mal cozido

Mas um é o trabalho dos sábios, outro é o trabalho dos hábeis. A revolução de 1830

tinha parado muito depressa.

Apenas uma revolução dá à costa lançam-se os hábeis aos despojos do naufrágio.

Os hábeis, no nosso século, agraciaram-se a si mesmos com a qualificação de homens de estado; de tal modo, que as palavras homem de estado, acabaram por se tornar um tanto frases de gíria. Não esqueça isto; onde não há senão habilidade, há necessariamente pequenez Dizer: os hábeis, corresponde a dizer; os medíocres.

Do mesmo modo que dizer: os homens de estado equivale, algumas vezes, a dizer: os traidores.

A acreditarem-se, pois, os hábeis, as revoluções como a de Julho, são artérias cortadas; necessitam ser prontamente laqueadas. O direito muito altamente proclamado, abala. E também, uma vez consolidado o direito, é necessário consolidar o estado. Assegurada a liberdade, é preciso pensar no poder.

Aqui ainda os sábios se não separaram dos hábeis, mas começam a desconfiar deles.

O poder; pois seja. Mas em primeiro lugar, o que é o poder? Depois, donde procede ele?

Os hábeis mostram não perceber a objecção murmurada e con nuam na sua manobra.

Segundo estes polí cos, engenhosos em pôr nas ficções proveitosas uma máscara de necessidade; a primeira necessidade de um povo, após uma revolução, quando esse povo faz parte de um con nente monárquico, é procurar uma dinas a. Deste modo, dizem eles, pode ter a paz depois da revolução, isto é, o tempo de curar as feridas e de reparar a sua casa. A dinastia oculta os preparativos e cobre a ambulância.

Ora, nem sempre é coisa fácil achar uma dinastia.

Em rigor o primeiro homem de génio, ou mesmo o primeiro homem de fortuna que apareça, é suficiente para se fazer um rei. No primeiro caso tendes Bonaparte, no segundo Iturbida.

Mas para formar a dinas a não serve a primeira família que se encontre. Uma raça tem necessariamente certa porção de antiguidades; a ruga dos séculos não se improvisa.

Segundo o modo de ver dos «homens de estado» guardadas todas as reservas, bem entendido, quais são após uma revolução as qualidades do rei que sai dela? Pode ser, e é ú l que seja revolucionário, isto é, par cipante pessoalmente dessa revolução, que lhe tenha posto a mão, que nela se tenha arriscado ou ilustrado, que nela tenha empunhado o machado ou manejado a espada.

Quais são as qualidades duma dinas a? Deve ser nacional, isto é, revolucionária a distância, não por actos come dos, mas por ideias aceites. Deve compor-se de passado e ser histórica, compor-se do futuro e ser simpática.

Tudo isto explica como as primeiras revoluções se contentam com achar um homem.

Cromwell ou Napoleão; e como as segundas querem absolutamente achar uma família, a casa de Brunswich ou a casa de Orleãs.

As casas reais assemelham-se às figueiras da Índia, das quais cada ramo, curvando-se até ao solo, aí cria raízes e se torna nova figueira. Cada ramo pode tornar-se numa dinastia. A única condição é curvar-se até ao povo.

Tal é a teoria dos hábeis.

Eis, pois, a grande arte; dar ao bom êxito tal ou qual som de catástrofe, a fim de que aqueles mesmos que dele ram proveito, tremam também, adubar com medo o passo que se deu, aumentar a curva da transição até ao afrouxamento do progresso, tornar insípida a obra, denunciar e destruir as asperezas do entusiasmo, cortar os ângulos e as unhas, enchumaçar o triunfo, abafar com muita roupa o direito, envolver o gigante povo em flanela e deitá-lo bem cedo, impor dieta a tal excesso de saúde, sujeitar Hércules ao tratamento de convalescença, dissolver o acontecimento no expediente, oferecer aos espíritos sequiosos de ideal este néctar ampliado com sana, tomar precauções contra o denominado sucesso e guarnecer a revolução com um «abat-jour».

1830 praticou esta teoria, já aplicada à Inglaterra por 1688.