Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 229 de 359

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Os Miseráveis

III — «Foliis ac frondibus»

convento do Pe t-Picpus, espécie de nuvem impenetrável e sagrada, de dentro da qual, Jean Valjean saíra venerando aos olhos da administração do seu bairro, e, por conseguinte, digno de fazer parte da sua guarda.

Em virtude disto, pois, via-se Jean Valjean, três ou quatro vezes no ano, na necessidade de envergar o seu uniforme e fazer o seu quarto de guarda. Tal circunstância, porém, longe de o contrariar, aprazia-lhe, porque era um disfarce oficial que o punha em contacto com todos, deixando-o ao mesmo tempo solitário. Por isso, apesar de já ter completado a idade legal da isenção, que eram os sessenta anos, não tratava de se livrar do serviço, já porque não inculcava mais de cinquenta, já porque não estava para apresentar ao conde de Lobau cer dões e documentos, com que teria de fundamentar o seu pedido de baixa. Não nha estado civil, ocultava a sua iden dade, o seu verdadeiro nome, a idade, tudo, enfim; e, além disto, como ainda agora acabamos de dizer, aprazia-lhe ser guarda nacional. A sua única ambição era parecer-se com todo e qualquer cidadão que pagasse as suas contribuições. Era um homem que nha dois ideais anjo na virtude e burguês no cumprimento dos seus deveres de cidadão.

Uma circunstância, porém, devemos ainda notar. Quando Jean Valjean saía com Cose e, ves a-se de modo que lhe dava a aparência de um oficial reformado. Quando saía só, o que, de ordinário, só fazia à noite, levava sempre ves da uma blusa, umas calças de operário e um boné derrubado sobre os olhos. Seria por precaução ou humildade? Por ambas as coisas. Cose e, habituada ao lado enigmá co do seu des no, mal dava pelas singularidades de seu pai. Quanto a Toussaint, a pobre mulher venerava-o e tudo o que ele fazia achava bem feito. Um dia, o cortador do talho onde ela ia a carne, disse-lhe, tendo lobrigado Jean Valjean:

— O seu amo é muito ratão!

— Um santo é o que ele é! — respondeu a boa mulher.

Nem Jean Valjean, nem Cose e, nem Toussaint, saíam ou entravam por outra porta que não fosse a que deitava para a rua de Babilónia. A não se dar o caso de serem avistados por entre as grades do jardim, di cil seria adivinhar que eles moravam na rua Plumet. A grade estava sempre fechada e o jardim deixara-o Jean Valjean inculto e presa das ervas para não atrair a atenção.

Nisto enganava-se talvez

III — «Foliis ac frondibus»

Assim, há mais de meio século, abandonado e descuidado, o jardim, em vez de defecar, fora-se tornando extraordinariamente belo. De modo que, quem há quarenta anos por ali passava, parava a contemplá-lo do meio da rua, mal imaginando os mistérios que por trás daquelas suas viçosas e floridas moitas se abrigavam. Não poucos abstractos sonhadores desse tempo, enlevados na formosura daquele recinto, penetraram com vistas e pensamentos indiscretos as grades do vetusto e enferrujado portão, mal seguro nas ombreiras, cobertas de musgo e coroado por um frontão de indecifráveis arabescos.

Por entre as grades via-se um banco de pedra a um canto, uma ou duas estátuas enegrecidas pelo tempo e alguns fragmentos soltos do gradeado de madeira, que

recobrira a parede. Quanto ao mais, nem ruas nem murta; jazia tudo coberto de ervas daninhas, caso pasmoso para um mesquinho pedaço de terra Fora-se a arte e viera a natureza Os goivos, mormente, como que se pavoneavam num fes m esplêndido. Não havia naquele jardim um só obstáculo que contrariasse o sagrado esforço das coisas para a vida; era um crescer desassombrado para cada planta, tendo por norte o ins nto As árvores abateram-se a enlaçar os seus ramos com os estrepes dos cardos; os cardos treparam a emaranhar-se nas árvores; marinhara o arbusto, curvara-se a árvore; o que rastejava pelo chão fora abraçar o que se exalçava no ar e o que flutuava ao vento pendera-se para o que jazia entrelaçado entre o musgo; troncos, ramos, folhas, fibras, moitas, elos, sarmentos, espinhos, misturara-se, entrelaçara-se, casara-se, confundira-se tudo; celebrara-se e consumara-se naquele recinto de trezentos pés quadrados, com aprazimento e sob as vistas do Criador, o sagrado mistério da fraternidade vegetal, símbolo da fraternidade humana, num estreito e duradouro amplexo. Aquele jardim já não era um jardim; era um silvado colossal, quer dizer, uma coisa impenetrável como uma floresta, populosa como uma cidade, trémula como um ninho, sombria como uma catedral, olorosa como um ramo, solitária como uma campa, animada como uma multidão

Na Primavera, aquele enorme balseiro, livre entre as quatro paredes do seu recinto, principiava em anseios de cio, obedecendo à oculta influência da germinação universal, começava de estremecer ao Sol nascente, quase como o animal que aspira os eflúvios do amor cósmico e sente infiltrar-se-lhe e ferver-lhe nas veias a seiva de Abril; principiava de estremecer, dizíamos, e de semear, sacudindo ao vento a sua maravilhosa coma de verdura, pela terra húmida, sobre as estátuas desgastadas, sobre os degraus do arruinado pá o e até sobre as lajes da solitária rua, as flores em guisa de estrelas, o orvalho à maneira de pérolas, a fecundidade, a beleza, a vida, a alegria, os perfumes. A hora do meio-dia, quando mil brancas borboletas invadiam de roldão o abandonado vergel, era um espectáculo divinamente belo a vista daquela neve animada do Es o, redemoinhando em flocos à sombra que procuravam refugidas. Então aquilo que os gorjeios de tantas vozes inocentes, que de entre as ridentes trevas daquela verdura se de nham em suave prá ca com a alma, esqueciam dizei, completava-o o zunido de tantas asas. Ao declinar do dia, elevava-se do jardim um vapor de pensamentos melancólicos, como que uma mortalha de neblina, uma tristeza de celeste serenidade, que o envolvia e cobria todo; derramava-se pelo ar como veneno delicado e sub l, que todos os pontos se exalava o olor embriagante das madressilvas e das trepadeiras; ouviam-se os úl mos guinchos das fuinhas e das arvéloas, acoitando-se entre a espessidão da ramagem; sen a-se essa in midade sagrada da ave com a árvore, in midade nascida de que as asas de dia recreiam as folhas e à noite as folhas abrigam as asas.

Apenas sobrevinha o Inverno, tornava-se outro o verdejante silvado. Fazia-se negro, enchia-se de água e despedia o seu manto de verdura, eriçando-se de espinhos e deixando a casa então quase a descoberto. Em vez de flores nos ramos e orvalho nas flores, viam-se apenas os compridos fios prateados da baba dos caracóis sobre o espesso

e frígido tapete das folhas amarelas. De qualquer maneira, porém, sob qualquer aspecto, em qualquer estação, na Primavera, como no Inverno, no Verão, como no Outono, aquele ermo recinto respirava a melancolia, a contemplação, a solidão, a liberdade, a ausência do homem, a presença de Deus; e a vetusta e enferrujada grade parecia estar dizendo: «Este jardim pertence-me.

Embora em circuito se estendesse um sem-número de ruas; embora a dois passos dali se elevassem os clássicos e esplêndidos palacetes da rua de Varenne, o zimbório dos Inválidos, o palácio das cortes; embora pelas vizinhanças ruidosamente rodassem os faustosos trens da rua de Borgonha e da rua de S. Domingos, embora na próxima encruzilhada se cruzassem tumultuosos os ónibus amarelos, verdes, brancos e vermelhos, a rua Plumet era sempre um deserto; e bastara a morte dos an gos proprietários, a passagem de uma revolução, a ruína de sólidas fortunas, a ausência, o olvido, quarenta anos de desamparo e viuvez, para fazer voltar àquele privilegiado local os feitos, o verbasco branco, a cicuta, as silvas, as grandes plantas de folhas espalmadas e cor desmaiadas, os lagartos, os escaravelhos, toda a qualidade de inquietos e assustadiços insectos, para fazer brotar das entranhas da terra e reaparecer entre aquelas quatro paredes certa grandeza selvagem e feroz; e para que a natureza, finalmente, que desconcerta as mesquinhas disposições do homem e é sempre perfeita nas suas obras, ou seja na formiga ou na águia, viesse expandir-se num pobre e acanhado jardim parisiense, com tanta rudeza e majestade como numa floresta virgem do Novo Mundo. Na natureza, com efeito, nada há pequeno. Sabem-no todos os que são suscep veis da penetração profunda das suas maravilhas. Embora a filosofia nunca plenamente se sa sfaça, quer no circunscrever das coisas, quer no limitar dos efeitos, a vista de todas estas decomposições de forças com a unidade por alvo, abisma a alma do homem contempla vo em êxtases sem fundo. É um trabalho universal para uma universal junção.