Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 214 de 359

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Os Miseráveis

XX — A cilada

Molhar o papel, não deixar a mais pequena mancha, conservar o grude quente; enfim,

como já lhe disse, o diabo! E quatro soldos por dia! Como quer o senhor que se viva assim?

Jondre e enquanto falava não olhava para o senhor Leblanc, que não deixava de o observar. Os olhos do senhor Leblanc estavam fitos em Jondre e, e os deste na porta. A atenção palpitante de Mário, caminhava sem cessar de um para o outro. O senhor Leblanc parecia perguntar a si mesmo: Será um idiota?

Jondre e repe u duas ou três vezes, com toda a espécie de variadas inflexões, no género arrastado e suplicante:

— Só me resta lançar-me ao rio! Já um destes dias desci três degraus para o fazer, lá para o lado da ponte de Austerlitz!

De repente, as suas pupilas iluminaram-se com hediondo relampaguear, o homem de pequena estatura endireitou-se e tornou-se medonho, deu um passo para o senhor Leblanc e disse-lhe com voz estrondosa.

— Mas não é de nada disto que se trata! Não me conhece?

XX — A cilada

A porta da mansarda acabava de se abrir violentamente, deixando ver três homens de blusas de zuarte e com os rostos ocultos por máscaras de papel preto.

O primeiro era magro e nha na mão um comprido cacete emponteirado; o segundo, espécie de colosso, segurava pelo meio um cabo de uma grande choupa de abater os bois. O terceiro, homem de largos ombros, menos magro que o primeiro, menos maciço que o segundo, empunhava uma enorme chave, roubada decerto da porta de alguma prisão.

Parecia que era a chegada destes homens o que Jondre e esperava. No mesmo instante travou-se entre este e o homem magro do cacete, rápido diálogo:

— Está tudo pronto? — perguntou Jondrette.

— Tudo — respondeu o homem magro.

— Onde está Montparnasse?

— Ficou a falar com tua filha.

— Qual delas?

— A mais velha.

— Está lá em baixo algum carro?

— Está.

— Capoeira aparelhada?

— Sim.

— Com bons cavalos?

— Excelentes.

— Espera onde eu disse que esperasse?

— Sim

— Bem — tornou Jondrette.

O senhor Leblanc estava demasiadamente pálido. Olhava para todo o covil, em torno de si, como quem compreende onde se acha; e a sua cabeça, sucessivamente voltada para todas as cabeças que o rodeavam, movia-se-lhe sobre o pescoço com um vagar

atento e admirado, mas sem que se lhe notasse em todo o aspecto coisa alguma que se assemelhasse a medo. Fizera da mesa uma trincheira improvisada; e aquele homem, que momentos antes não parecia mais do que um bom velho, tornara-se de súbito uma espécie de atleta, apoiando a robusta mão nas costas da cadeira, com um gesto temível e surpreendente.

Aquele velho, tão firme e com tanta bravura diante de tão grande perigo, parecia ter uma natureza das que são corajosas pelo mesmo modo que são bondosas, natural e simplesmente. O pai de uma mulher a quem se ama, não pode ser nunca por nós um estranho. Mário sentiu-se altivo pelo aspecto do desconhecido

Três dos homens que Jondre e dissera serem fogueiros, nham rado do grande montão de ferros uma grande tesoura de cortar metal, outro, uma tenaz e o terceiro um martelo, e haviam-se colocado à entrada da porta, sem pronunciarem uma só palavra. O

velho deixara-se ficar sobre a cama e limitara-se unicamente a abrir bem os olhos. A mulher de Jondrette sentara-se ao lado dele.

Mário julgou que dentro de alguns segundos chegaria o momento de intervir, e levantou a mão direita para o tecto na direcção do corredor, pronto a disparar o tiro.

Jondre e, terminado o seu colóquio com o homem do cacete, voltou-se novamente para o senhor Leblanc e repe u a pergunta, acompanhando-a com um riso baixo, comprimido e terrível:

— Então não me conhece?

O senhor Leblanc respondeu, encarando-o:

— Não.

Jondre e dirigiu-se então para a mesa. Curvou-se por sobre a luz, cruzando os braços, aproximando o queixo anguloso e feroz do rosto sereno do senhor Leblanc, avançando o mais que podia, sem que este recuasse, e nesta posição de animal bravio pronto a morder, exclamou.

— Não me chamo Fabantou nem Jondre e, o meu nome é Thenardier. Sou o estalajadeiro de Mon ermeil! Percebeu bem? Chamo-me Thenardier! Conhece-me agora?

Impercep vel rubor passou em seguida pela fronte do senhor Leblanc, o qual respondeu, sem que a voz lhe tremesse, sem que a elevasse e com a sua ordinária placidez:

— Tanto como há bocado.

Mário não ouvira esta resposta. Quem o pudesse observar naquele momento no meio da escuridão, vê-lo-ia desorientado, estúpido e fulminado. Quando Jondre e dissera: Chamo-me Thenardier, sen ra Mário violento estremecimento e encostara-se à parede, como se sen sse o frio da folha de uma espada atravessando-lhe o coração. Depois, o braço direito, próximo a desfechar o ro de sinal, baixara-se vagarosamente, e no momento em que Jondre e repe ra: Percebe bem? Chamo-me Thenardier!, es veram os dedos desfalecidos a ponto de largar a pistola. Jondre e declarando quem era, não abalara o senhor Leblanc, mas transformara Mário.

Aquele nome de Thenardier que o senhor Leblanc mostrava não conhecer, era muito

conhecido de Mário. Lembremo-nos o que um tal nome era para ele: Aquele nome, trouxera-o sobre o coração escrito no testamento de seu pai! Trazia-o no âmago do pensamento, no âmago da memória, nesta recomendação sagrada: «Foi um tal Thenardier quem me salvou a vida. Se meu filho o encontrar, far-lhe-á todo o bem que puder». Este nome, devem lembrar-se, era uma das religiões da sua alma; no seu culto aliava-se sempre o nome de seu pai. O quê! Pois estava ali aquele Thenardier, aquele estalajadeiro de Mon ermeil, que ele nha por tanto tempo e tão inu lmente procurado! Achava-o enfim; mas como! O salvador de seu pai era um bandido! O homem a quem Mário morria por se dedicar, era um monstro! O libertador do coronel Pontmercy preparava-se para cometer um atentado de que Mário não via ainda dis ntamente a forma, mas que se assemelhava a um assassínio! E contra quem, grande Deus! Que fatalidade! Que amargo sarcasmo da sorte! Seu pai ordenara-lhe do fundo do túmulo que fizesse todo o bem possível a Thenardier; havia quatro anos que não nha outra ideia que não fosse salvar a dívida paterna e no momento em que devia avisar a jus ça para se apoderar dum celerado em acção de cometer um crime, gritava-lhe o des no: É Thenardier! A vida de seu pai salva de um granizo de metralha no campo heróico de Waterloo, ia enfim pagá-la àquele homem e pagar-lha com o pa bulo!

Prometera a si mesmo, se alguma vez se lhe deparasse aquele Thenardier, de não se aproximar senão lançando-se-lhe aos pés; achara-o, com efeito, mas para o entregar ao carrasco! «Socorre Thenardier!», bradava-lhe o pai; e ele respondia a esta voz adorada, esmagando; dando por espectáculo a seu pai no túmulo, o homem que arrancara a morte com risco da própria vida, executado na praça de S. Jacques, por intervenção de seu filho, do mesmo Mário a quem ele o legara! E que irrisão não era, trazer por tanto tempo sobre o coração as úl mas vontades de seu pai, escritas pela sua mão, para fazer tão indignamente o contrário! Mas por outro lado, assis r a uma tal cilada e não o impedir! O quê! Condenar a ví ma e poupar o assassino! Podia acaso haver lembrança de reconhecimento para com semelhante miserável? As ideias que preocupavam Mário, havia quatro anos, achavam-se todas como que atravessadas de lado a lado por aquele inesperado golpe. Sen a-se estremecer. Era de si que tudo dependia. Sem que eles o suspeitassem, nha na sua mão todos os entes que se lhe agitavam diante dos olhos. Se disparasse a pistola estava o senhor Leblanc salvo e Thenardier perdido; se não disparasse seria o senhor Leblanc sacrificado, e, quem sabe?, Thenardier salvo! Precipitar um ou deixar despenhar-se o outro: remorsos de ambos os lados! O que deveria fazer?

Qual dos lados escolheria? Faltar às mais imperiosas recordações, a tantas promessas feitas a si mesmo, ao dever mais sagrado, ao mais venerando dos textos! Faltar às prescrições testamentárias de seu pai, ou deixar consumar um crime! Parecia-lhe ouvir de um lado, a «sua Úrsula» suplicar-lhe por seu pai; do outro o coronel recomendando-lhe Thenardier. Parecia-lhe que perdia a razão. Os joelhos dobravam-se-lhe; nem mesmo nha tempo para se decidir, tal era a fúria com que se precipitava a cena que estava presenciando. Era como um turbilhão de que se julgara senhor e que o arrebatava.

Esteve a ponto de desfalecer.

Entretanto, Thenardier, por cujo nome o denominaremos daqui em diante, girava de

um para o outro lado, na frente da mesa, numa espécie de desvairamento e de frené co triunfo. Pegou no cas çal e pô-lo sobre a chaminé com tal força, que a vela quase se apagou, salpicando a parede de sebo derretido.

Depois voltou-se com gesto iracundo para o senhor Leblanc e soltou esta imprecação:

— Hás-de ser feito em postas, retalhado e espatifado, velho miserável!

E continuou a andar de um para outro lado, em estado de plena explosão.

— Até que enfim o encontrei, senhor filantropo! — exclamou ele. — Senhor milionário com fato de mendigo, que faz presentes de bonecas. Ah, não me conhece, velho tonto! Não esteve em Mon ermeil, na minha estalagem, há oito anos, na noite de Natal de 1823? Não foi o senhor que me levou de casa a filha de Fan ne, a Cotovia? Não era o senhor que nha um casaco amarelo e uma trouxa de farrapos na mão, como esta manhã quando entrou aqui? Dize se é assim ou não, mulher! Parece que tem a mania de levar a todas as casas trouxas de meias de lã, o velho caridoso! Será fanqueiro, senhor milionário?! Dá então aos pobres os géneros do seu comércio, o santo homem! Com que então não me conhece? Pois eu conheço-o muito bem! Reconheci-o logo que aqui meteu o nariz . Agora é que se vai ver que nem tudo são rosas! Não é mais do que entrar nas casas da gente, sob pretexto de que são estalagens, com fato de meter dó, com tal ar de mendigo que qualquer lhe daria esmola, enganar as pessoas, fazer de generoso, rar-lhes o seu ganha-pão, fazer ameaças nas matas e querer ficar quite, por nos trazer depois, quando a gente está na penúria, um casacão muito largo e dois reles cobertores do hospital! Velho tratante! Ladrão de crianças!

Thenardier calou-se e pareceu por um momento falar consigo mesmo. Dir-se-ia que o seu furor caíra, como o Ródano, em alguma caverna; depois, como se terminasse em voz alta o que acabara de dizer só para si, deu um murro na mesa e exclamou:

— Com este ar de bonacheirão!

E continuou apostrofando o senhor Leblanc:

— Na verdade! Da outra vez riu-se à minha custa!

O senhor é a causa de todas as minhas desgraças! Por mil e quinhentos francos ficou com uma rapariga que eu nha em meu poder e que pertencia, é certo, a gente rica; rapariga que me nha produzido muito dinheiro e que me havia de produzir com que viver toda a vida! Uma rapariga que me havia de indemnizar de tudo o que perdi naquela abominável baiuca, onde se faziam mo ns esterlinos, e onde eu comi como um imbecil tudo quanto nha! A minha vontade era que todo o vinho que se bebeu em minha casa se transformasse em veneno para aqueles que o beberam! Enfim, o que lá vai, lá vai! Mas diga-me cá: o senhor havia de achar-me muito ridículo, quando se safou com a Cotovia! Tinha deixado o cajado escondido na mata. Era portanto o mais forte no jogo. Agora quero a desforra. Hoje tenho eu os trunfos! Desta vez está fisgado! Sou eu que ri, e rio-me deveras! Como ele caiu na rede! Tinha-lhe dito que era actor, que me chamava Fabantou, que representara com Mademoiselle Mars, com Mademoiselle Muche, que o meu senhorio queria ser pago amanhã, 4 de Fevereiro, e nem se lembrou que é a 8 de Janeiro que acabam os arrendamentos e não a 4 de Fevereiro! Absurdo cre no! E traz-me então estes quatro Filipes de má monte! Canalha! Nem teve alma de

chegar aos cem francos! E como ele engolia as minhas patranhas! Era uma coisa que me diver a! Mas então dizia eu para comigo: Filei-te, meu seresma! De manhã lambi-te as patas! À noite hei-de roer-te o coração!

Thenardier calou-se. Estava esbaforido. Sen a-se-lhe roncar o acanhado peito como um fole de ferreiro. Nos olhos lia-se-lhe o ignóbil prazer duma criatura fraca, cruel e cobarde, que consegue enfim aniquilar quem temeu e insultar quem lisonjeou; a alegria dum anão que pusesse o pé sobre a cabeça de Golias; a alegria do chacal que começa a devorar um touro enfermo, assaz morto para não poder já defender-se, assaz vivo para sofrer ainda.

O senhor Leblanc não o tinha interrompido, mas disse-lhe apenas ele se calou:

— Não percebo o que quer dizer. O senhor está decerto enganado. Eu não sou milionário, sou um homem pobre e não o conheço, ao senhor que infalivelmente me toma por outro.

— Que boa tábua de salvação! — disse Thenardier com uma voz que parecia entrecortada pelo estertor. — Não quer deixar o gracejo! Está mesmo pa nhado! Não vê quem eu sou!

— Perdão — respondeu o senhor Leblanc, num tom de civilidade, que em semelhante momento nha o que quer que era de estranho e poderoso — o que vejo é que o senhor é um ladrão!

Quem há que o não tenha notado? Os entes odiosos são suscep veis, os monstros são melindrosos.

A este nome de ladrão, a mulher de Thenardier saltou abaixo da cama e o marido pegou na cadeira, como se a quisesse esmigalhar entre as mãos.

— Não te mexas daí! — gritou ele para a mulher; e em seguida voltou-se para o senhor Leblanc: Ladrão! Sim, bem sei que é como nos chamam vocês, os ricos! Vejam lá!

É verdade que fali e agora escondo-me, não tenho pão nem dinheiro, sou um ladrão!

Sou ladrão e não como há três dias! Os senhores têm os pés quentes, porque possuem chinelos de Sakaski, casacos enchumaçados, como os arcebispos, moram nos primeiros andares de casas com porteiros, comem trufas e espargos a quarenta francos o molho, no mês de Janeiro, e magníficas ervilhas; gabam-se de tudo isto, e quando querem saber se faz frio, vêem no periódico até onde desceu o termómetro do engenheiro Chevalier.

Nós! Nós é que somos os termómetros! Nós não precisamos ir ao cais para ver na esquina da torre do Relógio quantos são os graus de frio, sen mos o sangue coalhar-se-nos nas veias, gelar-se-nos o coração, e dizemos então que não há Deus! E no fim vêm às nossas cavernas para nos chamarem ladrões! Mas calem-se, que os havemos de comer!

Devorá-los-emos, pobres pequenos! Repare no que lhe vou dizer, senhor milionário: eu já fui um homem estabelecido, ve carta patente e fui eleitor; sou um burguês e o senhor talvez o não seja! Chegando a este ponto, Thenardier deu um passo para os homens que estavam ao pé da porta e acrescentou com um estremecimento:

— Quando me lembro que teve a lembrança de me vir falar, como se eu fosse um remendão!

Depois dirigiu-se novamente ao senhor Leblanc, com recrudescência de frenesi:

— E saiba ainda mais senhor filantropo! Olhe que não sou nenhum vesgo, eu! Não sou homem de quem se não saiba o nome e que ande roubando crianças pelas casas alheias! Sou um ex-soldado francês, que deveria ter sido condecorado! Es ve em Waterloo, salvei na batalha um general chamado conde de Pontmercy! Sabe o que representa esse quadro que aí está vendo e que foi pintado por David em Bruqueselles?

Representa este seu criado. Foi um feito de armas que David quis imortalizar.

Representa-me com o general Pontmercy às costas, levando-o através da metralha. Aqui tem a história! E olhe que o tal general nunca fez coisa alguma em meu favor; valia tanto como os outros, mas nem por isso deixei de lhe salvar a vida arriscando a minha, do que tenho um bolso cheio de atestados! Sou um soldado de Waterloo, com trezentos milhões de diabos! E agora que já ve a bondade de lhe dizer tudo isto, acabemos aqui; preciso de dinheiro, muito dinheiro, e ou o senhor mo põe para aqui, ou lhe dou cabo da pele, com trezentos mil raios!

Mário nha dominado um pouco a sua agitação e escutava. A úl ma possibilidade de dúvida acabava de se desvanecer. Era com efeito o Thenardier de que falava o testamento! Mário estremeceu ouvindo acusar seu pai de ingra dão, acusação que ele estava a ponto de justificar tão fatalmente. A sua perplexidade redobrou.

No fim de tudo, havia em todas as palavras de Thenardier, no tom, no gesto, no olhar, que fazia brotar faíscas de cada uma das palavras daquela explosão de uma má natureza, mostrando-se completamente naquela mistura de fanfarronada e abjecção, naquele caos de agravos reais e de sen mentos falsos, naquela falta de pudor de um homem mau saboreando a voluptuosidade da violência, naquela descarada nudez de uma alma feia, naquela conflagração de todos os sen mentos combinados com todos os ódios, o que quer que era do hediondo como o mal e de pungente como a verdade.

O quadro de mestre, a pintura de David cuja compra propusera ao senhor Leblanc, não era, como o leitor logo adivinhou, senão a tabuleta da baiuca, pintada, como se deve lembrar, pelo próprio Thenardier, único fragmento que ainda conservava do naufrágio de Montfermeil.

Como Thenardier cessara de interceptar o raio visual de Mário, podia já este contemplar o objecto de que se tratava, divisando com efeito um montão de borrões, uma batalha, um fundo de fumo e um homem com outro às costas. Era o grupo de Thenardier e de Pontmercy; o sargento salvador e o coronel salvo. Mário estava como que embriagado. Aquele quadro res tuía, de certo modo, a vida a seu pai; não era a tabuleta da taberna de Mon ermeil, era uma ressurreição, um túmulo entreaberto, um fantasma que se erguia. Mário sen a o coração nir-lhe nas fontes, nha nos ouvidos o estampido da ar lharia de Waterloo; a imagem de seu pai ensanguentado e vagamente esboçado no sinistro quadro, assustava-o, e parecia-lhe que aquela sombra informe não afastava dele os olhos.

Depois de tomar fôlego, Thenardier fitou os olhos sanguinários no senhor Leblanc e disse-lhe em voz baixa e breve:

— O que tem a dizer antes que o façam tisnar?

O senhor Leblanc não respondeu. No meio deste silêncio ouviu-se uma voz roufenha lançar do corredor este lúgubre sarcasmo:

— Se é preciso rachar lenha, cá estou presente Era o homem da corda, divertindo-se.

Ao mesmo tempo apareceu à porta um enorme rosto eriçado e terroso, deixando ouvir um medonho riso, que mostrava não dentes, mas arpéus.

Era o rosto do homem da corda.

— Para que diabo tiraste a máscara? — gritou-lhe Thenardier enfurecido.

— Para rir — respondeu o homem.

Desde alguns instantes que o senhor Leblanc parecia espiar todos os movimentos de Thenardier, o qual, cego e deslumbrado pela sua própria raiva girava no covil de um para outro lado, com a confiança que lhe inspirava o modo porque nha guardada a porta, o ter em sua mão um homem desarmado, estando ele armado, e o serem nove contra um, supondo a mulher contada por um só homem. Thenardier como dizíamos, na ocasião em que dirigira a sua apóstrofe ao homem da corda, voltara as costas ao senhor Leblanc.

Este, aproveitando a ocasião, deu um pontapé na cadeira, empurrou a mesa e, dando um salto com tão pasmosa agilidade que Thenardier nem sequer teve tempo de se voltar, achou-se ao pé da janela. Abri-la e passar uma perna para fora do parapeito, foi obra de um segundo; mas estava já quase todo fora, quando foi agarrado por seis pulsos robustos que o puxaram energicamente para o covil. Eram os três «fogueiros», que se haviam lançado a ele. Ao mesmo tempo, Thenardier deitara-lhe as mãos aos cabelos.

Ao ruído produzido por esta cena, acudiram os malfeitores que se achavam no corredor. O velho que estava sobre a cama e que parecia embriagado, desceu para o chão e aproximou-se também, cambaleando, com um martelo em punho Um dos «fogueiros», do qual a vela alumiava o rosto mascarado e em quem Mário, apesar das máscaras, reconheceu Panchaud, conhecido por Printanier e por Bigrenaille, conservava erguida sobre a cabeça do senhor Leblanc uma espécie de maça composta de uma barra de ferro com duas bolas na extremidade.

Mário não pôde resistir a este espectáculo.

«Perdoa-me, meu pai!» disse ele para si, e procurou com o dedo o gatilho da pistola.

Ia já a disparar, quando Thenardier gritou:

— Não lhe façam mal!

Esta tenta va desesperada da ví ma, longe de exasperar Thenardier, havia-o tranquilizado. Thenardier con nha dois homens dis ntos: um feroz, outro sagaz. Até àquele momento, no arrebatamento do triunfo, na presença da presa aba da e imóvel, dominara o homem feroz; quando a ví ma se debateu e deu mostras de querer lutar, reapareceu o homem sagaz e predominou.

— Não lhe façam mal! — repe u ele; e o primeiro resultado deste seu grito, sem que ele sequer o suspeitasse, foi fazer sustar o ro, prestes a par r, e paralisar o movimento de Mário que, ao ver a nova fase que as coisas tomavam, não viu inconveniente em con nuar a esperar. Não podia surgir de repente alguma probabilidade que o livrasse da terrível alterna va de deixar morrer o pai de Úrsula, ou de deitar a perder o salvador do

coronel?

Travara-se uma luta hercúlea. O senhor Leblanc a rara com o velho ao chão, dando-lhe um tremendo murro no peito, depois derrubara dois dos outros assaltantes, e conservava um debaixo de cada joelho; os miseráveis sufocavam sob aquela pressão como sob uma rocha de granito, mas os quatro restantes haviam segurado o terrível velho pelos braços e pela nuca e man nham-no acocorado sobre os dois «fogueiros»

prostrados. Assim, o senhor Leblanc, senhor de uns e dominado pelos outros, esmagando os que nha debaixo de si e quase esmagado pelos que o seguravam, sacudindo inu lmente todos os esforços que se amontoavam sobre ele, mal se via sob o grupo horrível dos malfeitores, qual javali sob uivante ma lha de cães de fila e de sabujos.

Conseguiram, por fim, deitá-lo na cama mais próxima da janela e ali o conservaram em respeito. A Thenardier não lhe largara os cabelos.

— Tu — disse-lhe o marido — não te metas onde não és chamada. Safa-te daqui!

A Thenardier obedeceu, como a loba obedece ao lobo, rosnando,

— Vocês apalpem-no! — continuou Thenardier.

O senhor Leblanc parecia ter renunciado à resistência.

Apalparam-no. Não nha consigo senão uma bolsa de coiro contendo seis francos e o lenço de assoar.

Thenardier meteu o lenço na sua algibeira.

— O quê! Pois não tem carteira? perguntou ele.

— Nem relógio — respondeu um dos «fogueiros».

— É o mesmo — murmurou com voz de ventríloquo o homem mascarado, que nha na mão a enorme chave — é um velho intratável!

Thenardier foi ao canto da porta e pegou num molho de cordas que lhe atirou.

Amarrem-no aos pés da cama disse ele, e deparando com o velho que ficara estendido e atravessado no meio da casa, com o soco que lhe dera o senhor Leblanc e que se não movia, perguntou:

— O Boulatruelle está morto?

— Não — respondeu Bigrenaille — está bêbado.

— Atirem com ele aí para um canto — disse Thenardier.

Dois dos «fogueiros» empurraram o bêbado com os pés para junto do montão de ferros.

— Babet, para que trouxeste tanta gente? — inquiriu Thenardier em voz baixa ao homem do cacete. — Era escusado.

— Que querias que eu fizesse? — replicou o homem.

— Eles quiseram por força vir todos. O tempo vai péssimo! Faz-se pouco negócio!

A cama, para cima da qual os bandidos nham conseguido a rar o senhor Leblanc, era uma espécie de leito de hospital, sustentado por quatro grossos pés de pautoscamente trabalhado. O senhor Leblanc não ofereceu resistência. Os bandidos prenderam-no solidamente em pé junto da cama mais desviada da janela e mais próxima do fogão.

Apertando o úl mo nó, Thenardier pegou numa cadeira !e foi sentar-se quase defronte do senhor Leblanc.

Thenardier já não parecia o mesmo; dentro de poucos instantes a sua fisionomia passara da violência desenfreada à brandura pachorrenta e astuciosa. Mário observava aquele homem e custava-lhe a reconhecer naquele seu sorriso, polido como o de um pretendente, a boca quase bes al que um momento antes escumava; contemplava com pasmo estúpido aquela fantás ca e assustadora metamorfose e experimentava o que experimentaria um homem que visse transformar-se um tigre em procurador de causas.

— Senhor... — articulou Thenardier.

E com um aceno de mãos mandou desviar os bandidos que ainda não nham largado o senhor Leblanc:

— Desviem-se um bocado para me deixar conversar com esse senhor.

Retiraram-se todos para o pé da porta e ele continuou:

— Senhor, não andou bem em querer saltar pela janela, porque podia quebrar uma perna. Agora, se é do seu agrado, vamos conversar calmamente, e devo principiar por comunicar-lhe um reparo que eu fiz, e vem a ser que o senhor ainda não soltou sequer um grito.

Thenardier nha razão. Era verdadeira a circunstância que ele apontava, embora Mário no meio da perturbação que o agitava não a vesse ainda notado. O senhor Leblanc apenas pronunciara algumas palavras, sem levantar a voz e, mesmo na ocasião da luta travada com os seis bandidos junto à janela, guardara o mais profundo e singular silêncio.

Thenardier prosseguiu:

— Valha-me Deus! O senhor poderia ter gritado que estava a ser atacado por ladrões, coisa que eu não teria podido achar inconveniente, podia pedir socorro. Que diabo! São coisas que só se dizem nas ocasiões próprias; quanto a mim, não me pareceria mal. É

natural que um homem faça alguma bulha quando se vê entre pessoas que lhe não inspiram demasiada confiança. Podia tê-lo feito, pois ninguém se lhe oporia. Não lhe poriam mordaça, e eu lhe digo porquê. É que esta casa é completamente surda; tem só esta boa qualidade, mas em suma, sempre é uma qualidade boa. É um verdadeiro subterrâneo. O estampido de uma bomba que aqui rebentasse, produziria no posto de polícia mais próximo o efeito do ressonar de um bêbado. Uma peça de ar lharia aqui não faria mais do que bum! e uma trovoada faria apenas puf? É uma habitação muito cómoda. Mas, enfim, o senhor não gritou e foi melhor assim; felicito-o por isso. Agora vou dizer-lhe qual é a minha conclusão, meu caro senhor. Quando se grita quem é que aparece? A polícia. E depois da polícia? A jus ça. Ora muito bem! O senhor não gritou porque nha tanto desejo como nós de que viesse a polícia e a jus ça. É que há já muito tempo que tenho esta desconfiança o senhor tem um interesse qualquer em ocultar alguma coisa. Pela nossa parte há o mesmo interesse. Posto isto podemos entender-nos.

Thenardier, falando deste modo, com os olhos fitos no senhor Leblanc, parecia querer cravar até ao fundo da consciência do seu prisioneiro as agudas pontas que lhe saíam das pupilas. Quanto à sua linguagem, impregnada de uma espécie de insolência

moderada e sonsa, era reservada e quase escolhida; e naquele miserável, que ainda havia pouco não era mais do que um salteador, pressen a-se agora o homem «que estudara para padre».

O silêncio que o prisioneiro guardara, aquela precaução que ia até ao esquecimento da vida, aquela resistência aposta ao primeiro movimento da natureza, que é soltar um grito, tudo isto, é preciso dizê-lo, desde que desafiara a atenção de Mário, tornava-se-lhe importuno e causava-lhe penosa admiração.

A observação tão profunda de Thenardier escurecia ainda para Mário as espessuras misteriosas sob que se ocultava aquela figura séria e grave, a que Courfeyrac pusera a alcunha de senhor Leblanc. Mas o homem, quem quer que era, amarrado com cordas, rodeado de algozes, meio mergulhando, para assim dizer, numa sepultura, cujo chão lhe ia gradualmente faltando debaixo dos pés, conservava-se impassível tanto diante do furor como da brandura de Thenardier, e Mário não podia deixar de admirar, num tal momento, aquele rosto tão soberanamente melancólico.

Era sem dúvida uma alma inacessível ao temor e ignorando o que fosse estar desorientada. Era um homem dos que dominam o espanto das situações desesperadas.

Por mais extrema que fosse a crise, por mais inevitável que fosse a catástrofe, não havia nele o mínimo indício da agonia do afogado, abrindo debaixo de água olhos horríveis.

Thenardier levantou-se sem afectação, dirigiu-se à chaminé, rou o biombo e deitou-o em cima da cama que tinha mais próxima. Ficou então a descoberto o fogareiro, cheio de brasas ardentes, entre as quais o preso podia ver perfeitamente o cinzel branco do fogo e semeado em partes de estrelinhas vermelhas.

Terminada a operação, Thenardier voltou a sentar-se ao pé do senhor Leblanc e prosseguiu:

— Con nuemos então. Nós podemos entender-nos e arranjar as coisas amigavelmente. Conheço que fiz mal em me deixar arrebatar, como deixei, há bocado.

Excedi-me, dizendo coisas que não devia dizer, mas enfim, a gente às vezes perde a transmontana e não sabe por onde traz a cabeça Aí está: por o senhor ser milionário, disse-lhe eu, há bocado, que queria dinheiro, muito dinheiro, mui ssimo dinheiro! Isto não eram termos. Jesus! Lá por ser rico, não deixa de ter as suas despesas, os arranjos da sua vida; e quem é que os não tem neste mundo? Eu não o quero desgraçar; eu, apesar de tudo, não sou nenhuma sanguessuga. Não sou como certa classe de gente que lá por se ver em posição mais vantajosa se aproveita disso para se fazer fina. Enfim, meu caro senhor, farei um sacri cio da minha parte e não pedirei exorbitâncias. Bastam-me duzentos mil francos.

O senhor Leblanc não proferiu uma única palavra e Thenardier prosseguiu:

— Bem vê que isto não é ser desarrazoado. Eu não sei o estado da sua fortuna, mas sei que não olha a dinheiro, e que, portanto, um homem tão animado de sen mentos de caridade como o senhor não pode fazer reparo em dar duzentos mil francos a um pai de família que a sua má ventura colocou em Circunstâncias crí cas. De certo também não vai fora disto, nem tão-pouco imagina que eu andei com todos estes prepara vos e que me cansei a organizar e a pôr em ordem o meu plano, que, segundo a declaração

destes senhores, é uma coisa realmente engenhosa e bem concebida para, afinal, lhe pedir um tudo-nada que me chegasse apenas para ir fazer uma patuscada de carrascão e vitela a casa de Desnoyer! Que são duzentos mil francos! Ora adeus! Tão depressa me conte na palma da mão essa bagatela, eu lhe afianço que fica tudo concluído e que escusa de ter o menor receio de que ninguém lhe tocará nem num cabelo. Porém, dirá:

«Eu não trago aqui comigo duzentos mil francos». Oh, senhor, acredite que eu não sou tão desarrazoado! Eu também não exijo isso. O que eu lhe peço é só que tenha a bondade de escrever o que eu lhe vou ditar.

Chegado a este ponto, Thenardier calou-se e depois acrescentou, acentuando cada uma das palavras e deitando um olhar acompanhado de um sorriso para onde estava o fogareiro:

— Previno-o de que não admito que o senhor não saiba escrever.

Faria inveja a um inquisidor o sorriso de Thenardier naquela ocasião.

Após aquela observação, Thenardier puxou a mesa para ao pé do senhor Leblanc, abriu a gaveta, da qual rou um nteiro, uma pena e uma folha de papel. A gaveta ficou meia aberta, deixando ver a comprida lâmina da faca que dentro dela luzia, e colocando a folha de papel diante do senhor Leblanc, disse:

— Escreva.

— Como quer que eu escreva, se tenho os braços atados? — respondeu o preso, falando, enfim, após o seu aturado silêncio.

— É verdade! Perdão! — acudiu Thenardier. — Tem toda a razão. E acrescentou, voltando-se para Bigrenaille:

— Desprende o braço direito deste senhor.

Executada a ordem por Panchaud, também conhecido pelos nomes de Printanier e Bigrenaille, Thenardier, ao ver desembaraçada a mão direita do preso, molhou a pena em tinta e apresentou-lha.

— Meu caro senhor, repare primeiro que está em nosso poder e à nossa inteira descrição, que nenhumas forças humanas o podem vir arrancar daqui, e que sen remos imenso, realmente, vermo-nos obrigados a chegar a desagradáveis extremos. Eu não sei como se chama nem onde mora, mas desde já o previno que há-de estar preso aí até voltar a pessoa que ver de ir entregar a carta que vai escrever. Estamos inteirados.

Tenha agora a bondade de escrever.

— O quê? — perguntou o prisioneiro.

— O que lhe vou ditar.

O senhor Leblanc pegou na pena e Thenardier principiou a ditar:

— «Minha filha...»

O preso estremeceu e ergueu os olhos para Thenardier.

— Ponha «minha querida filha» — disse ele.

O senhor Leblanc obedeceu e ele continuou:

— «Apenas receberes...»

Porém, chegado aqui, interrompeu-se de novo e disse para o senhor Leblanc:

— O senhor trata-a por tu, não?

— Por tu, a quem? — perguntou o interrogado.

— Ora, a quem! retorquiu Thenardier. À pequena!

O senhor Leblanc respondeu sem a menor aparência de emoção:

— Não sei o que quer dizer.

— É o mesmo, prossiga — tornou Thenardier, e continuou ditando:

— «Apenas receberes este bilhete, parte imediatamente com a pessoa que o entregar, que sabe onde eu estou esperando por . Mando-te chamar por assim me ser absolutamente necessário Podes vir sem receio».

Já o senhor Leblanc tinha acabado de escrever, quando Thenardier lhe disse:

— Não, não; risque o podes vir sem receio, senão ela pode suspeitar que anda aí coisa de que deva desconfiar.

O senhor Leblanc riscou as três palavras e Thenardier prosseguiu:

— Agora queira assinar. Como é que se chama?

O preso, em vez de responder, pousou a pena e perguntou:

— Para quem é esta carta?

— O senhor bem sabe para quem ela é — respondeu Thenardier — é para a pequena.

Ainda agora lho disse.

Era evidente que Thenardier evitava nomear a jovem de quem se falava. Dizia «a Cotovia», «a pequena», mas não pronunciava o nome dela. Precaução de homem manhoso que sabe guardar o seu segredo na presença dos seus cúmplices. Declarar o nome seria descobrir «o negócio» todo e dar-lhes a saber mais do que era necessário.

Thenardier continuou, pois:

— Queira assinar. Como é o seu nome?

— Urbano Fabre — disse o prisioneiro.

Thenardier, com um movimento de gato, meteu a mão no bolso e rou dele o lenço encontrado no do senhor Leblanc

— U. F. É isto mesmo. Urbano Fabre. Bem, assine U. F.

O prisioneiro assinou.

— Como são precisas duas mãos para fechar a carta, dê-ma que eu a fecho.

Feito isto, Thenardier continuou:

— Sobrescrite-a agora à menina Fabre, e o nome da rua. Eu sei que o senhor mora não muito longe daqui, nos arredores de S. Jacques du Haut-Pas, porque é onde vai todos os dias ouvir missa; mas não sei qual é a rua. Vejo que compreende a sua situação. Não mentiu com o nome, não mentirá com a morada. Escreva-a o senhor mesmo!

O prisioneiro conservou-se por um momento pensa vo, em seguida pegou na pena e escreveu:

— «Menina Fabre, em casa do senhor Urbano Fabre, na rua de S. Domingos do Inferno, número 17».

Thenardier pegou na carta com uma espécie de convulsão febril.

— Ó mulher! — gritou ele.

A Thenardier acudiu logo.

— Aqui está a carta. Já sabes o que tens a fazer. Lá em baixo está um carro. Vai e volta

rapidamente.

Depois, dirigindo-se ao homem da corda, ordenou:

— Tu, uma vez que raste a máscara, acompanha a burguesa. Irás na traseira do carro. Sabes onde deixaste a capoeira?

— Sei — disse o homem.

E, pondo a enorme corda a um canto, seguiu a mulher de Thenardier.

Depois deles teremsaído, Thenardier deitou a cabeça pela abertura da porta entreaberta, e gritou para o corredor:

— Cuidado, não percas a carta! Lembra-te que levas duzentos mil francos contigo!

Em seguida, ouviu-se a voz rouca da Thenardier responder:

— Sossega, porque a pus em sítio seguro.

Não se nha passado ainda um minuto, quando se ouviu o estalar de um chicote, que a pouco e pouco se foi afastando, até que deixou de se ouvir.

— Bom! — resmungou Thenardier. — Vão bem. Naquele galope está a burguesa de volta daqui a três quartos de hora.

Aproximou depois uma cadeira da chaminé, sentou-se e, cruzando os braços, pôs-se a limpar as botas cheias de lama, ao calor do fogareiro.

— Tenho frio nos pés — disse ele.

Na mansarda apenas nham ficado com o preso e Thenardier cinco bandidos. Através das máscaras, ou do visco negro que lhes cobria os rostos, convertendo-os, segundo a intuição do medo, em carvoeiros, negros ou demónios, conhecia-se que aqueles homens, entorpecidos e pesadamente indiferentes, pra cavam um crime como qualquer serviço, tranquilamente, sem cólera nem compaixão, com certo ar de aborrecimento.

Conservavam-se a um canto, como brutos amontoados e silenciosos, enquanto Thenardier aquecia os pés, e o preso, que voltara à sua primi va taciturnidade, parecia concentrado em profundas cogitações Ao sussurro feroz, que poucos momentos antes ressoava na mansarda, sucedera um silêncio sombrio como o que acompanha quase sempre o fim de uma cena violenta. Apenas alumiadas pelo escasso clarão da luz bruxuleante e das brasas meio apagadas, que pouco antes deixavam ver um reflexo afogueado, as cabeças monstruosas dos bandidos juntos em montão desenhavam no tecto e nas paredes sombras disformes. O único ruído que quebrava a gélida nudez daquela mansão, onde, longe das suspeitas dos homens, se perpetrava um crime, era o sussurro da serena respiração do velho embriagado, que jazia a um canto dormindo.

No meio deste silêncio, Mário esperava, em luta com uma ansiedade crescente. À

medida que os actores daquele drama temível iam avançando para o desenlace, a sua ansiedade subia de ponto, e o enigma, desde então muito inexplicável para ele, tornava-se cada vez mais impenetrável.

Que «pequena» era aquela que Thenardier designara também pelo nome de

«Cotovia»? Seria a sua «Úrsula»? Mas como, se o preso, a quem tal nome parecia não ter impressionado, muito naturalmente respondera: «Não sei o que me quer dizer»?

Por outra parte, estavam explicadas as duas letras, que queriam dizer Urbano Fabre e Úrsula não se chamava Úrsula. De tudo o que se passava em roda dele era isto o que o

jovem mais claramente via. Re nha-o como colocado no sí o, de onde observava e dominava todas estas cenas, uma espécie de fascinação terrível a que não podia ser superior. Ali permanecia, quase incapaz de reflexão e de movimento, como que aniquilado pela vista do hediondo espectáculo que se desenrolara a seus olhos, esperando um qualquer incidente, sem poder coordenar as ideias, que lhe acudiam em turbilhão, nem saber o «expediente que devia tomar.

«Em todo o caso», dizia de si para si, «logo verei se a Cotovia éela, visto que a Thenardier a foi buscar para a conduzir aqui. Se for, hei-de libertá-la das garras daqueles bandidos, ainda que seja a preço do meu sangue e da minha vida! Não olho a obstáculos de qualidade nenhuma!».

Assim decorreu perto de meia hora.

Thenardier parecia absorvido em tenebrosa meditação e o preso con nuava calado e imóvel. Afigurava-se, todavia, a Mário, havia alguns instantes, que ouvia um impercep vel ruído surdo do lado do preso, ruído que a espaços parava para recomeçar outra vez.

De repente, Thenardier voltou-se, apostrofando o prisioneiro:

— Senhor Fabre, atenda o que lhe vou dizer.

Como estas palavras pareciam ser o princípio de algum esclarecimento, Mário aplicou o ouvido e Thenardier continuou:

— Não se impaciente; minha mulher não tarda. Creio que a Cotovia é verdadeiramente sua filha, e por isso acho muito simples que o senhor a queira ter consigo. Contudo, por meio da sua carta foi minha mulher buscá-la. Eu disse a minha mulher que se ves sse, como viu, de modo que a sua menina a acompanhasse sem dificuldade. Subirão ambas para o fiacre com o meu camarada na traseira. Fora da barreira, está um carro com dois bons cavalos. É aí que hão-de conduzir a sua menina, que então se apeará do fiacre. O meu companheiro subirá com ela para a capoeira, e minha mulher voltará aqui para nos dizer que está tudo pronto. Quanto à sua menina, ninguém lhe fará mal; a capoeira levá-la-á a um sí o onde se achará tranquila; e apenas o senhor me ver dado a ninharia dos duzentos mil francos, ser-lhe-á entregue. No caso, porém, que me mande prender, então o negócio mudará de figura. O meu camarada ajustará as contas com a Cotovia e o senhor não a tornará a ver!

O prisioneiro não articulou uma só palavra. Thenardier, após uma pausa, prosseguiu:

— Como vê, é uma coisa simples. Não sucederá mal nenhum, se o senhor não quiser que o haja, Eu lhe conto a coisa, para que lhe fique presente.

Calou-se novamente, e vendo que o prisioneiro não quebrava a sua mudez, tornou:

— Apenas minha mulher volte e me diga: A Cotovia está a caminho, daremos ao senhor Fabre a liberdade de ir dormir a sua casa. Bem vê que não temos más intenções.

Pelo pensamento de Mário passaram imagens espantosas.

O quê! Pois não reconduziriam aquela jovem que iam arrebatar? Seria levada por um daqueles monstros? Para onde? E se fosse ela! Não havia dúvida que o era! Mário sen a paralisar-se-lhe o coração. Que faria? Desfechar a pistola? Entregar nas mãos da jus ça todos aqueles miseráveis? Mas nem por isso o medonho homem da corda deixaria de

ficar com aquela jovem fora de todo o alcance; e Mário pensava nas palavras de Thenardier, cujo significado sanguinário antevia: Se me fizer prender, o meu companheiro ajustará contas com a Cotovia. Então já não era só pelo testamento do coronel, era pelo seu próprio amor, pelo perigo daquela que amava, que se conteria.

Esta medonha situação, que já durava havia mais de uma hora, mudava de aspecto a todos os instantes. Mário teve a força de passar sucessivamente em revista todas as pungentes conjecturas, em busca de uma esperança que não achava.

O tumulto dos seus pensamentos contrastava com o fúnebre silêncio daquele covil de monstros.

No meio, porém, desse silêncio, sen u-se o estrondo de uma porta abrindo-se e tornando a fechar-se logo em seguida. A este estrondo, o preso fez um movimento, apesar das cordas com que estava amarrado, e Thenardier exclamou:

— Aí vem a patroa!

Efec vamente, mal ele terminara a frase, irrompeu violentamente pela porta da sala dentro a Thenardier, rubra de cólera, esbaforida, arquejante, deitando chispas de fogo pelos olhos e gritando em voz rouca, batendo com as mãos descomunais nas coxas:

— Mentira! Ele não mora lá!

No mesmo instante, assomava por trás dela o bandido que a acompanhara e que foi pegar outra vez na corda que tinha arrumado para cumprir a ordem de Thenardier.

— Não mora lá?! — repetiu Thenardier.

— Nem vivalma! Na rua de S. Domingos, número 17, não há no cia de tal Urbano Fabre! Ninguém sabe dar relação de quem seja!

E, após uma pausa, a que a obrigou o cansaço da carreira, continuou:

— Meu caro Thenardier, o velho logrou-te redondamente! A culpa é tua, por dares ouvidos ao teu bom coração! Se fosse comigo, outro galo lhe havia de cantar! Cortava-lhe a faladeira, pelo sim, pelo não, e, se ele se fizesse fino, nha alma de o fritar vivo.

Veríamos então se ele dizia ou não dizia onde está a filha e onde tem o dinheiro! Se fosse comigo, fazia-lhe assim! Bem diz o outro que as mulheres ainda são mais finas do que os homens! No número 17 não existe Fabre nem meio Fabre! É um portão! E ir daqui à rua de S. Domingos, a galope, gorjeta ao cocheiro e tudo, para uma destas!

Es ve com o porteiro e com a porteira, que é um pedaço de uma mulher como uma torre, e disseram-me que não conheciam semelhante pessoa.

Mário respirou. A Cotovia, ou Úrsula, aquela a quem não sabia que nome dar, estava salva.

Enquanto a mulher vociferava exasperada, Thenardier sentou-se em cima da mesa e assim esteve alguns instantes sem pronunciar palavra, balouçando a perna direita e a olhar para o fogareiro com um ar de selvá ca meditação. Por fim, exclamou com inflexão de voz lenta e singularmente feroz, dirigindo-se para o prisioneiro:

— Lograste-me! Hás-de dizer-me que fim tinhas em vista!

— Ganhar tempo! — gritou o preso com voz estrondosa.

E, no mesmo instante, desenvencilhou-se da corda que estava cortada. Apenas estava

preso ainda por uma perna.

Antes dos sete homens terem tempo de voltar a si e caírem sobre ele, o senhor Leblanc agachou-se, estendeu a mão para o fogareiro e levantou-se, brandindo no ar com gesto terrível o cinzel em brasa, a cujo clarão sinistro os bandidos, Thenardier e a mulher recuaram para o fundo, amedrontados, e se puseram a contemplá-lo com estúpido pasmo naquela atitude ameaçadora.

Verificou-se depois, por ocasião da busca judiciária a que os sucessos ocorridos naquela casa deram lugar, que, quando a polícia acudiu, aparecera uma grande moeda de um soldo, cortada e trabalhada de um modo par cular. Esta moeda de soldo era uma dessas maravilhas de indústria produzidas pela paciência dos presos das galés no meio das trevas e para as trevas, maravilhas que não passam de instrumentos de evasão.

Esses hediondos e delicados produtos de uma arte prodigiosa são na joalharia o que são na poesia as metáforas da gíria. Há Benvenutos Cellinis nas galés, do mesmo modo que na língua há Villons. Algumas vezes o infeliz que aspira à liberdade, sem mais utensílios que uma navalha ou uma faca velha, consegue par r um soldo em duas lâminas delgadas, vazá-las sem tocar os cunhos e de pra car em volta uma rosca na orla da moeda de modo que faz aderir novamente as duas lâminas. Depois atarracham-se e desatarracham-se à vontade; é uma boceta. Nesta boceta esconde-se uma mola de relógio, e esta mola de relógio, bem manejada, corta manilhas enormes e varões de ferro. Crê-se que o infeliz forçado não possui mais do que uma mesquinha moeda de cobre, mas não, possui a liberdade.

Foi uma moeda de cobre deste género, que nas posteriores investigações da polícia foi encontrada aberta em dois bocados, debaixo da cama, que no covil ficava mais próximo da janela. Achou-se igualmente uma pequenina serra de aço azulado, que podia ocultar-se dentro da moeda de cobre. É de presumir, que na ocasião em que os ladrões revistaram o prisioneiro, vesse ele consigo aquela moeda de cobre, que naturalmente conseguira ocultar fechada na mão, e que depois tendo solta a mão direita, a abrisse e se servisse da serra para cortar as cordas que o ligavam, o que decerto explicava o ligeiro ruído e os movimentos impercep veis notados por Mário. Não tendo podido baixar-se para se não trair, não cortara a corda que lhe prendia a perna esquerda.

Os malfeitores tinham já voltado a si do seu primeiro momento de surpresa.

— Sossega — disse Bigrenaille a Thenardier. — Ainda está filado por uma perna. Não tenhas medo que se safe. Aquela pata foi amarrada por mim.

Nisto o prisioneiro elevou a voz:

— Vocês são uns desgraçados, mas a minha vida não vale tão grande defesa. Quanto a imaginarem que me obrigariam a falar, que me fariam escrever o que eu não quero escrever, que me fariam dizer o que eu não quero dizer...

E arregaçando a manga do braço esquerdo, acrescentou:

— Olhem!

Ao mesmo tempo estendeu o braço e pousou sobre a carne nua o formão candente, que segurava com a mão direita pelo cabo.

Ouviu-se o frémito da carne queimada, e pelo antro espalhou-se o cheiro próprio das

casas de tortura. Mário cambaleou aterrado, os próprios malfeitores estremeceram, o rosto do extraordinário velho contraiu-se apenas; e enquanto o ferro candente aprofundava a fumegante chaga, impassível e quase augusto, fitava em Thenardier o seu olhar límpido, sem ódio, e onde o sofrimento se transformara em serena majestade.

Nas grandes e elevadas naturezas as revoltas da carne e dos sen dos, presa da dor sica, fazem com que a alma saia e se apresente na fronte, pelo mesmo modo que as rebeliões da soldadesca obrigam o capitão a comparecer.

— Miseráveis! — exclamou ele. — Não tenham mais medo de mim do que eu tenho de vocês!

E, re rando o formão da ferida, lançou-o pela janela que ficara aberta, e o horrível instrumento abrasado desapareceu volteando no meio da escuridão até cair ao longe e ser resfriado pela neve.

— Agora façam de mim o que quiserem — tornou o prisioneiro.

— Agarrem-no! — exclamou Thenardier, ao vê-lo desarmado.

Dois dos bandidos deitaram-lhe então as mãos aos ombros, e o homem da máscara, com voz de ventríloquo, colocou-se na frente, pronto a abrir-lhe a cabeça com a chave ao mais pequeno movimento.

Ao mesmo tempo, Mário ouviu por baixo de si, junto do tabique, mas tão perto que não podia distinguir os que falavam, estas palavras trocadas em voz baixa:

— Já não há senão uma coisa a fazer.

— Rasgá-lo de alto a baixo.

— É isso mesmo.

Eram o marido e a mulher em conselho.

Thenardier encaminhou-se vagarosamente para a mesa, abriu a gaveta e rou uma faca.

Mário apertava cada vez mais a coronha da pistola. Inaudita perplexidade. Havia uma hora que ouvia duas vozes na consciência; uma dizia-lhe que respeitasse o testamento de seu pai, a outra bradava-lhe que socorresse o prisioneiro. Estas duas vozes con nuavam sem interrupção a sua luta, que o tornava quase agonizante. Esperara vagamente até aquele instante achar um meio de o conseguir. Entretanto o perigo crescia, estava já passado o úl mo limite da expecta va; a alguns passos do prisioneiro, Thenardier meditava com a faca em punho.

Mário, desorientado, volveu os olhos à roda de si; úl mo recurso maquinal do desespero.

De repente estremeceu.

A seus pés, sobre a mesa, deparou-se-lhe uma folha de papel em que dava um raio de luz, parecendo mostrar-lho.

— Na folha de papel leu esta linha escrita em grandes letras, naquela manhã, pela filha mais velha dos Thenardier: «Chegaram os guitas».

Uma ideia, como se fora um relâmpago, passou então pelo espírito de Mário.

Era o meio que buscava, a solução do medonho problema que o atormentava: poupar o assassino e salvar a ví ma. Ajoelhou sobre a cómoda, estendeu o braço, pegou na

folha de papel, arrancou muito devagarinho do tabique um bocado de caliça, embrulhou-a no papel e atirou-o pelo buraco, para o centro do covil.

Era tempo. Thenardier, tendo vencido os seus úl mos receios, ou os seus úl mos escrúpulos, dirigia-se para o prisioneiro

— Caiu aqui uma coisa! — gritou a Thenardier.

— O que é? — perguntou o marido.

A mulher precipitara-se sobre o embrulho, apanhara-o e entregara-o ao marido.

— Por onde diabo veio isto? — inquiriu Thenardier.

— Ora essa! — disse a mulher. — Por onde querias que entrasse? Foi pela janela.

Thenardier desembrulhou o papel e aproximou-o da vela.

— É a letra de Eponina. Oh, diabo!

Fez depois sinal à mulher, que se lhe aproximou rapidamente, e mostrou-lhe as palavras escritas no papel, acrescentando em seguida com voz surda:

— Depressa, a escada! Deixemos a isca na ratoeira e safemo-nos!

— Sem cortar a língua ao homem? — perguntou a Thenardier.

— Não temos tempo para isso.

— Por onde? — disse Bigrenaille.

— Pela janela — respondeu Thenardier. — Uma vez que a Ponina a rou a pedra pela janela, é porque a casa não está cercada por este lado.

O mascarado com voz de ventríloquo pôs no chão a enorme chave que trazia, levantou os braços e, por três vezes, abriu e fechou rapidamente as mãos. Foi como o

«toca a postos» à guarnição de um navio. Os malfeitores que seguravam o prisioneiro largaram-no; num abrir e fechar de olhos foi a escada de corda desenrolada fora da janela e presa fortemente ao parapeito pelos dois ganchos de ferro.

O prisioneiro não dava atenção ao que Se passava em torno dele. Parecia estar ou sonhando ou orando.

Apenas segura a escada, Thenardier gritou para sua mulher:

— Vem daí, tu!

E correu para a janela.

Mas quando já ia a passar a perna por cima do parapeito, Bigrenaille segurou-o fortemente pela gola do casaco.

— Isso é que não, meu velho! Depois de nós.