Os Miseráveis
Segunda Parte — Cosette
Foi provado pelo testemunho de dois ou três carreiros que o nham encontrado que levava ves da uma blusa, e debaixo do braço um embrulho. Onde nha ele ob do aquela blusa? Nunca se soube. Todavia, morrera poucos dias antes na enfermaria da
fábrica um velho operário, que não deixara senão a sua blusa. Era, talvez, a que ele levava.
Uma úl ma palavra a respeito de Fan ne. Todos nós temos uma mãe comum, a terra.
Fantine foi restituída a essa mãe.
O cura julgou que procedia com acerto, e procedeu decerto, reservando para os pobres a maior quan a que pudesse do dinheiro que Jean Valjean lhe deixara. No fim de contas, de quem se tratava?
De um forçado e de uma meretriz.
Foi esta a razão porque ele simplificou o enterro de Fan ne, reduzindo-o ao estreito necessário, que se denominava vala comum.
Fan ne foi pois enterrada no canto gratuito do cemitério, que pertence a todos e não pertence a ninguém e onde para sempre se perdem os pobres. Felizmente, Deus sabe onde há-de ir buscar as almas. Fan ne foi lançada às trevas entre montões de ossos desconhecidos, a rada à vala comum, onde sofreu a promiscuidade das cinzas. O túmulo assemelhou-se ao leito.
SEGUNDA PARTE — COSETTE
LIVRO PRIMEIRO — WATERLOO
I — O que encontra quem vem de Wivelíes
O ano passado (1861), por uma bela manhã de Maio, um viajante a pé, o mesmo que conta esta história, dirigia-se de Nivelles para La Hulpe. Seguia a larga estrada calçada, que por entre duas fileiras de árvores, e em con nuas ondulações, conduz àquele úl mo ponto, ora subindo à crista das colinas, que se sucedem umas após outras, ora descendo ao cavado dos vales, aos altos e baixos, como vagas enormes. Já havia passado Lilois e Bois-Seigneur-Isaac, avistando a oeste o campanário de ardósia de Braine-l’Alleud, que tem a forma de um vaso voltado com a boca para baixo, e deixando atrás uma eminência povoada de arvoredo, e na volta de um atalho, onde se via um poste carunchoso sustentando a inscrição: An ga barreira n.º 4, uma taberna em cuja frente se lia o seguinte letreiro: Echabeau, café particular dos quatro ventos.
Meio quarto de légua adiante desta estalagem, chegou ao fundo de um valezinho, cortado por um regato, a cujas águas dá passagem um arco pra cado no aterro da estrada e onde o raro, mas verde arvoredo que cobre o vale de um lado da calçada, se estende do outro por dilatados prados, con nuando em graciosa desordem até Braine-l’Alleud.
À beira da estrada, do lado direito, ficava uma estalagem, a cuja porta se via um carro de quatro rodas, um grande feixe de varas de lúpulo, uma charrua, uma ruma de mato seco ao pé de uma sebe, uma pouca de cal a fumegar dentro de uma cova quadrada e uma escada deitada ao comprido de um alpendre velho, fechado por um tapamento de palha. Num campo onde ao sabor da viração, volteava um grande cartaz amarelo, provavelmente anunciando o espectáculo de alguns comediantes ambulantes em alguma feira, uma rapariga andava a sachar; da esquina da estalagem, junto de um pântano, onde sobrenadava uma flo lha de patos, par a um carreiro que se entranhava pelo tojo. Deitou o viajante por esse carreiro, e ao cabo de uns cem passos, depois de ter costeado uma parede do século XV, coroada por uma empena aguda de jolos contrapostos, achou-se em presença de uma grande porta de pedra, construída em arco, com imposta rec línea, no es lo grave de Luís XIV e ornada de dois medalhões lisos. Do fron spício severo em que se abria esta porta par a perpendicularmente uma parede flanqueando-a em ângulo recto. No prado que se estendia em frente da porta jaziam três grades, por entre as quais cresciam à mistura todas as flores de Maio. A porta era fechada por dois batentes decrépitos ornados com um martelo velho e cheio de ferrugem.