Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 221 de 359

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Os Miseráveis

V — Factos que dão origem à história e que a história ignora

fana zado, o Oeste perturbado, a duquesa de Berry na Vendeia, os tramas, as conspirações, os levantamentos, a cólera, juntavam ao sombrio rumor das ideias o sombrio rumor dos acontecimentos.

V — Factos que dão origem à história e que a história ignora Por fins de Abril estava tudo ainda mais agravado. Tornara-se fervura o que era fermentação. Desde 1830 que, ora num ponto, ora noutro, se nham dado pequenos mo ns parciais rapidamente sufocados, mas sempre renascentes, o que era sinal de uma vasta conflagração subjacente. Alguma coisa terrível se chocava. Entreviam-se os lineamentos confusos e ainda mal distintos de uma possível revolução. A França fitava os olhos em Paris; Paris deitava a vista para o bairro de Santo António É que o bairro de Santo António, surdamente aquecido, principiava de entrar em ebulição.

As casas de pasto da rua da Charonne, posto a junção dos dois epítetos pareça singular aplicada a casas de pasto, tornavam-se graves e tempestuosas.

Aí se ques onava sobre o governo, mas pura e simplesmente ques onava. Aí se discu a publicamente «o negócio, para se assentar no que se devia fazer, se entrar em luta, se ficar em sossego». Havia salas por trás das lojas onde se fazia jurar aos operários que ao primeiro grito de alarme se poriam em campo, «batendo-se sem contar o número dos inimigos». Tão depressa era prestado o juramento, exclamava algum homem sentado a um canto da casa de pasto em voz que todos ouvissem: «Assim o entendeste!

Assim o juraste!» Algumas vezes esses homens fechavam-se numa sala de alguma casa para isso escolhida, onde se passavam cenas quase maçónicas, fazendo-se prestar juramento aos iniciados, «para bem seu e dos pais de família». Era a fórmula.

Nas salas inferiores liam-se revistas «subversivas» e «punha-se de rastos o governo», segundo a expressão de um relatório secreto desse tempo.

Não era raro ouvirem-se palavras como estas: «Eu não sei os nomes dos chefes. Nós cá apenas saberemos o dia duas horas antes». Ouvia-se a um operário: «Somos trezentos; com dez soldos que dê cada um fazem cento e cinquenta francos, que já dão para pólvora e balas». Outro dizia: «Não lhe dou seis meses, não que nem dois Antes de quinze dias pode o governo contar connosco pela proa Vinte e cinco mil homens já não são arestas». Ouvia-se a outro: «Nem sequer me deito. Toda a noite levo a fazer cartuchos». De tempos atempos vinham uns sujeitos «bem trajados», diziam «com modos de autoridade» que «não houvesse novidade até se dar ordem» e iam-se embora depois de apertar a mão «aos mais importantes». Nunca se demoravam mais de dez minutos Em voz baixa trocavam-se frases significativas, como: «A rusga vai-se arranjando, a coisa está a estalar». «Era o zumbido que se ouvia por toda a parte nessas reuniões», para nos servirmos da própria expressão de um dos assistentes. Era tal a exaltação, que certo dia um operário exclamou, numa casa de pasto, diante de quem quis ouvir: «Nós não temos armas!» Ao que um seu camarada respondeu: «Têm-nas os soldados!», parodiando deste modo, sem tal imaginar, a proclamação de Bonaparte ao exército de Itália. «Quando eles, porém, acrescenta um relatório, nham alguma coisa de maior segredo, não o comunicavam nesses ajuntamentos». Custa a compreender que poderiam

eles ocultar, dizendo abertamente o que diziam.

Às vezes eram periódicas estas reuniões, em algumas das quais nunca se viam mais que oito ou dez, e sempre as mesmas. Noutras entrava quem quisesse, e por tal modo se enchia às vezes a sala, que se viam na necessidade de se conservar de pé. Uns concorriam a elas por entusiasmo e paixão; outros «porque lhes ficavam em caminho, quando iam para o trabalho». Do mesmo modo que na ocasião da revolução, havia nessas casas de pasto mulheres patriotas que abraçavam os recém-vindos.

Mais factos expressivos, porém, se iam manifestando.

Entrava um homem numa casa de pasto, bebia e dizia ao sair: «Tome conta, patrão; não pago eu, mas a revolução pagará.»

Numa casa de pasto defronte da rua da Charonne nomeavam-se agentes revolucionários, fazendo-se o escrutínio em barretes.

Em casa de um mestre de esgrima na rua de Co e, onde se reuniam alguns operários com o fim de se exercitarem, havia um troféu de armas, formado de espadins de pau, de canas, bengalas e floretes. Um dia desembotaram os floretes. Dizia nessa ocasião um operário: «Somos vinte e cinco, mas a mim não me contam, porque me consideram uma máquina». Esta máquina foi depois Quénisset.

Fosse o que fosse o que se premeditava ia tomando gradualmente estranha notoriedade. Um dia dizia uma mulher para outra, andando a varrer o portal da sua casa: «Há muito tempo que esses homens não se ocupam senão em fazer cartuchos». No meio da rua liam-se proclamações dirigidas aos guardas nacionais dos departamentos. Uma dessas proclamações era assinada por «Burtot, proprietário de um armazémde vinho».

Um dia, à porta de um licorista do mercado Lenoir, um homem com barba desusada e pronúncia italiana, trepava a um marco e lia em voz alta um escrito singular, que pareciaemanar de um poder oculto. Ferviam os aplausos entre os grupos que se nham reunido em volta dele. Eis as passagens que mais comoviam o auditório, as quais foram recolhidas e notadas: «...Criam-nos obstáculos às doutrinas que professamos, rasgam-nos as proclamações, exercem a mais escrupulosa vigilância sobre quem anda a fixá-las para lhes deitar a mão e encarcerá-los». «A falta de algodão que se tem feito sen r ul mamente converteu em nosso favor muitos neutrais». «...Andasse o futuro dos povos elaborando na nossa obscura classe». «... Eis os termos da questão bem definidos: acção ou reacção, revolução ou contra-revolução, pois na nossa época ninguém crê na inércia, nem na imobilidade. Em prol ou contra o povo, nisto se cifra a questão, além da qual não há outra.» «...No dia em que vos não fizermos conta, inu lizai-nos, a rai fora connosco, mas até então ajudai-nos a caminhar». Tudo isto publicamente e em pleno dia.

Factos se davam ainda mais audaciosos, que por causa da sua mesma audácia se tornavam suspeitos ao povo. No dia 4 de Abril de 1832, um transeunte subia ao marco colocado à esquina da rua de Santa Margarida e gritava: «Eu sou um babouvista!» Mas o povo, dotado de fino olfacto, por baixo de Babeuf farejava Gisquet.

Entre outras coisas, este viandante dizia:

— Abaixo a propriedade! A oposição da esquerda é cobarde e traiçoeira. Prega a revolução quando pretende alguma coisa. É democrata para que não lhe façam mal e realista para não combater. Desconfiai dos republicanos, cidadãos operários! São animais ferozes vestidos de hienas!

— Cala a boca, cidadão espião! — gritou um operário.

E aquele grito pôs termo ao discurso.

Eram abundantes os incidentes misteriosos.

Ao cair da noite encontrava um operário nas imediações do canal «um sujeito bem trajado» que lhe dizia:

— Para onde vai, cidadão?

— Senhor, não tenho a honra de o conhecer — respondia o operário.

— Conheço-te eu.

E acrescentava:

— Não tenhas receio, que eu sou o agente da junta. Há suspeitas de que tu não és firme e trazem-te o olho em cima; por isso acautela-te de revelar o que quer que seja.

Depois apertava a mão ao operário e partia, dizendo ainda:

— Brevemente nos tornaremos a encontrar.

A polícia recolhia diariamente por meio das suas escutas diálogos singulares, que se repetiam não só nas casas de pasto, mas no meio das ruas.

— Olha se tratas de te alistar quanto antes dizia um tecelão a um marceneiro.

— Para quê?

— Porque não tarda aí qualquer dia a haver tiroteio.

Entre dois viandantes cobertos de andrajos trocavam-se estas notáveis respostas, cheias de aparente jacquerie:

— Quem nos governa?

— É o senhor Filipe.

— Não. Quem nos governa é a burguesia.

Engano seria da parte dos nossos leitores suporem que tomamos a palavra jacquerie em mau sentido. Os jacques eram os pobres. Ora quem tem fome tem direito.

Noutra ocasião viam-se passar dois homens, dizendo um para o outro:

— Temos um belo plano de ataque.

De uma conversação ín ma entre quatro homens sentados num desvão perto da barreira do Trono apenas se percebia o seguinte:

— Há-de fazer-se toda a diligência para que ele não torne a pôr os pés em Paris.

Ele quem? Temeroso enigma.

«Os principais chefes», porém, como se dizia no bairro, não se mostravam publicamente. Supunha-se que para as suas deliberações se reuniam numa casa de pasto das imediações do alto de Santo Eustáquio, passando por servir de intermediário central entre os chefes e o bairro de Santo António um tal Aug, chefe da Sociedade de Socorros para os alfaiates, na rua de Mondétour. Contudo, nunca se soube, com certeza, o que havia de verdade a respeito desses chefes, nem facto algum incontestável pôde invalidar a singular al vez da seguinte resposta dada algum tempo depois por um acusado

perante o tribunal dos Pares:

— Quem era o seu chefe?

— Nem conhecia nenhum nem os reconheceria .

Tudo o que temos dito não passava ainda de palavras, transparentes, sim, mas vagas; às vezes de frases apanhadas no ar, contos de «diz-se» ou «ouvi dizer». Outros indícios, porém, se iam revelando.

Um dia, um carpinteiro, que andava circundando com um tapamento de madeira um terreno onde se elevava uma casa em construção, achou no chão um bocado de uma carta rasgada, de que ainda eram legíveis as seguintes linhas:

...É preciso que a junta tome providências para obstar ao recrutamento que diferentes sociedades andam fazendo pelas secções.

E num post-scriptum:

Comunicam-nos que em casa de um armeiro da rue do Faubourg-Poissonière, número 5 (bis), existem cinco ou seis mil armas, coisa que esta secção não possui.

O que impressionou, porém, o carpinteiro e deu lugar a que ele desse rebate do acontecimento aos vizinhos foi que, a pequena distância do lugar onde achara o primeiro papel, deu com outro, também rasgado e ainda mais significa vo, cuja configuração aqui reproduzimos pelo interesse histórico que em si encerram esses estranhos documentos:

Q C D E

u og a1 fe

Decorem esta lista e depois rasguem-na. Os que forem admi dos deverão fazer o mesmo logo que para isso lhes dêem ordem.

Saúde e fraternidade.

L.

Só passado algum tempo depois destes factos é que as pessoas a quem foi comunicado o segredo deste achado conheceram a significação das quatro letras maiúsculas, as quais exprimiam: quinturiões, centuriões, decuriões, esclarecedores, e o sen do das letras: u og al fe, que eram uma data, e queriam dizer 15 de Abril de 1832.

Por baixo de cada uma das maiúsculas viam-se inscritos alguns nomes, seguidos de indicações sumamente caracterís cos. Deste modo: Q. Bannarel. 8 espingardas. 83

cartuchos. Homem seguro. C . Boubière. 1 pistola. 40 cartuchos. D. Rollei. 1 florete, 1

pistola, 1 arrátel de pólvora. E . Teissier. 1 sabre, 1 patrona. Exacto. Terreur. 8

espingardas. Valente, etc.

Finalmente, o mesmo carpinteiro encontrou ainda no citado local outro papel, em que se via escrita a lápis, mas de modo inteiramente legível, a seguinte enigmática lista: Unidade. Blanchard: árvore seca, 6.

Barra. Soize. Sala do Conde.

Kosciusko. Aubry o magarefe.

J. J. R.

Caio Graccho.

Direito de revisão. Dufond. Four.

Queda dos Girondinos. Derbac. Maubuée.

Washington. Pinson. 1 pist. 86 cart.

Marselhesa.

Saber, do povo. Miguel. Quincampoix. Sabre.

Hoche.

Marcal. Platão. Árvore seca.

Varsóvia, Tilly, vendilhão do Popular.

Veio, afinal, o honrado burguês em cujas mãos dera este papel a saber a significação da tal lista, que era, ao que parece, a nomenclatura completa das secções do quarto distrito da Sociedade dos Direitos do Homem, com os nomes e moradas dos chefes das secções. Hoje, que todos estes factos, então ocultos, só pertencem ao domínio da história, não há inconveniente em fazê-los públicos. Devemos porém acrescentar que a fundação da Sociedade dos Direitos do Homem parece ter sido posterior à data em que aquele papel foi encontrado. Talvez fosse apenas um esboço.

Em seguida, porém, às palavras, aos ditos e aos indícios escritos, alguns factos materiais principiaram a transparecer.

Em casa de um vendilhão de ferros velhos da rua Popincourt procedia-se a uma busca e encontravam-se-lhe na gaveta de uma cómoda sete folhas de papel pardo, dobradas todas ao comprido e em quarto, encobrindo por baixo vinte e seis quadrados de papel igual, dobrados em forma de cartuchos, e um outro papel, em que se lia o seguinte: Salitre 12 onças

Enxofre 2 onças

Carvão 2 1/2 onças

Água 2 onças

O auto da apreensão dizia que a gaveta exalava activíssimo cheiro de pólvora.

Um pedreiro que voltava para casa, no fim do trabalho, esquecia-lhe um embrulhinho sobre um banco da ponte de Austerlitz. O embrulho era levado para o corpo da guarda.

Abriam-no e achavam dois diálogos impressos, com a assinatura Lahautiére, uma can ga intitulada: Associai-vos, operários, e uma caixa de folha de Flandres, cheia de cartuchos.

Certo operário, bebendo com um companheiro, dizia-lhe que o apalpasse para ver como estava quente; o outro apalpava-o e achava-lhe a coronha duma pistola por baixo da blusa.

Num fosso do boulevard, entre o Pére Lachaise e a barreira do Trono, no sí o mais deserto, umas crianças brincando, descobriram debaixo de um montão de lixo e cavacos uma forma de balas, um molde de pau para fazer cartuchos, uma escudela contendo alguns grãos de pólvora, e uma panela de ferro fundido, em cujo fundo se viam evidentes sinais de chumbo derretido.

Os agentes de polícia penetraram de improviso às cinco horas da manhã, em casa de um tal Pardon, mais tarde seccionário da secção Barricada-Merry, que se fez matar na insurreição de Abril de 1834, e acharam-no de pé junto da cama tendo na mão os cartuchos que estava fazendo.

À hora em que os operários costumavam descansar houve quem presenciasse a seguinte cena passada entre dois homens que se encontraram entre a barreira de Picpus e a de Charenton, num caminho limitado por duas paredes, ao pé de uma casa de pasto que tem à porta um bilhar chinês. Um deles rou debaixo da blusa uma pistola e entregou-a ao outro. Na ocasião em que a entregava, reparou que a transpiração do peito havia comunicado certa humidade à pólvora. Escorvou novamente a pistola, e os dois homens em seguida separaram-se.

Um tal Gallais, morto depois na rua Beaubourg, no conflito de Abril, gabava-se de ter em casa setecentos cartuchos e vinte e quatro pederneiras de espingarda. O governo

recebeu um dia o aviso de que nham sido distribuídas armas no arrabalde, e duzentos mil cartuchos. Na semana seguinte foram distribuídos trinta mil. O que é notável é que a polícia não apreendeu nem um só. Uma carta interceptada dizia o seguinte:

«Não vem longe o dia em que, no espaço de quatro horas, estarão em armas oitenta mil patriotas».

Esta fermentação era pública e podia-se dizer que quase tranquila. A esta crise ainda subterrânea, mas já percep vel, não faltava a mínima singularidade. Os burgueses falavam pacificamente com os operários acerca do que se preparava. Diziam-lhe: Como vai a revolta?, no tom em que diriam: Como está sua mulher?

Um homem com armazém de móveis na rua Moreau, perguntava:

— Então quando atacam vocês?

Outro lojista dizia:

— Não tarda que ataquem. Sei-o com toda a certeza. Há um mês eram vocês só quinze mil, agora são vinte e cinco mil.

Oferecia depois a sua espingarda, e um vizinho oferecia uma pistola, que queria vender por sete francos.

Entretanto a febre revolucionária crescia. Não havia ponto nenhum de Paris ou da França que es vesse isento dela. A artéria ba a em toda a parte. Ao modo de certas membranas que nascem de determinadas inflamações e se formam no corpo humano, assim começava a estender-se pelo país a rede das sociedades secretas. Da associação dos Amigos do Povo, pública e secreta ao mesmo tempo, nascia a Sociedade dos Direitos do Homem, a qual datava assim uma das suas ordens dos dia: «Pluvioso, do ano 40 da era republicana», que devia sobreviver mesmo às sentenças do tribunal que pronunciava a sua dissolução, e que não hesitava em dar às suas secções nomes significa vos como estes:

Lanças.

Rebate.

Peça de alarme.

Barrete frígio.

21 de Janeiro.

Mendigos.

Vadios.

Para a frente.

Robespierre.

Nível.

Avante.

Da Sociedade dos Direitos do Homem originava-se a Sociedade de Acção. Estes eram os impacientes, que não esperavam pelos outros, para irem adiante. Outras sociedades se recrutavam entre as grandes sociedades mães. Os seccionários queixavam-se do muito que os dividiam. No número das que em úl mo lugar indicamos contava-se a Sociedade Gaulesa e a junta organizadora das municipalidades; as associações a favor da liberdade de imprensa, a favor da liberdade individual, a favor da instrução do povo, contra os impostos indirectos. Afora estas, a Sociedade dos Operários Igualitários, que se dividia em três fracções: Igualitários, Comunistas e Reformistas. Em seguida, o Exército das Bas lhas, espécie de corte militarmente organizada, na qual cada cabo comandava

quatro homens, cada sargento dez, cada alferes vinte, cada tenente quarenta; nunca havia acima de cinco homens que se conhecessem. Criação em que a precaução se combinava com a audácia e em que como que transparece o génio de Veneza. A junta central, que era a cabeça, nha dois braços, a Sociedade de Acção e o Exército das Bas lhas. Entre estas sociedades republicanas introme a-se uma associação legi mista, denominada dos Cavaleiros da Fidelidade, que, conhecida entre elas, era repudiada.

As sociedades estabelecidas em Paris ramificavam-se pelas principais cidades. Lyon, Nantes, Lille e Marselha nham a sua Sociedade dos Direitos do Homem, a Carbonária e a dos Homens Livres. Em Aix havia uma sociedade revolucionária chamada a Cougourde, cujo nome já tivemos ocasião de pronunciar.

Em Paris não se apresentava menos tumultuoso do que o bairro de Santo António o de S. Marcai, nem se notava menos movimento nas escolas que nos bairros. Serviam de pontos de reunião para os estudantes o café da rua de S. Jacinto e o botequim dos Sete Bilhares, situado na rua dos Maturinos de S. Tiago No café Musam, como se viu, reunia-se ali a Sociedade dos Amigos do ABC, filiada com os mutualistas de Angers e a Cougourde de Aix Os mesmos rapazes, como também já dissemos, se reuniam num restaurante das imediações da rua de Mondétour, chamado de Corinto.

Essas reuniões eram secretas As outras, porém, eram o mais públicas possível, ousadia de que o leitor pode formar ideia pelo seguinte fragmento de um interrogatório, feito por ocasião de ulteriores processos:

— Onde teve lugar a reunião?

— Na rua da Paz.

— Em que casa?

— No meio da rua.

— Quais eram as secções que se achavam presentes?

— Uma só.

— Qual?

— A secção Manuel.

— Quem era o chefe?

— Eu.

— É demasiado jovem para por si só ter tomado a grave resolução de atacar o governo. Donde recebia as instruções?

— Da junta central.

O exército era igualmente minado, do mesmo modo que a população, como depois o provaram os movimentos de Beaufort, de Lunéville e Épinal Contava-se com o regimento 52, com o 5, com o 8, com o 37 e o 30 de infantaria ligeira Na Borgonha e nas cidades do Meio-Dia plantava-se a «árvore da liberdade», que consistia num mastro com um barrete vermelho em cima.

Eis aqui qual era a situação que o bairro de Santo António, mais que nenhum outro grupo de população, tornava sensível e acentuava, como em princípio dissemos. Era aquele o foco.

Este an go bairro, populoso como um (formigueiro, laborioso, animoso e bravo como

um enxame de abelhas, rumorejava com as delongas e ardia em desejos de uma comoção Era tudo agitação, sem que, todavia, por isso o trabalho sofresse interrupção.

Não há palavras que possam dar ideia da vivaz e sombria fisionomia daquelas massas laboriosas. Existem naquele bairro indigências pungentes, abrigadas pelos tectos das mansardas, mas também nele há inteligências dotadas de raro ardor. É especialmente entre indigência e inteligência que mais perigoso se torna que se toquem os extremos.

Outros mo vos se davam ainda para a agitação do bairro de Santo António. Sobre ele iam influir as crises comerciais, as falências, as execuções e a falta de trabalho, inerentes aos grandes abalos polí cos. Em tempos de revolução, a miséria é simultaneamente causa e efeito. O golpe que descarrega, sobre ela vem repercu r. Parecia que aquela população, cheia de al va virtude, no máximo grau suscep vel de calórico latente, sempre pronta a lançar mão das armas, rápida nas explosões, irritada, sombria, minada, só parecia esperar a queda de uma faísca. É impossível, todas as vezes que pelo horizonte flutuam certas centelhas, impelidas pelo tufão dos acontecimentos impedir o pensamento de cogitar no bairro de Santo António e no temeroso acaso que colocou às portas de Paris aquele paiol de ideias e sofrimentos.

Gozam de histórica notoriedade as casas de pasto do «bairro de Santo António», casas onde em tempos revoltos, os que as frequentam mais se embriagam de palavras que de vinho. Circula naquele ambiente como que um espírito profé co, um eflúvio do futuro, que dilata os corações e engrandece as almas. As tabernas do arrabalde de Santo António assemelham-se àquelas do monte Aven no, construídas sobre o antro de sibila e que se comunicam com os profundos sopros sagrados; tabernas cujas mesas eram quase trípodes e onde se bebia o que Ennio chama vinho sibilino.

O arrabalde de Santo António é um reservatório de povo. O abalo revolucionário produz ali fendas por onde corre a soberania popular. Esta soberania pode fazer mal, engana-se como qualquer outra, mas, mesmo desencaminhada, conserva-se sempre grande. Pôde dizer-se dela como do ciclope cego, Ingens.

Em 93, segundo a ideia que flutuava era boa ou má, segundo era o dia do fana smo ou do entusiasmo, assim saíam do arrabalde de Santo António legiões selvá cas ou bandos heróicos

Selvagens. Expliquemo-nos sobre esta palavra. Aqueles homens eriçados, que nos dias genesíacos do caos revolucionário, esfarrapados, rugidores, ferozes, de cassetete erguido, de chuço ao alto, se arremessavam sobre Paris transtornado, o que queriam?

Queriam o fim das opressões, o fim das ranias, o fim, do direito da força, o trabalho para o homem, a instrução para a criança, a doçura social para a mulher, a liberdade, a igualdade, a fraternidade, o pão para todos, a ideia para todos, tornar o mundo em Éden, queriam o progresso; e essa coisa santa, boa e suave, o progresso, reclamavam-na impacientes, fora de si mesmos, terríveis, seminus, com a maça em punho e o rugido na boca. Eram selvagens, sim mas selvagens da civilização.