Os Miseráveis
XVII — Deve achar-se que Waterloo foi bom?
Chuva nocturna, muro de Hougomont, azinhaga de Ohain, Grouchy surdo à ar lharia, Napoleão enganado pelo guia, Boulow esclarecido pelo seu; todo este cataclismo é admiravelmente conduzido.
Em conclusão, digamo-lo: em Waterloo houve mais carnificina do que batalha.
Waterloo é, de todas as batalhas campais, a que apresentou mais limitada frente com tal número de combatentes.
Napoleão, três quartos de légua, Wellington, meia légua; de cada lado setenta e dois
mil combatentes; foi de tão grande espessura que proveio a mortandade.
Fez-se este cálculo e estabeleceu-se esta proporção, sobre a perda de homens: Em Austerlitz, franceses, catorze por cento; russos, trinta por cento, austríacos, quarenta e quatro por cento.
Em Wagram, franceses, treze por cento; austríacos catorze.
Na Moskow, franceses, trinta e sete por cento; russos quarenta e quatro por cento.
Em Bautzen, franceses, treze por cento; russos e prussianos, catorze por cento.
Em Waterloo, franceses, cinquenta e seis por cento; aliados trinta e um por cento.
Total em Waterloo, quarenta e um por cento.
Cento e quarenta e quatro mil combatentes; sessenta mil mortos.
O campo de Waterloo apresenta hoje o sossego peculiar à terra, impassível sustentáculo do homem, e assemelha-se a todas as planícies.
Contudo, durante a noite, destaca-se dele uma espécie de nevoeiro fantás co, e se algum viajante que por ali passa, olha, escuta e sonha como Virgílio nas funestas planícies de Philippes, é atacado pela alucinação da catástrofe.
O medonho 18 de Junho revive; a falsa colina monumento desaparece, esse leão qualquer dissipa-se, o campo da batalha volta à realidade, linhas de infantaria ondulam na planície, galopes furiosos atravessam o horizonte; o sonhador assustado chega a ver o relampejar dos sabres, o cin lar das baionetas, o flamejar das bombas, o monstruoso cruzar do trovão, qual estertor saído de um túmulo, o clamor vago da batalha-fantasma; essas sombras, são os granadeiros; esses clarões são os couraceiros; esse esqueleto é Napoleão, esse outro esqueleto é Wellington; nada disto existe já, e tudo se embate e combate ainda; os barrancos ngem-se de púrpura, as árvores estremecem, a poeira chega até às nuvens, e nas trevas, todas as ferozes elevações, Mont-Saint-Jean, Hougomont, Frischemont, Papelo e e Plencenoit, aparecem coroadas por turbilhões de espectros exterminando-se.
XVII — Deve achar-se que Waterloo foi bom?
Existe uma escola liberal assaz respeitável que não odeia Waterloo. Não pertencemos a ela. Para nós, Waterloo não é mais do que a data estupefacta da liberdade. Que uma tal águia saia de semelhante ovo, é, sem dúvida, uma coisa imprevista.
Waterloo, examinando-se do ponto culminante da questão, é intencionalmente uma vitória contra-revolucionária. É a Europa contra a França, Petersburgo, Berlim e Viena contra Paris. Paris, é o statu quo contra a inicia va, é o 14 de Julho de 1789, atacado através de 20 de Março de 1815, é o «toca a postos» das monarquias contra a indomável sublevação francesa. Aniquilar, enfim, este grande povo, cuja erupção durava havia vinte e seis anos, era o grande sonho Solidariedade dos Brunswick, dos Nassau, dos Romanoff, Hohenzollern e Habsburgs com os Bourbons.