Os Miseráveis
VI — Onde se entrevê a Magnon e os seus dois pequenos
«É tudo rua Quincampoix!» dizia.
Como já dissemos, a casa em que ele morava, na rua das Mulheres do Calvário, era propriamente dele. Tinha dois criados, «um macho, outro fêmea». Costumava crismá-los quando entrava algum para o seu serviço. Aos homens punha-lhes o nome da província de que eram naturais: Nimense, Comtoassense, Poitevinense, Picardo. O úl mo criado que o servia era um bochechudo e avermelhado velhote de cinquenta e cinco anos, que não era capaz de dar uma corrida de vinte passos, ao qual, como nha nascido em Bayona, pusera o nome de Biscainho. Pelo que diz respeito às criadas, em casa dele chamavam-se todas Nicole es (até a própria Magnon, de quem mais adiante se falará).
Um dia apresentou-se-lhe uma cozinheira, mulher de créditos na sua arte, al va descendente de uma nobre raça de porteiros.
— Quanto quer de soldada por mês? — perguntou-lhe Gillenormand.
— Trinta francos.
— Como se chama?
— Olímpia.
— Dar-lhe-ei cinquenta e chamar-se-á Nicolette.
VI — Onde se entrevê a Magnon e os seus dois pequenos Em casa de Gillenormand manifestava-se a dor por meio de cólera; o velho burguês enfurecia-se por se sen r desamparado. Tinha toda a espécie de preconceitos e permi a-se toda a qualidade de licenças. Uma das coisas que compunha o seu relevo exterior e sa sfação ín ma, era como acabámos de indicar, ter-se conservado galanteador e passar energicamente por tal; chamava a isto «fama real». Esta fama real dava-lhe às vezes singulares proventos. Um dia levaram-lhe a casa num cesto oval, como um presente de ostras, um robusto rapaz recém-nascido, gritando como um desesperado, e devidamente embrulhado nos cueiros, o qual lhe era atribuído por uma criada despedida seis meses antes. Gillenormand tinha então os seus oitenta anos feitos.
Houve indignação e clamores entre os que o rodeavam.
— A quem esperava aquela descarada fazer acreditar semelhante coisa? Que audácia!
Que abominável calúnia!
O senhor Gillenormand, pela sua parte, não mostrou o menor enfado. Olhou para o pequerrucho com o amável sorriso de um bom homem lisonjeado pela calúnia e disse aos que gritavam:
— Mas então que é? Que há nisto de extraordinário? Estão mostrando um espanto só próprio de pessoas ignorantes. O senhor duque de Angoulême, bastardo de Sua Majestade Carlos IX, casou-se aos oitenta e cinco anos com uma sirigaita de quinze; o senhor Firginal, marquês de Alluye e irmão do cardeal de Sourdis, arcebispo de Bordéus, de oitenta e três anos, teve de uma aia da senhora presidente Jacquin, um filho, um verdadeiro filho de amor, que foi cavalheiro de Malta e conselheiro de estado de espada; um dos grandes homens deste século, o abade Tabaraud, é filho de um homem de oitenta e sete anos. Estas coisas são vulgaríssimas. E a Bíblia! Para dizer: declaro que não me pertence este pequeno, é necessário muito cuidado.
A culpa não é dele. O procedimento era benigno.