Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 295 de 359

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Os Miseráveis

IV — Cinco de menos, um de mais

III — Luz e sombra

Enjolras nha saído em reconhecimento pela viela de Mondétour, cosendo-se com a parede das casas para não ser pressentido.

Os insurgentes — devemos confessá-lo — estavam cheios de esperança. O modo como haviam repelido o ataque nocturno fazia-lhes quase ligar pouca importância ao ataque que deveria ter lugar de madrugada.

Os insurgentes, pois, esperavam e sorriam, certos do seu bom resultado, como o estavam da causa, por cujo respeito opunham o peito às balas. Além disto, era evidente que não tardariam a ser socorridos, socorro com que firmemente contavam. Em virtude dessa facilidade de profecia triunfal, que é uma das forças do francês combatendo, eles dividiam em três fases infalíveis o dia que não tardaria a principiar: às seis horas,

aderiria ao movimento dos insurgentes um regimento de antemão apalavrado; ao meio-dia, rebentaria a insurreição em toda a cidade; ao pôr-do-sol teria lugar a revolução.

A este tempo ouvia-se ainda o sino de Saint-Merry, que desde a véspera se não nha calado um instante, tocando a rebate, o que provava que a outra barricada, a grande, a de Jeanne, continuava a resistir.

Todas estas esperanças se transmi am de um a outro grupo, com certo ar de mistério galhofeiro, mas terrível, que se assemelhava ao zunido de uma colmeia em guerra.

Passado algum tempo, tornou a ver-se Enjolras, de volta da sua sombria digressão de águia por entre a escuridão exterior. Quedou-se um instante, escutando toda aquela alegria, de braços cruzados e com uma mão na boca, e em seguida exclamou, fresco e rosado no meio da crescente claridade da madrugada:

— A tropa de Paris está toda em armas. A terça parte pesa sobre a barricada em que estamos. Já não falo na guarda nacional. Acabo agora mesmo de avistar as barre nas do 5.º de linha e os estandartes da sexta legião. Dentro de uma hora seremos atacados.

Quanto ao povo estava ontem em efervescência, porém hoje não se mexe. Não há que esperar, não podemos contar com ninguém, nem com povo nem com tropa! Estamos abandonados!

Estas palavras, caídas sobre o zunido dos grupos, produziram neles o mesmo efeito que produz num enxame a primeira gota de água da tempestade. Emudeceram todos.

Seguiu-se àquelas palavras um instante de inexprimível silêncio, durante o qual se teria ouvido o esvoaçar da morte.

Esse instante, porém, durou pouco.

Do fundo mais obscuro dos grupos elevou-se uma voz e disse para Enjolras:

— Embora! Elevemos a barricada a vinte pés de altura e morramos todos nela!

Cidadãos, façamos o protesto dos cadáveres. Mostremos que, se o ovo abandona os republicanos, os republicanos não abandonam o povo!

Estas palavras veram a virtude de desligar da penosa nuvem das ansiedades individuais o pensamento de todos, sendo acolhidas por uma entusiástica aclamação.

Nunca se soube o nome do homem que assim falou; foi talvez algum ignorado operário, algum desconhecido, algum esquecido, algum viandante herói, esse grande anónimo sempre aliado às crises humanas e aos génesis sociais, que, na ocasião oportuna, profere de um modo supremo a frase decisiva, sumindo-se nas trevas, depois de ter representado um instante, à luz de um relâmpago, o povo e Deus.

Esta resolução inexorável andava por tal modo espalhada na atmosfera do dia 6 de Junho de 1832, que, quase à mesma hora, levantavam os insurgentes da barricada de Saint-Merry o seguinte brado, que foi consignado no processo e depois se tornou histórico:

— Quer venha alguém socorrer-nos, quer não venha, é o mesmo! Resistamos até ao derradeiro!

Como se vê, as duas barricadas comunicavam-se, Se bem que materialmente isoladas.

IV — Cinco de menos, um de mais

Apenas o desconhecido, que decretara «o protesto dos cadáveres», acabou de falar,

dando a fórmula da alma comum, saiu de todas as bocas um brado de terrível sa sfação, fúnebre pelo sentido e triunfal pela entoação:

— Viva a morte! Morramos aqui todos!

— Todos para quê? — disse Enjolras.

— Todos, todos!

Enjolras prosseguiu:

— A posição da barricada não pode ser melhor. Trinta homens bastam para a defender. Por consequência, para que sacrificar quarenta?

— Porque nenhum de nós daqui quer sair! — replicaram eles.

— Cidadãos! — exclamou Enjolras com voz em que se notava certo tremor quase irritado. — Não é a república tão rica, que possa despender homens inu lmente. A vanglória é um desperdício. Se o dever de alguns é re rar-se, devem cumpri-lo, como cumpririam qualquer outro.

Enjolras, o homem-princípio, dominava os seus correligionários por essa espécie de omnipotência que dá o absoluto; porém, não obstante essa omnipotência, houve murmúrios.

Chefe, porém, no rigor da palavra, Enjolras, ao ver que os insurgentes, longe de obedecer, murmuravam, insistiu, prosseguindo com altivez:

— Os que receiam ser só trinta declarem-no!

A este dito de Enjolras cresceram os murmúrios.

— E, quanto mais — atalhou uma voz que se elevou do meio de um grupo quem é que pode sair, estando a barricada cercada, como está? Dizê-lo pouco custa!

— Do lado dos Mercados não está cercada a barricada — replicou Enjolras. — Acha-se livre a viela de Mondétour; portanto, indo-se pela rua dos Pregadores, pode chegar-se até ao mercado dos Inocentes sem dificuldade.

— Sim — tornou outra voz do meio de um grupo — para a gente aí chegar e ser agarrada por algum piquete de tropa de linha ou de guardas nacionais, que, ao verem passar um homem de blusa e boné, perguntar-lhe-ão: «De onde vens? Serás tu dos da barricada? Deixa ver as mãos! Cheiram a pólvora. Fuzilemo-lo!»

Enjolras, em vez de responder, tocou no ombro de Combeferre e entraram ambos para dentro da loja.

Um instante depois, tornaram a sair. Enjolras trazia nas mãos os quatro uniformes que mandara guardar; Combeferre seguia-o, trazendo as correias, e as barretinas.

— Fardados com isto — disse Enjolras — podem confundir-se com os da guarda nacional e escapar. Aqui está para quatro.

E atirou ao chão os quatro uniformes.

O estóico auditório, porém, ficou imóvel.

Combeferre tomou a palavra:

— Vamos — disse ele — é necessário ter alguma piedade. Sabem de quem aqui se trata? Trata-se das mulheres. Vejamos. Têm vocês ou não têm mulheres? Não têm filhos?

Não têm mães, que com o pé embalam o berço de uma criança e se vêm rodeadas de um magote delas? Levante o braço aquele de entre vós que ainda não viu o seio de uma

mãe. Ah, querem morrer? Também eu; porém eu, que vos estou falando, não quero sen r à roda de mim fantasmas de mulheres torcendo os braços! Morrei, embora, se assim o quereis, mas não causeis a morte! Suicídios como o que aqui não tardará a ter lugar são sublimes, mas o suicídio que envolve o próximo toma o nome de assassínio!

Lembrai-vos das cabecinhas louras e dos cabelos brancos! Escutai o que me disse há pouco Enjolras: ao passar pela esquina da rua do Cisne, disse-me ele que avistara luz na janela de um quinto andar e nos vidros a trémula sombra de uma cabeça de mulher velha, que parecia ter esperado toda a noite. Talvez seja a mãe de algum de vós! Pois bem, re re-se esse e apresse-se em ir dizer à pobre mulher: «Aqui me tem, minha mãe!»

Pode ir descansado, porque tudo se fará como se ele aqui es vesse. Quando o nosso trabalho é o amparo dos nossos, não temos direito a sacrificar-nos. Semelhante proceder seria o mesmo que desertar da família! E os que têm filhos? Os que têm irmãos?! Pois não pensais nisso? Quereis morrer; está muito bem, morrei; mas amanhã? Raparigas sem pão é uma terrível coisa! O homem mendiga, a mulher vende-se! Oh, meu Deus, pois esses entes tão graciosos e tão meigos, que andam tão honestamente ves dos, que enchem a casa de cas dade, que cantam e tagarelam, que são uma espécie de perfume animado, que provam a existência dos anjos no céu pela pureza das virgens na terra, essa Joana, essa Lise, essa Mimi, essas adoráveis e honestas criaturas que fazem a vossa felicidade e o vosso orgulho, deixareis que elas sintam a fome! Quereis que vos diga?

Existe um mercado de carne humana, e não será, por certo, com as vossas mãos de espectros que as impedireis de entrar nele. Lembrai-vos da rua por onde transitam inúmeros passeantes, das lojas, em frente das quais passam mulheres decotadas e descalças. Também já foram puras essas mulheres! Lembrem-se de suas irmãs aqueles que as têm. A miséria, a pros tuição, a cadeia, o hospital, eis onde vão cair essas delicadas jovens, essas frágeis maravilhas de pudor, de beleza e graça, mais frescas que os lilases no mês de Maio! Ah, desejastes morrer; muito bem. Quisestes subtrair o povo à realeza e entregastes vossas filhas à polícia! Amigos, por quem sois, não vos recuseis a ser compassivos para com as mulheres, as desventuradas mulheres, que estão pouco afeitas a ver-se lembradas! Dizem que as mulheres não receberam a educação dos homens, não as deixam ler, não as deixam pensar, não as deixam ocupar-se da polí ca: também as impedireis de ir ao depósito reconhecer os vossos cadáveres? Vamos; é necessário que os que têm família sejam bons rapazes, se despeçam de nós e vão embora, deixando o mais por nossa conta. Bem sei que é preciso coragem para isso, que é di cil; porém quanto mais di cil for, mais meritório será. Dir-me-eis: «Tenho uma arma, estou na barricada, e, por conseguinte, não me vou embora». Isto é bom de dizer.

Lembrai-vos, meus amigos, que há um amanhã, que não alvorecerá para vós, mas alvorecerá para as vossas famílias, escuro e cheio de sofrimentos. Sabeis o que vem a acontecer à galante criancinha robusta, sadia, corada, tagarela, galhofeira, que se vê abandonada? Falar-vos-ei de uma que, uma ocasião, vi. Morrera-lhe o pai. Tomaram conta dela, por caridade, uns pobres, que nem para si nham pão. Era de Inverno, mas ela, apesar disso e de andar sempre morta com fome, nunca chorava. Viam-na chegar ao pé do fogão, em que nunca se acendia lume, e que era feito, como sabeis, de barro; a

criança arrancava-lhe com os tenros dedinhos alguns pedaços e comia-os. Tinha a respiração rouca, as faces lívidas, as pernas trémulas, o ventre inchado. Nunca proferia a menor palavra. Se alguém lhe falava, não respondia. Transportaram-na para o hospício de Necker, onde eu era interno, e lá morreu. Agora, se entre vós há pais que façam consis r a sua felicidade em sair a passear com seus filhinhos pela mão, imagine cada qual que este filho é o seu. Ainda me lembro; quando o puseram em cima da mesa da aula de anatomia, as costelas formavam umas saliências por baixo da pele, como as sepulturas por baixo da erva de um cemitério. Feita a autópsia, encontrou-se-lhe uma espécie de lama no estômago e os dentes cheios de cinza! À vista disto, metamos a mão na consciência e aconselhemo-nos com o coração. As esta s cas provam que a mortalidade das crianças abandonadas é de cinquenta e cinco por cento. Repito, trata-se das mulheres, das mães, das jovens, das crianças. Porventura, fala alguém de vós? Bem sabemos quem vós sois; por Deus! bem sabemos que sois todos uns bravos; bem sabemos que todos tendes na alma a alegria e a glória de dar a vida pela grande causa; bem sabemos que vos sen s eleitos para morrer ú l e magnificamente, e que cada um de vós tem parte no triunfo! Ainda bem! Porém não sois sós no mundo. Há outros entes em quem deveis pensar. Não queirais ser egoístas!

Todos curvaram a cabeça com aspecto sombrio.

Estranhas contradições do coração humano nestes sublimes momentos! Combeferre, que falava daquele modo, não era órfão. Lembrava-se do que deviam sofrer as mães dos outros e olvidava a sua. Queria morrer sem reflectir que também era «egoísta!»

Mário, em jejum, febril, perdendo sucessivamente todas as esperanças, encalhado na dor, o mais sombrio dos naufrágios, saturado de emoções violentas e sen ndo adivinhar-se o fim, cada vez mais se embrenhava nesse torpor visionário que precede sempre a hora fatal voluntariamente aceita.

Um fisiologista teria podido estudar nele os crescentes sintomas da absorção febril conhecida e classificada pela ciência, a qual é para o sofrimento, o que a voluptuosidade é para o prazer. O desespero tem também o seu êxtase. Mário chegara a este ponto e assis a a tudo parecendo estar de fora; como dissemos, as coisas que ocorriam na sua presença pareciam-lhe longínquas; avistava o todo, mas não dis nguia os pormenores.

Via os movimentos de uns e outros como através de chamas; ouvia-lhes as vozes como vindas do fundo de um abismo.

Entretanto, o episódio que acabamos de ver, comoveu-o. Houve naquela cena uma ponta que o picou e que o fez acordar. Não nha senão uma ideia, morrer, e não queria distrair-se dela; mas pensou no meio do seu fúnebre sonambulismo, que perdendo-se não lhe era defeso salvar alguém.

— Enjolras e Combeferre têm razão — disse ele, erguendo a voz — nada de sacri cios inúteis. Junto a minha voz às suas; é necessário não haver demora. O que Combeferre vos disse é decisivo. Há entre vós quem tenha família, mãe, irmãos, esposa e filhos.

Esses, que saiam das fileiras.

Ninguém se moveu.

— Os homens casados e os que sustentam família, fora das fileiras! — repetiu Mário.

A sua autoridade era grande. Enjolras era chefe da barricada, mas Mário era o seu salvador.

— Ordeno-o! — gritou Enjolras.

— Suplico-lhe! — disse Mário.

Então aqueles homens heróicos, abalados pelas palavras de Combeferre, assustados pela ordem de Enjolras, comovidos pela súplica de Mário, começaram a denunciar-se uns aos outros.

— É verdade, é — dizia um rapaz a um homem já feito — tu és pai de família, vai-te embora.

— Vai tu antes, que sustentas duas irmãs.

E começava a patentear-se uma luta inaudita. Era a quem maior esforço empregaria para não ser posto fora da porta do túmulo.

— Despachemo-nos — disse Courfeyrac — daqui a um quarto de hora já será tarde.

— Cidadãos — prosseguiu Enjolras — aqui está a república, reina o sufrágio universal.

Designem por si mesmos os que devem retirar-se.

Obedeceram. Passados cinco minutos estavam cinco unanimemente designados e saíam das fileiras.

— São cinco! — exclamou Mário.

Não havia senão quatro fardamentos,

— Nesse caso — disseram os cinco a uma voz é preciso que fique um.

E cada qual começou a achar nos outros razões para não deverem ficar.

Recomeçou a generosa disputa.

— Tu tens uma mulher extremosa.

— Tu tens tua mãe já muito velha.