Os Miseráveis
VIII — O imperador faz uma pergunta ao guia Lacoste
Wellington, ao ver dois anos depois o campo de Waterloo, exclamou:
— Trocaram-me o meu campo de batalha.
Onde agora está a grande pirâmide de terra coroada pelo leão, havia um alto que abaixava em declive pra cável para a estrada de Nivelles, mas que pelo lado da estrada de Genappe era quase escarpado. A elevação da escarpa ainda hoje se pode medir pela altura dos cabeços das duas grandes sepulturas que bordam a estrada de Genappe a Bruxelas; à esquerda o túmulo inglês; à direita, o túmulo alemão. Túmulos franceses não os há ali; para a França é toda a planície um sepulcro. Em virtude das mil e mil carradas de terra, empregadas no cabeço, que tem cento e cinquenta pés de altura, por meia milha de circunferência, a subida para a planura do Mont-Saint-Jean é hoje a meia ladeira; no tempo em que se deu a batalha, era cortada a pique e inacessível, principalmente da parte de Haie-Sainte. Era tão inclinado o declive, que a ar lharia inglesa não podia fazer fogo para a herdade situada no fundo do vale, que era o centro do combate. No dia 18 de Junho de 1815, as chuvas nham também escavoucado aquele alcan l, a lama dificultava a subida, para a qual era necessário ir de gatas, correndo-se ainda assim o risco de se ficar atolado nela. Ao longo do alto da planura estendia-se um fosso, que um observador colocado a distância não seria capaz de dizer o que era.
Para que era aquele fosso? Digamo-lo. Braine-l’Alleud é uma aldeia da Bélgica; Ohain outra. Essas duas aldeias, ocultas ambas nas curvas do terreno, comunicam-se por um caminho de quase légua e meia de extensão, que atravessa uma planície de nível ondulante, e que em muitos sí os entra e se perde, como um rego, por entre as colinas, do que resulta ser em alguns pontos um verdadeiro barranco. Em 1815, do mesmo modo que agora, essa estrada cortava o alto da planura do Mont-Saint-Jean entre as duas
estradas de Genappe e Nivelles, com a diferença, porém, de que então ia por baixo da planura, e hoje fica em nível com ela. Das duas escarpas formaram o plinto para o monumento. Essa estrada na maior parte da sua extensão é uma vala, cavada em sí os a doze pés de profundidade e com os lados tão escarpados, que em algumas partes desabavam, principalmente de Inverno, com as torrentes formadas pelas chuvas, o que por vezes dera lugar a lamentosos desastres. A entrada de Baine-l’Alleud era tão estreita, que uma ocasião ficou ali um homem esmagado debaixo de um carro, como o prova uma cruz de pedra erguida ao pé do cemitério, que indica o nome do morto, Monsieur Bernard Debye, negociante em Bruxelas, e a data do desastre, Fevereiro de 1637.
Era tão profunda no alto do Mont-Saint-Jean, que em 1738 ficou ali sepultado debaixo de uma ribanceira, que desabou, um aldeão chamado Matheus Nicaise, como o provava outra cruz de pedra, cujo cimo desapareceu nas roteaduras, mas cujo pedestal ainda hoje se vê derrubado na encosta do monte, à esquerda da estrada, entre Haie-Sainte e a herdade do Mont-SaintJean.
Num dia de batalha, aquela quelha, que só ao pé se via, bordando o alto do Mont-Saint-Jean como um fosso no cimo da escarpa, como uma rodeira aberta na terra, era invisível, quer dizer terrível.
VIII — O imperador faz uma pergunta ao guia Lacoste
Napoleão, estava, pois, alegre naquela manhã de Waterloo, e nha razão para o estar.
O plano de batalha concebido por ele era, com efeito, admirável.
Uma vez travada a batalha, nem as suas variadíssimas peripécias, nem a resistência de Hougomont, nem a tenacidade de Haie-Sainte, nem a morte de Bauduin, nem Foy posto fora do combate, nem a inesperada muralha, de encontro à qual foi destruída a brigada de Soye, nem o fatal atabalhoamento de Guilleminot, que não nha balas, nem cartuchos, nem as baterias atoladas, nem as quinze peças sem escolta, destruídas por Uxbridge, numa azinhaga, nem o pouco efeito das bombas, que caíam nas linhas inglesas e que se enterravam no chão amolecido pela água da chuva, sem outro efeito mais do que levantar vulcões de lama, de modo que a metralha tornava-se em salpicos, nem a inu lidade da demonstração de Pire contra Braine-l’Alleud, nem a cavalaria, que se compunha de quinze esquadrões, reduzida quase toda a nada, nem a ala direita do exército inglês, mal atacada, nem a ala esquerda, mal comba da, nem o estranho equívoco de Ney, agrupando, em vez de destacar, as quatro divisões do primeiro corpo espessuras de vinte e sete fileiras e vanguardas de duzentos homens, entregues daquele modo à metralha, nem a destruição das balas naquelas massas, as colunas de ataque desunidas, a bateria do flanco descoberta subitamente, nem Bourgeois, Donzelot, Duru e em perigo e Quiot repelido, nem o tenente Vieux, esse Hércules saído da escola politécnica, ferido na ocasião em que arrombava, a golpes de machado, a porta de Haie-Sainte, debaixo do fogo que lhe faziam de cima da trincheira inglesa, que tapava a volta da estrada de Genappe a Bruxelas, nem a divisão de Marcognet, apanhada entre a infantaria e a cavalaria, espingardeada à queima-roupa, no meio das searas de trigo, por
Best e Pack, e acu lada por Ponsonby, nem a sua bateria de sete peças encravadas, nem a resistência do príncipe de Saxe-Weimar contra o conde de Erlon, Frischemont e Smohain, para guardar a bandeira que havia tomado ao regimento 105.º, nem a bandeira do regimento 45.º, também tomada, nem o hussardo negro prussiano, feito prisioneiro pelos batedores da coluna volante de trezentos caçadores, que ba am a estrada entre Wavre e Plancenoit, nem as assustadoras no cias dadas pelo prisioneiro, nem a demora de Grouchy, nem os mil e quinhentos homens prostrados por terra em menos tempo ainda, em volta de Haie-Sainte; nenhum destes incidentes tempestuosos, passando por diante de Napoleão, como as nuvens de fumo de batalha, lhe perturbaram o olhar ou fizeram ensombrar aquela face imperial do homem seguro de si. Napoleão estava acostumado a olhar a guerra de frente, sem fazer a soma pungente das circunstâncias, algarismo por algarismo; importavam-lhe pouco os algarismos, contanto que eles dessem esta soma: Vitória; nem se assustava que as coisas não corressem bem ao princípio, pois julgava-se senhor e possuidor do fim delas; sabia esperar, supondo «que ninguém lhe podia pedir contas do que fazia, e tratando o des no como de igual para igual. Parecia que dizia à sorte: «Não és capaz».
Napoleão, meio sombra, meio luz, sentia-se protegido no bem e tolerado no mal.
Dava-se, ou julgava que se dava com ele, uma convivência, ou quase diríamos uma cumplicidade dos acontecimentos, equivalente à invulnerabilidade antiga.
Parece, todavia, que quem nha no seu passado Beresina, Leipsick e Fontainebleau podia desconfiar de Waterloo. Na amplidão do céu torna-se visível qualquer misterioso franzir de sobrancelhas.
Napoleão estremeceu quando Wellington recuou.
Ao ver subitamente desguarnecido o alto do Mont-Saint-Jean e desaparecer a vanguarda do exército inglês, que se escondia, embora para se reunir de novo, ergueu-se nos estribos e pelos olhos passou-lhe o relampejar da vitória.
Wellington, encurralado na floresta de Soignes, era a Inglaterra defini vamente derribada pela França; era a vingança de Crecy, Poi ers, Malplaquet e Ramillies. Era o homem de Marengo passando um traço negro por cima de Azincourt.
O imperador, a quem a sua guarda, colocada por trás dele com as armas em descanso, observava com uma espécie de religião, ao lembrar-se então da terrível peripécia, deitou o óculo pela úl ma vez para todos os pontos da batalha e pôs-se a meditar, a examinar as confluências dos montes, a notar os declives, a perscrutar as moitas de árvores, a amplidão das searas, os meandros dos carreiros; parecia contar cada espinheiro das sarças. Contemplou com certa fixidez as trincheiras inglesas das duas estradas, formadas de grandes juncadas de árvores, a saber: a da estrada de Genappe acima de Haie-Sainte, guarnecida de duas peças, as únicas do exército que podiam fazer fogo para o fundo do campo de batalha, e a da estrada de Nivelles, onde se viam brilhar as baionetas holandesas de Chassé.