Os Miseráveis
I — Mário procura uma mulher de chapéu e encontra um homem de boné
De dia, fa gados das noites ferozes que passavam, dormiam umas vezes nos fornos de cal, outras nas pedreiras abandonadas de Montmartre, ou Montrouge, e às vezes até nos canos. Metiam-se debaixo da terra.
Que é feito de tais homens? Ainda existem e exis ram sempre. Fala deles Horácio: Ambubaiarum collegia, pharmacopolee, mendice, mimes; e enquanto a sociedade for o que é, eles serão o que são. Sob o escuro tecto das suas covas, renascem sempre da transudação social. Voltam, espectros sempre idên cos, apenas com a diferença de não usarem os mesmos nomes nem existirem dentro das mesmas peles.
Extirpam-se os indivíduos, mas subsiste a tribo.
As suas faculdades são sempre as mesmas. Desde o truão ao vadio, conserva-se pura a raça. Estes homens adivinham as bolsas nas algibeiras, farejam os relógios nos bolsos. O
ouro e a prata para eles têm cheiro. Há burgueses simples de quem quase se pode dizer que têm cara de se deixarem roubar, estes homens seguem-nos pacientemente. Ao passar algum estrangeiro ou provinciano, sentem estremecimentos de aranha.
Mete medo encontrar estes homens ou somente avistá-los à meia-noite em algum boulevard deserto. Não parecem homens, mas formas feitas de nevoeiro vivo; dir-se-ia
que fazem montão com as trevas, que não são dis ntos delas, que não têm outra alma senão a escuridão, e que só momentaneamente e com o fim de viver alguns minutos de uma vida monstruosa é que eles se desagregam das trevas.
Que é preciso para fazer esvaecer estas larvas? Luz. Luz a jorros. Nem um só morcego resiste ao clarão da aurora: Iluminai, portanto, o subterrâneo da sociedade.
LIVRO OITAVO — O MAU POBRE
I — Mário procura uma mulher de chapéu e encontra um homem de boné Passou o Verão, o Outono e chegou o Inverno. Em todo este tempo nem Leblarac nem a jovem tornaram a aparecer no Luxemburgo. O constante pensamento de Mário era ver outra vez aquele meigo rosto tão querido. Procurava, pois, sempre e por toda a parte, mas nada encontrava. Mário já não era o sonhador entusiasta, o homem resoluto, ardente e firme, o ousado provocador do des no, o cérebro que planeava futuros sobre futuros, o espírito cheio de planos, projectos, orgulhos, ideias e vontades; era um cão perdido. Desalentado pelo infrutuoso resultado das suas buscas, caiu numa negra tristeza, expressão do seu grande sofrimento. Estava tudo acabado. Aborrecia-lhe o trabalho, a solidão, o passeio; a vasta natureza, outrora tão farta de formas, de fulgores, de vozes, de conselhos, de perspec vas, de horizontes, de lições, nada disto nha agora para ele; parecia-lhe que tudo havia desaparecido.
Pensava ainda, pois que não podia esquivar-se a isso, porem já não achava gosto nos seus pensamentos. A tudo o que eles de con nuo lhe propunham em voz baixa respondia ele misteriosamente: «Para quê?»
A par disto, a si mesmo dirigia um sem-número de recriminações. «Para que a segui eu, se só o vê-la era já para mim tamanha felicidade! Ela fitava-me os olhos. Não era imenso? Dava mostras ”de amar-me. Não era tudo? Que mais queria eu? Daqui em diante não se pode passar, porque não há mais nada. Fui absurdo. O culpado sou eu!»
Courfeyrac, a quem Mário, como era seu costume, nada confiava, mas que adivinhava parte das coisas, como também costumava, ao princípio, não sem admiração, dera a Mário os parabéns por estar enamorado; ul mamente, porém, vendo o rapaz a braços com a sua negra melancolia, dissera-lhe:
— Vejo que não passavas de um pateta. Deixa lá isso, vamos até à Chaumière.