Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 307 de 359

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Os Miseráveis

XVI — De como o irmão se torna pai

As balas corriam atrás dele, porém ele era mais veloz do que elas. Parecia jogar não sei que medonho jogo das escondidas com a morte; de cada vez que a cara desnarigada do espectro aparecia, o gaiato dava-lhe um piparote.

Uma bala, porém, mais certeira ou mais traiçoeira do que as outras, alcançou, por

úl mo, a fantás ca criatura. Gavroche oscilou e caiu. Da barricada par u um grito geral.

O pigmeu, porém, nha qualquer coisa de Anteu; para o gaiato tocar a calçada é como para o gigante tocar o chão; Gavroche apenas caíra para mais depressa se levantar; levantou-se, pois, isto é, sentou-se no meio da rua, e, ao passo que o sangue lhe escorria em fio pelo rosto, levantou os braços, olhando para a parte de onde nha par do o ro que o ferira, e pôs-se a cantar:

A culpa é só de Voltaire,

Se agora dei trambolhão;

A culpa é só de Rousseau

Se dei co nariz no...

Não concluiu a copla. Segunda bala do mesmo a rador o a ngiu. Desta feita, caiu com o rosto para diante e não se tornou a mover. Aquela pequenina grande alma acabava de se evolar.

XVI — De como o irmão se torna pai

Naquele mesmo momento achavam-se no jardim, de Luxemburgo — porque a vista do drama deve estar em toda a parte — dois pequeninos dando a mão um ao outro. Um poderia ter sete anos, o outro cinco. Como estavam molhados pela chuva, caminhavam pelas áleas do lado do Sol; o mais velho conduzia o mais moço; estavam muito pálidos e cobertos de farrapos; tinham o ar de pássaros bravios. O mais pequeno dizia:

— Tenho muita fome!

O mais velho, já um tanto protector, conduzia seu irmão com a mão esquerda e levava na direita uma chibata.

Entraram sós no jardim. O jardim estava deserto; a polícia mandara fechar as portas por causa da insurreição.

As tropas que lá tinham estacionado haviam já saído, pelas necessidades do combate.

Como estavam ali aquelas crianças? Tinham-se talvez evadido de alguma casa de guarda, cuja porta apanhassem entreaberta; ou talvez nas proximidades, na barreira do Inferno, ou na esplanada do Observatório, ou na encruzilhada vizinha dominada pelo frontão, onde se lê: invenemnt parvalum pannis involutum. Houvesse alguma barraca de sal mbancos de onde vessem fugido. Teriam na véspera iludido a vigilância dos guardas do jardim à hora de se fecharem as portas e passado a noite nalguma daquelas guaritas em que se lêem os periódicos? O facto é que andavam errantes e que pareciam livres. Andar errante e parecer livre, é estar perdido.

Os pobres pequenos estavam, com efeito, perdidos.

Aquelas crianças eram as mesmas que tanta pena nham causado a Gavroche e de que o leitor se deve lembrar. Filhos de Thenardier, alugados à Magnon, atribuídos ao senhor Gillenormand, e por fim folhas caídas de todos aqueles ramos sem raízes e roladas no pó pelo vento.

O fato muito asseado no tempo de Magnon e que lhe servia de prospecto para com o senhor Gillenormand, tornara-se farrapos. Aquelas criaturinhas pertenciam agora à esta s ca das «Crianças Abandonadas» que a polícia regista, apanha, perde e torna achar nas ruas de Paris.

Era necessária a perturbação de um tal dia para que os dois infelizes pequenos se

achassem naquele jardim. Se os guardas houvessem lobrigado semelhantes farrapos tê-los-iam expulsado. As crianças pobres não entram nos jardins públicos; contudo, dever-se-ia pensar que, como crianças, têm direito às flores.

Aquelas achavam-se ali, graças às grades fechadas.

Estavam em contravenção, haviam penetrado no jardim e nham-se deixado ficar. As portas fechadas não dão folga aos guardas, a vigilância deve continuar, mas enfraquece e repousa; os guardas, mais ocupados do exterior do que do interior, não olhavam pelo jardim, e por isso não tinham visto os dois delinquentes.

Na véspera, assim como de manhã, chovera. Mas em Junho não se faz caso da chuva.

Uma hora após o aguaceiro a custo se reconhece que em tão belo dia tem chovido. A terra no Verão enxuga tão depressa como as faces duma criança.

Na época do sols cio, é a luz do meio-dia, por assim dizer, agarradora. Apodera-se de tudo. Aplica-se e sobrepõe-se à terra com uma espécie de sucção. O Sol parece que tem sede. Um aguaceiro é um copo de água; a chuva é bebida apenas cai. De manhã tudo gotejava, de tarde está tudo coberto de pó.

Não há nada mais admirável do que uma verdura lavada pela chuva e enxuta pelo Sol; é a frescura quente. Os jardins e os campos tendo água nas raízes e Sol nas flores, tornam-se caçoulas de incensos e brotam de si ao mesmo tempo todos os perfumes.

Tudo ri, canta e se oferece. Sente-se a mais doce embriaguez.

A Primavera é um paraíso provisório: o Sol ajuda o homem a ter paciência.

Há no mundo entes que não pedem mais; viventes que julgam bastante ter o céu azul, sonhadores absortos pelo prodígio, bebendo na idolatria da natureza a indiferença do bem e do mal, contempladores do cosmos, radiantemente distraídos do homem, que não compreendem que alguém se ocupe da fome destes, da sede daqueles, da nudez do pobre no Inverno da curvatura linfá ca de uma espinhazita dorsal, da enxerga, da trapeira, do cárcere, nem dos andrajos das raparigas que tremem de frio, quando podem sonhar acordados à sombra do arvoredo; espíritos pacíficos e terríveis, implacavelmente sa sfeitos. Estranha coisa, basta-lhes o infinito. A grande necessidade do homem, o finito, que admite a união, ignoram-no eles. No finito, que admite o progresso, o trabalho sublime, nem pensam. O indefinido que nasce da combinação humana e divina, do infinito e finito, escapa-lhes à apreciação. Sorriem-se, contanto que estejam face a face com a imensidade. Nunca a alegria, sempre o êxtase. Abismarem-se, é a sua vida. A história da humanidade, para eles, não é mais do que um plano parcelar; o Tudo não existe nela, o verdadeiro Tudo fica-lhe de fora; para que se hão-de ocupar do pormenor chamado homem? O homem sofre, é possível, mas olhai como Aldebaran se ergue! A mãe já não tem leite, o recém-nascido morre; não sei, mas vede esta rosácea maravilhosa, que faz um escudo do alburno do abeto, examinado ao microscópio!

Comparai isto à mais bela renda de Malines. Pensadores tais esquecem-se de amar. O

Zodíaco domina-os a ponto de os impedir que vejam a criança chorando. Deus eclipsa-lhes a alma. Cons tuem uma família de espíritos ao mesmo tempo grandes e pequenos.

Horácio e Goethe pertenciam-lhe, La Fontaine talvez; magníficos egoístas do infinito, espectadores tranquilos da dor, que não vêem Nero se faz bom tempo, aos quais o Sol

oculta a fogueira, que veriam guilho nar, diligenciando descobrir no cadafalso um efeito de luz, que não ouvem o gemido nem o soluço, nem o toque de rebate, para quem tudo vai bem porque há o mês de Maio, que enquanto verem acima da cabeça nuvens de púrpura e de ouro se declaram sa sfeitos, e que estão decididos a ser felizes até se haver exaurido o brilho dos astros e o canto das aves.

São estes os radiantes tenebrosos. Não suspeitam que são dignos de lás ma. Decerto que o são. Quem não chora não vê. É forçoso admirá-los e lastimá-los, como se admiraria e las maria um ente, ao mesmo tempo escuridão e luz, sem olhos sob as sobrancelhas e com um astro no meio da fronte.

A indiferença destes pensadores é, segundo alguns, uma filosofia superior. Pois seja, mas nesta superioridade há enfermidade. Pode-se ser imortal e coxo; sirva de exemplo Vulcano. Pode-se ser mais do que homem e menos do que homem. O incompleto imenso está na natureza. Quem sabe se o Sol não é cego?

Mas então, em que deve haver confiança? Solem Quis dicere falsum audeat. Pois também certos génios, certos Al ssimos humanos, certos homens astros, poderão enganar-se? O que está tão elevado, no cume, no zénite, o que envia tanta luz à terra, verá pouco, verá mal, não verá coisa alguma? Não é isto para desesperar? Não. Mas o que há pois acima do Sol? Deus.

O Luxemburgo, no dia 6 de Junho de 1832, pelas onze horas da manhã, solitário e despovoado, estava encantador. Os canteiros e os alegretes enviavam-se reciprocamente no meio da luz bálsamos e seduções. Os ramos, loucos com o Sol do meio-dia, pareciam querer abraçar-se. Havia nos sicómoros uma ma nada de tou negras, os passarinhos triunfavam, os piscos trepavam pelos troncos dos castanheiros dando pequeninas bicadas nos buraquinhos da cor ça. As latadas aceitavam a realeza legí ma do lírio; o mais augusto dos perfumes é o que sai da alvura. Respirava-se o aroma apimentado dos cravos. As velhas gralhas de Maria de Médicis brincavam amorosamente nas árvores mais altas. O Sol dourava, purpurizava e acendia as túlipas, que não são mais do que todas as variantes da chama, tornadas flores. À roda dos maços de túlipas volteavam as abelhas, faíscas destas flores chamas. Tudo era graça e alegria, incluindo a úl ma chuva; esta reincidência de que os lírios e as madressilvas deviam aproveitar-se não nham nada que inquietasse. As andorinhas faziam a encantadora ameaça de voarem baixo.

Quem ali estava respirava felicidade, a vida era aromá ca, toda aquela natureza exalava candura, socorro, assistência, paternidade, carícias e aurora. Os pensamentos que caíam do céu eram macios como a mãozinha de criança que se beija.

As estátuas sob as árvores, nuas e brancas, mantos de sombra rasgados pela luz; aquelas deusas estavam todas esfarrapadas pelo Sol; pendiam-lhe raios de todos os lados. Em torno do grande lago estava a terra já de todo seca. Soprava o vento suficiente para levantar num e noutro ponto redemoinhos de pó. Algumas folhas amarelas, que ali tinham ficado no último Outono, perseguiam-se alegremente e pareciam brincar.

A abundância de luz nha o que quer que era de tranquilizador. Vida, seiva, calor e eflúvios, trasbordavam; sen a-se sob a criação a enormidade da sua origem; em todos aqueles sopros saturados de amor naquele vaivém de reverberação e de reflexos,

naquela prodigiosa profusão de raios, no indefinido correr de outro fluído, sen a-se a prodigalidade do; que é inesgotável; e por trás de tanto esplendor, como por trás de um véu de chamas, entrevia-se Deus, o milionário de estrelas.

Graças à areia, não havia ali uma só mancha de lama; graças à chuva não havia um grão de pó. Os ramalhetes acabavam de se lavar; os veludos, os ce ns, os vernizes e os ouros que saem da terra sob a forma de flores estavam todos irrepreensíveis. Aquela magnificência era asseada. O grande silêncio da natureza feliz preenchia o jardim.

Silêncio celeste compa vel com mil músicas, arrulhos de ninhos, zumbidos de enxames, palpitações do vento. Toda a harmonia da estação os ostentava em gracioso conjunto; as entradas e saídas da Primavera efectuavam-se na devida ordem; terminavam os lilases, começavam os jasmins; algumas flores demoravam-se; a guarda avançada das borboletas, vermelhas de Junho fraternizava com a retaguarda das borboletas brancas de Maio. Os plátanos mudavam de pele. A brisa cavava ondulações na enormidade magnífica dos castanheiros.

Era esplêndido. Um veterano do quartel vizinho olhava para tudo aquilo através das grades, e dizia:

— Aí está a Primavera de grande uniforme e de armas apresentadas!

A natureza toda almoçava; a criação estava à mesa; era a hora; a grande toalha azul estava estendida no céu, e a grande toalha verde sobre a terra; o Sol iluminava o giorno.

Deus servia a refeição universal. Cada ente nha o seu pasto ou a sua ceva. O pombo bravo achava a semente do linho, o ten lhão o milho moído, o pintassilgo, achava o painço, o pintarroxo vermezinhos, a abelha achava flores, a mosca infusórios, os engole-ventos achavam moscas. Comiam-se um tanto uns aos outros, o que representa o mistério do mal misturado com o bem, mas nem um só animalzinho nha o estômago vazio,

Os dois pequenitos abandonados nham chegado junto do grande lago, e um tanto perturbados por toda aquela luz, diligenciavam ocultar-se, ins nto do pobre diante da magnificência, ainda que impessoal; e conservavam-se atrás da barraquinha dos cisnes.

De vez em quando, quando o vento soprava, ouviam, confusamente, aqui e além, certos gritos, certo rumor, espécie de estertores tumultuosos, que eram ros de canhão.

Por cima dos telhados do lado dos Mercados via-se fumo. Um sino, que parecia chamar, tocava muito ao longe.

Os dois pequenitos mostravam não dar por aqueles ruídos. O mais pequeno repe a, de vez em quando a meia voz:

— Tenho fome!

Quase ao mesmo tempo que as duas crianças, aproximara-se do lago outro par. Era um velho de cinquenta, anos, levando pela mão uma criança de seis anos. Sem dúvida pai e filho... A criança tinha na mão um grande bolo.

Naquela época, certas casas confinantes com o jardim pela rua de Madame e pela do Inferno, nham uma chave do Luxemburgo, da qual gozavam os locatários, quando o jardim estava fechado ao público; tolerância que mais tarde foi suprimida. Aquele pai e aquele filho tinham saído decerto, duma das tais casas.

Os rapazinhos vendo aproximar aquele «senhor» esconderam-se ainda mais.

«O senhor» era um burguês; talvez o mesmo que Mário, um dia, através da sua febre de amor nha ouvido ao pé daquele mesmo lago, aconselhando seu filho «a que evitasse os excessos». Tinha um ar afável e al vo, e uma boca que, não se fechando nunca, sorria sempre. Este sorriso mecânico, produzido por excesso de queixada e por defeito de pele, mostrava mais depressa os dentes do que a alma. O pequeno, com o seu bolo dentado, mas que não acabava de comer, parecia contrariado. A criança estava ves da com o uniforme da guarda nacional, por causa da revolta e o pai deixara-se ficar com o fato de burguês, por causa da prudência.

Pai e filho nham parado junto do lago onde giravam os dois cisnes. O burguês dedicava aos cisnes uma admiração especial. Talvez isto se desse, por muito se parecer com eles no modo de andar.

Naquele momento os cisnes nadavam, o que cons tui a sua principal habilidade e mostravam-se soberbos.

Se os dois pequenitos pobres vessem escutado e vessem idade de as poder compreender, ouviriam as palavras de um homem sério. O pai dizia ao filho:

— O sábio vive contente com pouco. Põe os olhos em mim, meu filho. Não gosto de fausto. Nunca me vêem coberto de ouro nem de pedrarias; deixo esse falso esplendor para as almas mal organizadas.

Aqui, os gritos profundos que vinham do lado dos Mercados, redobravam de intensidade, acompanhados por mais violento toque do sino.

— O que é aquilo? — perguntou o pequeno.

O pai respondeu:

— São saturnais.

De repente deu pelos dois pequenos, imóveis, atrás da casinha dos cisnes,

— Ali está o princípio disse ele.

E depois de um momento de silêncio, acrescentou:

— A anarquia já está no jardim.

Entretanto, o filho deu uma dentada no bolo, deitou fora o bocado que lhe arrancou e começou a chorar.

— Porque choras tu? — perguntou o pai.

— Já não tenho vontade — disse o pequeno.

O sorriso do pai acentuou-se mais.

— Um bolo come-se mesmo sem vontade.

— Mas não gosto dele, está duro.

— Não queres mais?

— Não.

O pai indicou-lhe os cisnes,

— Dá-os a esses palmípedes.

O pequeno hesitou. Não ter já vontade de comer um bolo não é razão para o dar.

O pai prosseguiu:

— Sê humano. É preciso ter dó dos animais.

E, tirando o bolo da mão ao filho, atirou-o para a água.

Os cisnes estavam longe, no centro do lago, entre dos com alguma presa. Não nham visto nem o burguês nem o bolo.

O burguês, vendo o risco em que estava o bolo de se perder e inquieto por tão inú l naufrágio, entregou-se a uma agitação telegráfica, que acabou por atrair a atenção dos cisnes.

Os palmípedes avistaram um objecto boiando, viraram de bordo, como verdadeiros navios, e dirigiram-se vagarosamente para o bolo, com a majestade beatífica que convém a animais brancos.

— Os cisnes compreendem os sinais — disse o burguês, sa sfeito por ter do uma ideia boa.

Neste momento o tumulto longínquo da cidade teve ainda súbita recrudescência.

Desta vez foi uma coisa sinistra. Há rajadas de vento que falam mais dis ntamente do que outras. A que soprou naquele momento trouxe ni damente rufos de tambor, clamores, descargas cerradas e lúgubres réplicas de toques de rebate e de ros de ar lharia. Isto coincidiu com a passagem de uma nuvem, negra que ocultou repentinamente o Sol.

Os cisnes não tinham ainda chegado ao bolo.

— Voltamos para casa — disse o pai — estão atacando as Tulherias.

Tornou a pegar na mão de seu filho e prosseguiu:

— Das Tulherias ao Luxemburgo não há senão a distância que separa a realeza do pariato, não é longe. Não tarda que chovam balas.

Depois olhou para a nuvem.

— A chuva também não tarda em cair; o céu tomou parte nisto, o amo mais novo está condenado. Vamos para casa depressa.

— Queria ver os cisnes comer o bolo — disse o pequeno.

O pai respondeu:

— Seria uma imprudência, menino.

E arrastou atrás de si aquela tenra vergôntea da burguesia.

O pequeno, com saudades dos cisnes, foi sempre olhando para trás, até que numa curva do jardim deixou de ver o lago.

Entretanto, e ao mesmo tempo que os cisnes, nham-se os dois pequenitos vagabundos aproximado do bolo, o mais crescido olhava para o burguês que se afastava.