Os Miseráveis
X — Onde se explica como Javert bateu o monte e não encontrou caça
— Mas diga-me — tornou Fauchelevent — como diabo foi que entrou aqui, senhor Madelaine? O senhor é um santo, porque se fosse homem... Aqui não entram homens.
— Mas você está aqui.
— Sou o único.
— Não obstante — tornou Jean Valjean — é indispensável que eu aqui fique.
— Jesus! Como há-de ser isso!? — exclamou Fauchelevent.
Jean Valjean aproximou-se mais do velho e disse-lhe no tom mais grave:
— Salvei-lhe a vida, senhor Fauchelevent.
— Fui eu quem me lembrei disso primeiro — respondeu ele.
— Pois bem, hoje pode prestar-me o mesmo serviço que eu já lhe prestei.
Fauchelevent tomou em suas velhas mãos encarquilhadas e trémulas as duas mãos robustas e vigorosas de Jean Valjean e ficou por alguns segundos como se não pudesse
falar. Por fim, exclamou:
— Seria a bênção de Deus eu pagar-lhe um tal bene cio, salvar-lhe a vida! Senhor maire, disponha à sua vontade do pobre velho, e não o poupe!
O pobre homem parecia transfigurado pela admirável alegria que se lhe via no rosto.
— O que quer que se faça? — continuou ele.
— Depois lhe explicarei tudo. Diga-me: tem um quarto?
— Tenho uma barraca isolada, ali por detrás das ruínas do convento velho, num recanto que ninguém vê. Tem três casinhas.
A barraca estava, com efeito, tão bem oculta pelas ruínas e tão bem disposta para que ninguém a visse, que Jean Valjean não a notara.
— Bem — disse Jean Valjean. — Agora peço-lhe duas coisas.
— Quais são, senhor maire?
— Em primeiro lugar não dizer a ninguém o que sabe a meu respeito; depois não fazer a menor diligência para saber mais do que sabe.
— Pode estar certo de que farei o que deseja. Sei muito bem que não pode fazer nada que não seja honesto, e que tem sido sempre muito boa pessoa. E depois, foi o senhor quem aqui me acomodou; pode dispor de mim.
— Então venha comigo. Vamos buscar a criança.
— Ah! — disse Fauchelevent. — Tem uma criança.
E, sem acrescentar nem mais uma palavra, seguiu Jean Valjean, qual cão seguindo seu dono.
Não decorrera ainda meia hora e já Cose e, tendo readquirido a sua cor rosada na frente de um bom lume, dormia na cama do velho jardineiro; Jean Valjean nha já posto a gravata e ves do a sobrecasaca; enquanto Jean Valjean ves a a sobrecasaca, Fauchelevent rara a joelheira em que estava preso o guizo e pendurara-o num prego que havia na parede, servindo-lhe de ornamento.
Os dois homens aqueciam-se encostados a uma mesa, sobre a qual Fauchelevent pusera um bocado de queijo, pão negro, uma garrafa de vinho e dois copos. O velho dizia a Jean Valjean, descansando-lhe a mão sobre o joelho:
— Ah, senhor Madelaine, não me conheceu logo! Salva-nos a vida e depois esquece-se da gente? É muito mal feito, é ser ingrato! Eu nunca me esqueci do senhor Madelaine!
X — Onde se explica como Javert bateu o monte e não encontrou caça Os acontecimentos de que acabamos de ver, para assim dizer, o reverso, nham-se realizado nas condições mais simples.
Quando Jean Valjean, na própria noite do dia em que Javert o prendeu junto do leito mortuário de Fan ne, fugiu da cadeia Municipal de Montreuil-sur-mer, a polícia supôs que o forçado evadido se deveria dirigir para Paris. Paris é um pego em que tudo se perde; tudo desaparece naquele centro do mundo como no meio do oceano.
Floresta alguma oculta um homem como aquela mul dão; e não há fugi vo de espécie nenhuma que o não saiba. Vão para Paris como para um sorvedouro; há sorvedouros que salvam. A polícia sabe-o também e por isso é em Paris que vai procurar o que perdeu noutra parte. Assim, foi ali procurar o ex- maire. Javert foi chamado a Paris
a fim de esclarecer as pesquisas. Javert contribuiu poderosamente, com efeito, para que se encontrasse Jean Valjean; o seu zelo nesta ocasião foi notado pelo senhor Chaboillet, secretário da prefeitura, no tempo do conde de Angles.
O senhor Chabouillet, que já por vezes protegera Javert, fez com que ele ficasse servindo na prefeitura de Paris. Ali tornou-se Javert, de diversos modos, digamo-lo, ainda que a frase pareça inesperada para semelhantes serviços, honrosamente útil.
Não pensara mais em Jean Valjean esta espécie de cães sempre à caça, esquecem o lobo de ontem pelo de hoje quando em Dezembro de 1843, leu um periódico, ele que nunca lia periódicos; mas Javert, homem monárquico, vera interesse em conhecer os pormenores da entrada triunfal do «príncipe generalíssimo» em Bayona. Quando chegava ao fim do ar go que o interessava, a atenção foi-lhe atraída por um nome que se lhe deparou no fim da página; era o nome de Jean Valjean. O periódico anunciava a morte do forçado Jean Valjean e publicava o facto em termos tão precisos que não podiam deixar a Javert a mínima dúvida. Limitou-se a dizer: aquilo é que era têmpera.
E pondo o periódico de parte não pensou mais em semelhante coisa.
Sucedeu que algum tempo depois apareceu uma nota da polícia transmi da pela prefeitura de Seine-et-Oise à prefeitura de Paris, sobre o roubo de uma criança, que fora efectuado, segundo diziam, em circunstâncias par culares, no concelho de Mon ermeil.
Uma rapariguinha de sete a oito anos, dizia a nota, confiada por sua mãe a um estalajadeiro daqueles sí os fora roubada por um desconhecido; esta pequena nha o nome de Cose e e era filha de uma meretriz chamada Fan ne, falecida no hospital, não se sabia quando nem onde. Esta nota foi vista por Javert e tornou-o pensativo.
O nome de Fan ne era-lhe muito conhecido. Recordara-se de que Jean Valjean lhe provocara o riso, a ele, Javert, pedindo-lhe uma espera de três dias para ir buscar a filha daquela criatura. Recordou-se de que Jean Valjean fora preso em Paris no momento em que subia para a diligência de Montfermeil.
Algumas indicações nham mesmo feito pensar, naquela época, que era a segunda vez que ele entrava para a mesma diligência e que já na véspera nha efectuado uma excursão pelos arredores da aldeia, por isso que o não nham visto no povoado. O que ia ele fazer a Mon ermeil? Ninguém o podia adivinhar, Javert, em presença da nota da polícia, compreendeu tudo. Era ali que estava a filha de Fantine.
Jean Valjean ia procurá-la. Ora, esta criança fora roubada por um desconhecido; quem poderia ele ser? Seria Jean Valjean? Mas Jean Valjean morrera. Sem dizer coisa alguma a ninguém, Javert tomou lugar na carruagem do Prato de estanho, no beco sem saída da Planchette, e dirigiu-se a Montfermeil.
Esperava encontrar ali grandes esclarecimentos, mas só achou trevas.
Durante os primeiros dias, os Thenardier, despeitados, nham dado à língua. O
desaparecimento da Cotovia causara sensação na aldeia. Tinham-se divulgado logo em seguida muitas versões da história, que acabava pelo roubo de uma criança.
Fora de tudo isto que resultara a nota da polícia. Entretanto, passada a primeira impressão, Thenardier, com o seu admirável ins nto, compreendera rapidamente que não havia nunca a mínima u lidade em incomodar o procurador-régio, e que as suas
queixas acerca do rapto de Cose e teriam por primeiro resultado o atraírem sobre ele, Thenardier, e sobre muitos dos seus negócios intrincados, os penetrantes olhos da justiça.
A primeira coisa que os mochos não querem é que lhes apresentem a luz. E depois, como se sairia ele da história dos mil e quinhentos francos que recebera?
Recuou, pois, pôs uma mordaça na boca de sua mulher e passou a mostrar-se muito admirado quando lhe falavam da criança roubada. Não percebia nada: sem dúvida nha-se queixado no primeiro momento de que lhe roubassem tão cedo aquela querida criancinha; quisera, pelo amor que lhe consagrava, tê-la ainda consigo dois ou três dias; mas fora seu avô quem muito naturalmente a levara. A isto nha ele acrescentado que o avô fizera muito bem.
Foi esta a história que Javert encontrou quando chegou a Mon ermeil. Aquele avô fazia desaparecer Jean Valjean.
Javert, contudo, quais sondas, mergulhou algumas perguntas na história contada por Thenardier:
— Quem era o tal avô? Como se chamava?
Thenardier respondeu com a maior simplicidade:
— É um lavrador muito rico: eu vi-lhe o passaporte e parece-me que se chama Guilherme Lambert.
Lambert era um nome de homem de bem e que não tinha nada de suspeito.
Javert voltou para Paris.
«Sou um alarve», disse ele consigo. «Jean Valjean morreu com efeito».
E tornara a esquecer-se de toda aquela história, quando, no decurso de Março de 1824, ouviu falar dum personagem extravagante que morava na freguesia de S. Médard, e a quem apelidavam o pobre que dava esmolas. Este personagem, segundo diziam, era um rendeiro, cujo nome ninguém sabia ao certo, que nha na sua companhia uma rapariguinha de sete a oito anos, a qual não sabia também dizer senão que viera de Montfermeil. Montfermeil! Este nome, tornando assim a aparecer, desafiou a atenção de Javert. Um velho mendigo espião, ex-bedel, a quem o tal personagem costumava dar esmola, acrescentava alguns outros pormenores. O tal rendeiro era quase intratável, nunca saía de casa senão de noite, não falava em geral com pessoa alguma, poucas vezes com os pobres; e assim mesmo conservava-se sempre em certa distância. Usava uma horrível sobrecasaca amarela que valia muitos milhões, por isso que era toda forrada de notas do Banco. Tudo isto excitou a curiosidade de Javert, que quis ver de perto a fantás ca criatura sem que a assustasse. Para isso pediu ao velho bedel que lhe emprestasse o fato e o lugar em que todos os dias se sentava resmungando orações e espionando através da devoção.
O «indivíduo suspeito» dirigiu-se, pois, a Javert, assim disfarçado e deu-lhe a esmola: neste momento, Javert levantou a cabeça e o estremecimento que Jean Valjean sen u julgando reconhecer Javert, sentiu-o este igualmente julgando reconhecer Jean Valjean.
Entretanto, a escuridão poderia tê-lo enganado; a morte de Jean Valjean era oficial; portanto, nham ficado a Javert graves dúvidas; e em estado de dúvida, sendo, como
era, escrupuloso, não lançava a mão a ninguém.
Seguiu o homem até à casa de Gorbeau e fez falar a velha, o que não foi nada di cil. A velha confirmou-lhe o caso da sobrecasaca forrada de milhões e contou-lhe o episódio da nota de mil francos. Ela própria nha visto o forro da sobrecasaca, nha-o apalpado!
Javert alugou um quarto e entrou para ele nessa mesma noite. Foi escutar à porta do misterioso inquilino, esperando ouvir-lhe o som da voz, mas Jean Valjean lobrigou a luz pelo buraco da fechadura e iludiu a esperança do espião conservando-se silencioso.
No dia seguinte, Jean Valjean deixou o quarto que habitava. Mas o ruído produzido pela moeda de cinco francos caindo no chão foi notado pela velha, que ouvindo mexer em dinheiro, suspeitou que iriam sair e apressou-se em avisar Javert. À noite, quando Jean Valjean saiu, Javert, com dois homens, esperava-o por detrás das árvores do boulevard.
Javert pedira auxílio à prefeitura, mas não declarara o nome do indivíduo que queria prender. Era o seu segredo e guardara-o por três razões: primeiro, porque a menor indiscrição poderia servir de aviso a Jean Valjean; segunda, porque lançar a mão a um velho forçado evadido e reputado morto, a um condenado a quem noutro tempo a jus ça classificara entre os malfeitores da mais perigosa espécie, era um magnífico feito, que os an gos agentes da polícia parisiense não deixariam decerto a um recém-chegado como Javert, e ele receava que por isso lhe empalmassem o seu forçado, e enfim, porque sendo Javert um ar sta, nha pronunciado gosto por tudo quanto era imprevisto.
Odiava os come mentos anunciados e que perdem o efeito por se falar deles antecipadamente. Tinha todo o empenho em elaborar as suas obras-primas na sombra, para depois as patentear inopinadamente.
Javert seguira Jean Valjean de árvore em árvore, depois de esquina em esquina, e não o perdera de vista um só instante; mesmo nos momentos em que Jean Valjean se julgara em maior segurança, não se nham afastado dele os olhos de Javert. Porque não o prendeu logo? Era porque ainda duvidava.
Convém não esquecer que a polícia, naquela época, não se achava à sua vontade: a liberdade de imprensa incomodava-a. Algumas prisões arbitrárias denunciadas pelos periódicos, nham ressoado nas câmaras e haviam tornado mida a prefeitura. Atentar contra a liberdade individual era um caso grave.
Os agentes da polícia receavam enganar-se; o prefeito reportava-se a eles; um engano equivalia à demissão. Imagine-se, por exemplo, o efeito que teria produzido em Paris esta local, reproduzida por vinte periódicos: «Ontem, um velho respeitável, coberto de cabelos brancos, um honrado capitalista que andava passeando com uma neta de oito anos, foi preso e conduzido ao depósito da prefeitura como forçado evadido!»
Além disso, repe mos, Javert nha os seus escrúpulos; as recomendações da consciência juntavam-se às do prefeito. Duvidava realmente.
Jean Valjean ia de costas voltadas caminhando na escuridão.
A tristeza, o desassossego, a ansiedade, o acabrunhamento, este novo infortúnio de se ver obrigado a fugir de noite e a procurar um asilo ao acaso para ele e para Cose e, a necessidade de regular o seu passo pelo de uma criança, tudo isto lhe nha, mesmo sem ele o saber, mudado tanto os modos e impresso neles tal senilidade, que até a própria polícia, incarnada em Javert, podia enganar-se e enganou-se. A impossibilidade de se chegar muito a ele, o seu trajo de velho preceptor emigrado, a declaração de Thenardier que o fazia avô de Cose e, finalmente o acreditar-se que ele nha morrido nas galés, acrescentavam ainda mais as incertezas que a Javert se lhe amontoavam no espírito.
Javert teve um momento a ideia de se chegar ao pé dele e perguntar-lhe de chofre pelos seus papéis, pois se aquele homem não era Jean Valjean, se não era algum velho e honrado rendeiro, era, provavelmente, algum gatuno profunda e gravemente envolvido na obscura trama dos delitos parisienses, algum perigoso chefe de quadrilha, que dava esmolas para ocultar as outras habilidades que nha, manha há muito usada. Aquele homem nha sócios, cúmplices, esconderijos, onde decerto ia refugiar-se. Todos aqueles rodeios que ele fazia pelas ruas pareciam indicar que não era um simples velho. Prendê-lo de chofre, porém, era «matar a galinha dos ovos de ouro».
Que inconveniente havia em esperar, se Javert estava seguríssimo de que ele lhe não escaparia?
Caminhava, pois, sobremodo perplexo, fazendo a si mesmo cem perguntas sobre aquele personagem enigmático.
Só mais adiante, porém, na rua de Pontoise, foi que ele, em virtude do vivo clarão que saía de dentro de uma taberna, conheceu decididamente Jean Valjean.
Há neste mundo duas qualidades de entes que estremecem profundamente a mãe que depara com o filhinho e o gre que depara com a presa. Javert sen u este estremecimento profundo.
Apenas conheceu posi vamente Jean Valjean o temível forçado reparou que eram só três e mandou pedir reforço ao comissário de polícia da rua de Pontoise. Antes de se deitar a mão a uma vara de espinheiro, calçam-se luvas primeiro.
Esta demora e a paragem que fizera no beco de Rollin, a combinar com os seus agentes, es veram para lhe fazer perder o rasto do fugi vo. Javert, todavia, logo adivinhou que Jean Valjean havia de querer meter o rio de permeio entre ele e os seus perseguidores, e inclinando a cabeça a reflec r, como um sabujo que põe o focinho no chão para a nar com o caminho, dirigiu-se direito para a ponte de Austerlitz, guiado pela poderosa certeza do seu ins nto. Bastou-lhe uma palavra ao homem ali empregado para se orientar sobre o caminho que levava o fugitivo.
— Viu passar por aqui um homem com uma pequena?
— Agora mesmo lhe fiz pagar dois soldos — respondeu o interpelado.
Javert chegou à ponte ainda a tempo de ver do outro lado do rio, Jean Valjean com Cose e pela mão, atravessando o largo iluminado pelo luar. Viu-o entrar na rua do Caminho Verde de Santo António, e lembrando-se do beco de Genrot, disposto como uma ratoeira e da única saída da rua do Muro Direito para a viela do Picpus, mandou à pressa de volta um dos seus agentes a guardá-la, «cercando-lhe a volta», como dizem os caçadores. A este tempo, sucedendo passar uma patrulha que se recolhia à casa da guarda do Arsenal, requisitou-a e fez-se acompanhar dela. Neste jogo os soldados são trunfos. Além disso, é ponto assente que para agarrar um javali é necessário ser bom
caçador e levar boa ma lha. Combinadas estas disposições, pressen ndo Jean Valjean assim encurralado entre o beco de Genrot pela direita, o seu agente pela esquerda e ele por trás, tomou sossegadamente uma pitada e depois principiou a brincar. Aquele homem teve um momento de infernal transporte; deixou caminhar o seu homem adiante de si, sabendo que o nha seguro, mas desejando demorar o mais possível o momento de o prender, sen ndo um incomensurável prazer em o ver livre e tê-lo preso, devorando-o com a vista com essa voluptuosidade da aranha que deixa esvoaçar a mosca e do gato que deixa correr o rato. A garra e a unha têm uma sensualidade monstruosa — é o movimento obscuro do animal preso entre as suas tenazes. Que delícia aquela estrangulação!
Javert gozava. As malhas da sua rede estavam solidamente atadas e ele certo do sucesso: agora não tinha mais do que fechar a mão.
Acompanhado como estava, até a simples e única ideia de resistência era impossível, por mais enérgico e vigoroso que fosse Jean Valjean, por mais desesperado que ele pudesse sentir-se.
Javert con nuou, pois, caminhando sempre, sondando e pesquisando, ao passar, todos os recantos da rua, como o faria aos bolsos de um ladrão.
Ao chegar, porém, ao meio da teia, não encontrou a mosca.
Imagine-se o seu desespero!
Interrogou a sua vigia das ruas do Muro Direito e de Picpus, porém, o agente, que ficara imperturbável no seu posto, não vira passar o homem.
Sucede às vezes escapar-se um veado, posto que com a ma lha no encalço, e então os mais experientes caçadores não sabem o que hão-de dizer. Duvivier, Ligniville e Desprez sentem-se atónitos. Num mau sucesso deste género exclamou Artonge: Não é um veado, é um feiticeiro. Javert de bom grado teria soltado o mesmo grito.
O seu desapontamento participava do desespero e do furor.
É certo que Napoleão cometeu faltas na guerra da Rússia, que Alexandre as cometeu na guerra da Índia, César na guerra da África, Cyro na guerra da Scythia e que Javert as cometeu nesta campanha contra Jean Valjean. Talvez fizesse mal em não conhecer logo o antigo forçado, pois devia bastar-lhe o primeiro relancear de olhos.
Fez mal em não o prender pura e simplesmente no casebre. Fez mal em não o prender quando posi vamente o conheceu na rua de Pontoise. Fez mal em se pôr a conferenciar com os seus auxiliares ao luar do beco de Rollin, pois é certo que os avisos são úteis e que é bom conhecer e interrogar os dos cães que merecem crédito; porém, por mais precauções que o caçador tome, nunca estas são demasiadas, quando anda à caça de animais desconfiados, como o lobo e o forçado.
Javert, ocupando-se de mais em orientar sobre o caminho os sabujos da ma lha, deu rebate ao animal, que conheceu pelo faro o que se lhe preparava e deitou a fugir.
Ele fez mal, sobretudo em se levar, apenas deu com o rasto na ponte de Austerlitz, do pueril gosto de brincar com semelhante homem, brinco temível, que consis a em o ter seguro pela ponta de um fio, julgando-se deste modo mais forte do que era e supondo poder brincar com um leão como quem brinca com um rato, ao mesmo tempo que se
supusera fraco de mais, quando julgara necessário reclamar auxílio, precaução fatal, perda de um tempo precioso. Javert cometeu todas estas faltas, e nem por isso deixava de ser um dos espiões mais sábios e correctos que têm exis do. Javert era, em toda a extensão da palavra, o que os caçadores chamam um cão fino. Mas que há neste mundo que seja perfeito?
Os grandes estrategas também têm seus eclipses.
De ordinário, as grandes asneiras são, como as cordas grossas, formadas de uma mul dão de fios. Pegai na corda e desfiai-a, tomai separadamente todos os pequenos mo vos determinantes, e direis, quebrando-os um a um: «Pois é só isto!» Entrançai-os, porém, e torcei-os todos, e ficar-vos-á uma enormidade; será Á la hesitando entre Marciano no Oriente e Valen niano no Ocidente; será Aníbal demorando-se em Capua, Danton adormecendo em Arcis-sur-Aube. Seja, porém, o que for, Javert, mesmo no momento em que conheceu que Jean Valjean lhe escapava, não ficou fora de si. Certo de que o forçado refractário não poderia estar muito longe, estabeleceu espias, organizou ratoeiras e emboscadas, e toda a noite bateu aqueles sí os. A primeira coisa que ele viu foi a desordem do lampião, que nha a corda quebrada. Indício precioso, que, todavia, o enganou, fazendo-o desviar todas as pesquisas para o beco de Genrot. Há neste beco paredes sobremodo baixas, que dão para jardins que vão terminar em imensos terrenos incultos. Jean Valjean, pois, com toda a certeza devia ter fugido por aquele lugar. O facto é que, se ele vesse penetrado mais dentro do beco de Genrot, decerto o faria e estava perdido.