Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 171 de 359

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Os Miseráveis

II — Oração fúnebre de Blondeau, por Bossuet

conjunção e; a sua existência não lhes é própria; são o lado oposto de um des no que lhes não pertence. Grantaire era um desses homens; era o inverso de Enjolras.

Quase poderíamos dizer que as afinidades principiaram pelas letras do alfabeto. Na série delas O e P são inseparáveis. Podeis, se vos aprouver, pronunciar O e P, ou Orestes e Pylades.

Grantaire, verdadeiro satélite de Enjolras, frequentava também aquele centro de mancebos; entre eles vivia, só com eles se sen a bem, seguia-os para toda a parte. O seu maior prazer era ver os variados movimentos daquelas figuras, através dos vapores do vinho. O seu génio folgazão fazia com que o tolerassem entre eles.

Enjolras, crente, fazia pouco caso deste cép co, e, sóbrio, desprezava este bêbado.

Sen a apenas por ele alguma compaixão al va. Grantaire era um Pylades mal aceito.

Sempre maltratado por Enjolras, repelido com dureza, expulso, mas voltando sempre, dizia de Enjolras: «Que belo mármore!»

II — Oração fúnebre de Blondeau, por Bossuet

Numa tarde, que de tal ou qual modo coincidia com os factos que há pouco contámos, estava Laigle de Meaux sensualmente encostado à ombreira da porta do café Musain, com ar de cariátide em descanso, pois a única coisa que sustentava eram as suas cogitações. Os seus olhares divagavam pela praça de S. Miguel. Estar encostado é um modo de estar deitado de pé que não desgostam os pensadores. Laigle de Meaux pensava, sem melancolia, num pequeno contratempo que lhe nha sucedido na antevéspera na aula de direito e que modificava os seus planos pessoais de futuro, planos aliás bastante indefinidos.

Estar alguém meditando não obsta a que passe um cabriole, nem a que dê fé da sua passagem quem medita. Laigle de Meaux, pois, cujos olhos divagavam incertos por todos os objectos que o cercavam, avistou por entre o seu sonambulismo um veículo de duas rodas, movendo-se pela praça vagarosamente e como que indeciso.

Que cabriole era aquele? Porque ia assim devagar? Laigle passou-o em revista, e viu dentro, ao lado do cocheiro, um mancebo, e diante do mancebo um saco de viagem bastante volumoso. Num papel cosido na fazenda do saco podia quem passava ler estas palavras escritas em grandes letras pretas: MÁRIO PONTMERCY.

Este nome fez Laigle mudar de a tude. Endireitou-se e exclamou para o mancebo do cabriole:

— Senhor Mário Pontmercy!

O cabriole parou e o mancebo interpelado, que parecia ir também abismado em profunda cogitação, voltou a cabeça.

— Heim? — disse ele.

— É o senhor Mário Pontmercy?

— Sim, senhor.

— Pois eu andava à sua procura — tornou Laigle de Meaux.

— Como assim? — perguntou Mário, pois era ele, efec vamente, que saía de casa do avô, achando-se em presença de uma figura que via pela primeira vez. — Eu não o conheço.

— Nem eu tão-pouco — respondeu Laigle.

Mário julgou-se em presença de algum farsante e supôs-se em princípio alvo de uma mis ficação no meio da rua. O mancebo, que naquela ocasião não estava do melhor humor, franziu o sobrolho, porém, Laigle de Meaux prosseguiu imperturbável:

— O senhor não estava antes de ontem na aula?

— É possível.

— É certo.

— O senhor é estudante? — perguntou Mário.

— Sim, senhor. Também sou. Antes de ontem entrei na sala por acaso. O senhor bem sabe que às vezes a gente tem destas manias. Estava o lente a principiar a apontar. Sabe como eles presentemente estão ridículos neste ponto; à terceira chamada, não se estando presente, riscadela no caso e lá vão sessenta francos pela água abaixo!

Mário principiava a escutar. Laigle continuou:

— Quem fazia a chamada era Blondeau. Conhece Blondeau. Tem um malicioso nariz de verruma que gosta imenso de farejar os ausentes. Principiou disfarçadamente pela letra P, do que eu não fiz caso, porque não estava compreendido nesta letra. A chamada não ia mal. Estava tudo presente, por consequência riscado nem um só, o que enchia de tristeza aquela cândida alma de Blondeau. Eu dizia com os meus botões: «Blondeau, meu amor, hoje não fazes a mais pequena execução». De repente, Blondeau chama: Mário Pontmercy! Não responde ninguém. Blondeau, cheio de esperança, repete com mais força: Mário Pontmercy! É pega na pena. Eu, que tenho bom coração, ao ver aquilo, disse comigo: «Aí vai ser riscado um belo moço. Atenção. É algum pândego de lei, com que estes senhores embirram, porque não está para os aturar. Não é nenhum estudante que estuda, nenhum pé de banco, nenhum pedante, massudo em letras, em teologia e sapiência, nenhum desses parvos que querem passar por Petrus in cunc s. É algum respeitável preguiçoso, que anda à tuna, que embirra com o direito, que cul va a grisette, que faz a corte às damas, que a esta hora talvez se acha em casa da minha amante. Salvemo-lo! Morra Blondeau! Neste momento molhava Blondeau a pena na nta com que faz os seus admiráveis rabiscos, passeava os ferozes olhos pelo auditório e repe a pela terceira vez: Mário Pontmercy! Presente! respondi eu então; e o senhor não foi riscado.

— Oh! Senhor... — disse Mário.

— Mas fui-o eu! — acrescentou Laigle de Meaux.

— Não percebo — replicou Mário.

— Pois é bom de perceber. Eu nha-me posto ao pé da cadeira para responder e ao pé da porta para me pirar. O lente tinha os olhos cravados em mim. De súbito, Blondeau, que deve ter o maligno nariz de que fala Boileau, salta à letra L, que é a minha letra. Eu sou de Meaux e chamo-me Lesgle.