Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 189 de 359

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Os Miseráveis

VIII — Até os próprios inválidos podem ser felizes

O mancebo, porém, não dava importância a estes sintomas. Da fase da midez

passara, por uma progressão natural, mas nem por isso menos fatal, à fase da cegueira.

Só conhecia que o seu amor aumentava de dia a dia e que de noite não era outro o objecto constante dos seus sonhos. Para maior desgraça, sucedera-lhe uma aventura inesperada, que foi como um deitar pólvora no lume, um espessar-se-lhe mais a venda que já lhe tapava os olhos. Uma tarde, à luz crepuscular que lhe povoava o espaço de visões etéreas, encontrou no banco em que «o senhor Leblanc e sua filha» costumavam estar sentados, um lenço sem bordados nem lavores, mas branco, fino, que lhe pareceu rescender inefáveis aromas. Apoderou-se dele com transporte e viu que estava marcado com as iniciais U. F.; Mário nada sabia daquela graciosa jovem, nem a respeito da sua família, nem do seu nome, nem da sua morada; eram aquelas duas letras a primeira coisa que a respeito dela colhia, duas iniciais adoráveis, sobre as quais imediatamente começou a construir castelos movediços a qualquer empuxão da realidade. U, com certeza, era o nome de baptismo.

— Úrsula! — disse ele a sós consigo. — Que delicioso nome!

E após haver beijado, aspirado, sorvido em sôfregos aulos os olores perfumados daquele tão simples, tão desornado lenço, colocou-o junto ao coração, junto à carne, de dia, e à noite sobre os lábios, para que mesmo dormindo lhe coassem bem dentro os eflúvios rescendentes daquela amorosa relíquia.

— Sinto a alma dela neste lenço! — exclamava ele.

Aquele lenço tão apaixonadamente arrecadado pelo enamorado mancebo era do velho, que por inadvertência o deixara cair do bolso.

Nos dias que se seguiram ao precioso achado, o mancebo aparecia sempre no Luxemburgo beijando o lenço e apertando-o contra o coração. A graciosa jovem não o percebia naquela linguagem muda da sua paixão e disso o adver a por meio de sinais imperceptíveis.