Os Miseráveis
IX — O homem do guizo
A criança não abriu os olhos. Sacudiu-a energicamente. A pobrezinha não se moveu.
«Estará morta?» pensou ele; e ergueu-se, tremendo como varas verdes.
Então atravessaram-lhe o espírito, em medonho turbilhão, as ideias mais medonhas.
Há momentos em que somos assaltados por toda a espécie de Ideias hediondas, ideias que nos penetram violentamente no cérebro, qual mul dão de fúrias. Quando se trata daqueles que amamos, a nossa prudência inventa toda a espécie de loucuras.
Jean Valjean lembrou-se de que o sono ao relento pode ser mortal numa noite fria.
Cose e, extremamente pálida, tornara a cair no chão, depois dele a ter sacudido, sem fazer o mínimo movimento.
Chegou-lhe o ouvido ao rosto e ouviu-lhe a respiração, mas tão fraca que parecia próxima a extinguir-se. Como a aqueceria? Como conseguiria acordá-la?
Tudo o que não era isto se lhe apagou do pensamento; em seguida precipitou-se
desorientado para fora do pardieiro.
Era absolutamente indispensável que antes de um quarto de hora, Cose e es vesse numa cama, e próxima de um bom lume.
IX — O homem do guizo
Levando na mão o rolo de prata que nha no bolso do colete, Jean Valjean caminhou direito ao homem que andava no jardim.
O homem nha a cabeça baixa e não o viu aproximar-se. Em poucas passadas, Jean Valjean chegou junto dele e disse em voz alta:
— Cem francos!
O homem quase deu um salto e ergueu os olhos.
— Ganha cem francos — tornou Jean Valjean — se me der asilo para esta noite!
O luar iluminava de frente o rosto espantado de Jean Valjean.
— Ora esta! — exclamou o homem. — É o senhor Madelaine.
Este nome assim pronunciado, a semelhante hora, num lugar desconhecido, por um homem tão desconhecido como ele, fez recuar Jean Valjean.
Esperava tudo menos semelhante coisa. Aquele que lhe pronunciara o nome era um velho todo curvado, coxo, ves do pouco mais ou menos como um homem do campo e com uma joelheira de coiro no joelho esquerdo, de onde pendia um grande guizo. O
rosto não se lhe distinguia na sombra.
Entretanto, tirara o boné e exclamava todo trémulo:
— Valha-me Deus! Mas como está o senhor aqui, senhor Madelaine? Por onde entrou, Cristo Santo! Só se caiu do céu! Não é isso que me espanta, porque se o senhor alguma vez cair, não pode ser doutra parte. E em que estado está! Sem gravata, sem chapéu nem casaco! Olhe que estava capaz de meter medo a quem não o conhecesse! Em mangas de camisa! Valha-me Nossa Senhora! Poderá ser que os santos também percam o juízo? Mas como foi que entrou aqui?
O velho falava com uma volubilidade campesina, que não nha nada de inquietadora.
As palavras não esperam umas pelas outras. Tudo isto era dito com a mais ingénua e estupefacta bondade.
— Quem é você e que casa é esta? — perguntou Jean Valjean.
— Essa é que é melhor! — exclamou o velho. — Eu sou aquele que o senhor aqui acomodou, e esta é a casa que o senhor me obteve para servir. O quê? Pois não me conhece! Não se lembra de mim?!
— Não me lembro — disse Jean Valjean. — Mas como é que você me conhece?
— Conheço-o porque o senhor me salvou a vida — disse o homem.
Dizendo isto, voltou-se um pouco, o luar desenhou-lhe o perfil e Jean Valjean reconheceu o velho Fauchelevent.
— Ah! — disse Jean Valjean. — Agora é que o conheço!
— Com efeito! — disse o velho num certo tom de repreensão.
— Mas que anda fazendo aqui? — tornou Jean Valjean.
— Ando a cobrir os meus melões.
O velho Fauchelevent nha com efeito, na mão, no momento em que Jean Valjean se
lhe aproximou, um pedaço de esteira que estava estendendo sobre o meloal.
Já assim estendera um certo número doutras desde que chegara ao quintal havia uma hora.
Fauchelevent continuou:
— Disse comigo: o luar está claro, vai decerto cair geada; se eu fosse cobrir os meus melões com os seus capotes? — E acrescentou, olhando a rir para Jean Valjean: — Com a fortuna! O senhor precisava que lhe fizesse outro tanto. Mas como é que se acha aqui?
Jean Valjean vendo-se conhecido por aquele homem, pelo menos sob o nome de Madelaine, não avançava senão com a maior precaução, mul plicando cada vez mais as perguntas. Extraordinária coisa! Os papéis estavam inver dos. Era ele, intruso, quem interrogava.
— O que quer dizer esse guizo que trás no joelho?
— Isto? — respondeu Fauchelevent. — É para que fujam de mim.
— Para que fujam? Não percebo!
O velho Fauchelevent piscou um olho com inexplicável expressão.
— Ora! É que nesta casa não há senão mulheres e muitas meninas; pelos modos é perigoso que me encontrem, por isso trago o guizo para as avisar. Quando eu chego vão-se elas.
— Mas que casa é esta?
— Ora essa! O senhor sabe-o muito bem.
— Não sei, decerto.
— Pois se foi o senhor quem aqui me arranjou o lugar de jardineiro?
— Responda-me como se eu não soubesse nada.
— Então sempre lho digo; é o convento do Petit-Picpus.
Jean Valjean ia reunindo as recordações. O acaso, isto é, a Providência, lançava-o precisamente no convento do bairro de Santo António, onde o velho Fauchelevent, estropiado pela queda da sua carroça, fora admi do como jardineiro por sua recomendação, havia dois anos. Lembrando-se de tudo isto, repe u como falando consigo mesmo:
— O convento do Petit-Picpus!