Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 116 de 359

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Os Miseráveis

IX — O homem do guizo

A criança não abriu os olhos. Sacudiu-a energicamente. A pobrezinha não se moveu.

«Estará morta?» pensou ele; e ergueu-se, tremendo como varas verdes.

Então atravessaram-lhe o espírito, em medonho turbilhão, as ideias mais medonhas.

Há momentos em que somos assaltados por toda a espécie de Ideias hediondas, ideias que nos penetram violentamente no cérebro, qual mul dão de fúrias. Quando se trata daqueles que amamos, a nossa prudência inventa toda a espécie de loucuras.

Jean Valjean lembrou-se de que o sono ao relento pode ser mortal numa noite fria.

Cose e, extremamente pálida, tornara a cair no chão, depois dele a ter sacudido, sem fazer o mínimo movimento.

Chegou-lhe o ouvido ao rosto e ouviu-lhe a respiração, mas tão fraca que parecia próxima a extinguir-se. Como a aqueceria? Como conseguiria acordá-la?

Tudo o que não era isto se lhe apagou do pensamento; em seguida precipitou-se

desorientado para fora do pardieiro.

Era absolutamente indispensável que antes de um quarto de hora, Cose e es vesse numa cama, e próxima de um bom lume.

IX — O homem do guizo

Levando na mão o rolo de prata que nha no bolso do colete, Jean Valjean caminhou direito ao homem que andava no jardim.

O homem nha a cabeça baixa e não o viu aproximar-se. Em poucas passadas, Jean Valjean chegou junto dele e disse em voz alta:

— Cem francos!

O homem quase deu um salto e ergueu os olhos.

— Ganha cem francos — tornou Jean Valjean — se me der asilo para esta noite!

O luar iluminava de frente o rosto espantado de Jean Valjean.

— Ora esta! — exclamou o homem. — É o senhor Madelaine.

Este nome assim pronunciado, a semelhante hora, num lugar desconhecido, por um homem tão desconhecido como ele, fez recuar Jean Valjean.

Esperava tudo menos semelhante coisa. Aquele que lhe pronunciara o nome era um velho todo curvado, coxo, ves do pouco mais ou menos como um homem do campo e com uma joelheira de coiro no joelho esquerdo, de onde pendia um grande guizo. O

rosto não se lhe distinguia na sombra.

Entretanto, tirara o boné e exclamava todo trémulo:

— Valha-me Deus! Mas como está o senhor aqui, senhor Madelaine? Por onde entrou, Cristo Santo! Só se caiu do céu! Não é isso que me espanta, porque se o senhor alguma vez cair, não pode ser doutra parte. E em que estado está! Sem gravata, sem chapéu nem casaco! Olhe que estava capaz de meter medo a quem não o conhecesse! Em mangas de camisa! Valha-me Nossa Senhora! Poderá ser que os santos também percam o juízo? Mas como foi que entrou aqui?

O velho falava com uma volubilidade campesina, que não nha nada de inquietadora.

As palavras não esperam umas pelas outras. Tudo isto era dito com a mais ingénua e estupefacta bondade.

— Quem é você e que casa é esta? — perguntou Jean Valjean.

— Essa é que é melhor! — exclamou o velho. — Eu sou aquele que o senhor aqui acomodou, e esta é a casa que o senhor me obteve para servir. O quê? Pois não me conhece! Não se lembra de mim?!

— Não me lembro — disse Jean Valjean. — Mas como é que você me conhece?

— Conheço-o porque o senhor me salvou a vida — disse o homem.

Dizendo isto, voltou-se um pouco, o luar desenhou-lhe o perfil e Jean Valjean reconheceu o velho Fauchelevent.

— Ah! — disse Jean Valjean. — Agora é que o conheço!

— Com efeito! — disse o velho num certo tom de repreensão.

— Mas que anda fazendo aqui? — tornou Jean Valjean.

— Ando a cobrir os meus melões.

O velho Fauchelevent nha com efeito, na mão, no momento em que Jean Valjean se

lhe aproximou, um pedaço de esteira que estava estendendo sobre o meloal.

Já assim estendera um certo número doutras desde que chegara ao quintal havia uma hora.

Fauchelevent continuou:

— Disse comigo: o luar está claro, vai decerto cair geada; se eu fosse cobrir os meus melões com os seus capotes? — E acrescentou, olhando a rir para Jean Valjean: — Com a fortuna! O senhor precisava que lhe fizesse outro tanto. Mas como é que se acha aqui?

Jean Valjean vendo-se conhecido por aquele homem, pelo menos sob o nome de Madelaine, não avançava senão com a maior precaução, mul plicando cada vez mais as perguntas. Extraordinária coisa! Os papéis estavam inver dos. Era ele, intruso, quem interrogava.

— O que quer dizer esse guizo que trás no joelho?

— Isto? — respondeu Fauchelevent. — É para que fujam de mim.

— Para que fujam? Não percebo!

O velho Fauchelevent piscou um olho com inexplicável expressão.

— Ora! É que nesta casa não há senão mulheres e muitas meninas; pelos modos é perigoso que me encontrem, por isso trago o guizo para as avisar. Quando eu chego vão-se elas.

— Mas que casa é esta?

— Ora essa! O senhor sabe-o muito bem.

— Não sei, decerto.

— Pois se foi o senhor quem aqui me arranjou o lugar de jardineiro?

— Responda-me como se eu não soubesse nada.

— Então sempre lho digo; é o convento do Petit-Picpus.

Jean Valjean ia reunindo as recordações. O acaso, isto é, a Providência, lançava-o precisamente no convento do bairro de Santo António, onde o velho Fauchelevent, estropiado pela queda da sua carroça, fora admi do como jardineiro por sua recomendação, havia dois anos. Lembrando-se de tudo isto, repe u como falando consigo mesmo:

— O convento do Petit-Picpus!