Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 235 de 359

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Os Miseráveis

I — Ferido por fora, restabelecido por dentro

cabeça para o ombro com a delicada indolência do cisne e perguntou a Jean Valjean:

— Ó meu pai, mas o que são as galés?

LIVRO QUARTO — O SOCORRO HUMANO PODE TORNAR-SE SOCORRO

DO CÉU

I — Ferido por fora, restabelecido por dentro

Assim se ia gradualmente obscurecendo a existência daquelas duas criaturas.

Restava-lhes apenas uma distracção, noutro tempo fonte de incomensuráveis prazeres levar pão aos que nham fome e roupa aos que nham frio. Nestas visitas aos pobres, visitas em que Cose e quase sempre acompanhava Jean Valjean, encontravam ambos parte, se bem que pequena, do seu an go contentamento, e havia dias, quanto maior era o número de esfomeados socorridos, de crianças reanimadas e agasalhadas, em que Cosette à noite se mostrava mais do que de ordinário jovial e satisfeita.

Foi por esse tempo que eles fizeram a sua visita ao covil dos Jondrette.

Logo no dia imediato ao daquela visita, Jean Valjean apareceu pela manhã no pavilhão, sereno como habitualmente, mas com uma grande ferida no braço esquerdo, muito inflamada e de péssimo aspecto, que parecia uma queimadura e que ele explicou do modo que primeiro lhe ocorreu. Sobreveio-lhe de tal ferida uma violenta febre que o fez estar re do em casa mais de um mês. Quando Cose e insis u com ele para mandar chamar um médico, respondeu-lhe:

— Chama o médico dos cães.

Cose e tratava-lhe da ferida pela manhã e à noite, com tão divinal modo, com tão angélico prazer de lhe ser ú l, que Jean Valjean sen a reviver-lhe toda a sua an ga alegria, dissiparem-se-lhe todos os seus temores e ansiedades, e dizia em contemplação diante da jovem:

— Há males que valem por bens. Abençoada ferida!

Ao ver seu pai doente, Cose e desertou da sua alva casinha e retomara ao pá o e casa térrea onde Jean Valjean fixara morada Aí passava junto dele os dias quase inteiros, lendo-lhe os livros que ele preferia, e que, de ordinário, eram os de viagens. Remoçava Jean Valjean com o reflorir das suas esperanças, um dia murchas e agora outra vez abertas aos raios da sua nova ventura; apagavam-se-lhe da alma as ideias do Luxemburgo, do rapaz desconhecido, do encontro certo dos seus passeios, da frieza da Cose e; varriam-se-lhe do espírito todas as nuvens que tão desastradamente nham vindo empanar lhe o brilho da sua ín ma felicidade, e chegou, por úl mo, a pensar consigo:

— Sou um velho tonto, que me pus a imaginar tolices.