Os Miseráveis
XXI — De como deveria começar-se sempre por prender as vítimas
— Depois de nós — uivaram os outros malfeitores.
— Vocês são crianças! — disse Thenardier. — Estamos a perder tempo. Olhem que temos os guitas no cachaço.
— Pois então deitemos sortes para se ver quem há-de descer primeiro.
Thenardier exclamou:
— Vocês ou estão doidos ou bêbados! Que súcia de parvos! Querem por força perder tempo, não é verdade? Querem rar sortes, não é assim? Escrever nomes, deitá-los num boné!...
— Se querem, aqui está o meu chapéu! — gritou uma voz que partia da porta.
Todos se voltaram. Era Javert.
Javert tinha o chapéu na mão e oferecia-o, sorrindo-se.
XXI — De como deveria começar-se sempre por prender as vítimas Ao anoitecer, Javert postara alguns homens nos lugares convenientes e foi-se emboscar por trás das árvores da rua da Barreira dos Gobelinos, que faz frente ao casarão Gorbeau do outro lado do boulevard. A primeira coisa a que procedeu foi abrir
«o bolso» para recolher as duas raparigas encarregadas de vigiar em roda da mansarda, porém não pudera deitar mão senão a Azelma. Quanto a Eponina, abandonara o seu posto e desaparecera, pelo que a não pôde agarrar.
Em seguida, Javert pôs-se de vigia, aplicando o ouvido ao sinal convencionado. As idas e vindas do carro nham-no sobremodo agitado. Afinal, depois de ver entrar muitos dos bandidos, impacientado pela demora e certo de pilhar os ratos na ratoeira, certo da boa colheita que ia fazer, resolveu subir sem esperar pelo convencionado ro de pistola, o que lhe não foi difícil, porque trazia consigo a gazua de Mário.
A sua chegada não podia ter sido mais apropriada.
Os bandidos, assustados, lançaram precipitadamente mão das armas que haviam abandonado pelos cantos na ocasião em que iam a evadir-se. Em menos de um segundo, aqueles sete homens, cujo aspecto amedrontava, juntaram-se num magote, numa a tude de defesa, um com a corda, outro com a chave, outro com a maça, outros com tesouras, tenazes e martelos, Thenardier de faca em punho. A mulher pegou numa grande pedra que estava no recanto da janela e que servia de tamborete às filhas.
Javert pôs o chapéu na cabeça, deu dois passos para dentro do quarto, com os braços cruzados, a bengala debaixo do braço.
— Alto lá! — disse ele. — Não consinto que saiam pela janela. Hão-de sair mas há-de ser pela porta. Não é tão arriscado! Vocês são sete e nós somos quinze. Portanto, deixem-se de armar em valentões e sejam bons moços!
Bigrenaille pegou numa pistola que traziadebaixo da blusa e meteu-a na mão de Thenardier, dizendo-lhe ao ouvido:
— É Javert. Eu não me atrevo a disparar. Atreves-te tu?
— Ainda perguntas! — respondeu Thenardier.
— Então atira.
Thenardier pegou na pistola e apontou-a a Javert. Este, que estava a três passos, olhou para ele fixamente e apenas disse:
— Não atires, pateta, olha que erras o alvo!
Thenardier puxou o gatilho, mas errou o tiro.
— Eu não te dizia? — tornou Javert.
Bigrenaille atirou o cacete que trazia aos pés de Javert e exclamou.
— És um imperador dos diabos, portanto, rendo-me!
— E vocês? — perguntou Javert aos outros bandidos.
— Nós também! — responderam eles.
Javert replicou serenamente:
— Bonito, assim é que eu vos quero ver! Eu logo disse que não havia de haver dúvidas!
— Eu só peço uma coisa — tornou Bigrenaille —, é que me não neguem tabaco enquanto estiver no segredo.
— Concedido! — disse Javert.
E, voltando-se, disse, chamando para fora:
— Podem entrar agora.
A voz de Javert entrou de roldão pelo quarto dentro uma esquadra de cabos de polícia, de espada em punho, e de agentes armados de cacetes Toda esta mul dão de homens, apenas alumiada pelo escasso clarão de uma vela, enchiam o covil de sombra.
Apenas entraram, trataram de amarrar os bandidos, que não ofereceram resistência.
— Algemas para todos! — gritou Javert.
— Ora cheguem-se para cá — gritou uma voz que não era de homem, mas que ninguém poderia afirmar que era de mulher.
Era a voz, ou, melhor, era um rugido da Thenardier, que se entrincheirara no recanto da janela e daí soltara aquela ameaça.
Os agentes e os cabos recuaram ao aspecto da megera que a rara o xaile para o lado, ficando só com o chapéu. Por trás dela estava acocorado o marido, que mal se via oculto com o xaile que jazia no chão, e encoberto por ela.
Depois de estar alguns instantes com a pedra suspensa nos braços, levantados ao ar, baloiçando-se como um gigante que se apresta a atirar um rochedo, exclamou:
— Deixem passar!
Recuaram todos para o corredor, deixando um largo espaço vazio no meio da mansarda, e ela murmurou com acento gutural e rouco, depois de deitar um olhar aos bandidos que se tinham deixado amarrar:
— Cobardes!
Javert sorriu e dirigiu-se para o espaço vazio em que a Thenardier tinha os olhos fitos.
— Não se chegue para cá, já lhe disse, ou esmago-o! — gritou ela.
— Que granadeiro! — disse Javert. — Minha rica, tu tens barba como um homem, mas eu tenho unhas como uma mulher!
E continuou a caminhar para diante.
A Thenardier, desgrenhada, terrível, firmou-se nas pernas, deu um balanço ao corpo para trás e a rou desvairadamente a pedra à cabeça de Javert Este, porém agachou-se, a pedra passou-lhe por cima, foi de encontro à parede do fundo, fazendo cair um pedaço de cal, e voltou de ricochete ao meio do quarto, felizmente quase vazio, até parar aos pés de Javert No mesmo instante, Javert chegava junto dos Thenardier e exclamava, batendo com uma das largas mãos no ombro da mulher e com outra na cabeça do homem:
— Os anjinhos!