Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 227 de 359

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Os Miseráveis

I — A casa misteriosa

— Já?

— Imediatamente.

— Vamos. Como está contente! — acrescentou ela.

A rapariga, depois de dar alguns passos, parou.

— O senhor vem muito ao pé de mim, senhor Mário. Deixe-me ir mais adiante e siga-me assim disfarçadamente. Um rapaz como o senhor não deve ir ao pé de uma mulher como eu.

Não há língua que pudesse exprimir quanto havia nesta palavra mulher, pronunciada assim por uma criança!

Deu mais uns dez passos e tornou a parar; Mário chegou-se a ela, Eponina dirigiu-lhe a palavra, de lado, e sem se voltar para ele.

— É verdade; o senhor sabe que me prometeu alguma coisa?

Mário meteu a mão no bolso. Não possuía neste mundo senão os cinquenta francos destinados a Thenardier. Pegou neles e meteu-os na mão de Eponina.

A rapariga abriu os dedos, deixou cair o dinheiro no chão e disse, encarando-o com ar sombrio:

— Eu não quero o seu dinheiro!

LIVRO TERCEIRO — A CASA DA RUA PLUMET

I — A casa misteriosa

Por meados do século passado, desejando um presidente do parlamento de Paris ocultar, o mais que pudesse, uma mulher com quem nha relações amorosas, mandou construir «uma casinha» na deserta rua de Blomet, no bairro de S. Germano, hoje chamada Plumet, nas vizinhanças do local que então se denominava Combate dos Animais. Nessa época, o mesmo empenho que os grandes senhores punham em ostentar os seus amores, punham-no os burgueses em ocultar os seus.

Constava a casa a que aludimos de um único andar, em frente do qual se estendia um vasto jardim, fechado por um largo portão de ferro, que abria para a rua. Abrangia o jardim uma super cie de cem varas quadradas, pouco mais ou menos. Quanto ao interior da casa compunha-se de duas salas e uma cozinha no rés-do-chão, de dois quartos no andar nobre, além de um outro de ves r, e de um sótão entre o telhado e o andar nobre. Afora, porém, o que estava patente às vistas de quem passava, havia ainda um pá o estreito, sobre o qual deitavam as traseiras do edi cio, fechado no fundo por uma casa térrea, composta de duas saletas. Esta segunda casa, que dir-se-ia des nada a esconder das vistas da curiosidade um filho e uma ama, comunicava pela parte posterior, por meio de uma porta cuidadosamente disfarçada, com um estreito, comprido e tortuoso beco, embetesgado entre duas paredes de elevada altura, que, depois de costear por espaço de quase um quarto de légua todas as sinuosidades e meandros dos muros dos jardins, por onde quase seguia desapercebido, ia terminar a outra porta secreta, como a antecedente, num sí o ermo da extremidade da rua de Babilónia. Ambas estas portas tinham fechaduras de segredo.

Assim se introduziu o digno presidente no seu Éden de amor, sem que, ainda dado o caso que algum curioso, fazendo reparo nas suas diárias e misteriosas saídas, o espreitasse, pudesse, de longe ao menos, suspeitar que as suas frequentes visitas tinham por alvo, não uma casa da rua de Babilónia, como parecia, mas outra, e muito distante, na rua de Blomet. Para chegar a este resultado fora o engenhoso magistrado comprando astutamente todos os terrenos circunjacentes, até que, afinal, senhor indisputável deles, levou a cabo a sua empresa de viação secreta no que era legi mamente seu, e, por conseguinte, sem embaraço. Com o andar do tempo, viera a vender em diminutas parcelas, para hortas e jardins, os tratos de terreno con guos ao beco de um e outro lado, sem que aqueles a quem ele trespassou o domínio de tais terrenos sequer suspeitassem a existência daquele extenso viaduto, serpenteando misteriosamente por entre duas paredes, cobertas de plantas parasitas, que eles supunham ser um muro divisório entre quintal e quintal. Apenas os pássaros viam aquela curiosidade, e não pouco, segundo é de supor, dariam à língua à custa do digno presidente os melharucos e as toutinegras desse tempo, empoleiradas nas árvores em redor.

Era muito para se ver o aspecto daquela casinha construída de cantaria no gosto de Mansard, estucada e mobilada no gosto de Wa eau, aconchegada por dentro, alindada por fora, e como que donairosamente desabrochando de entre uma tríplice cercadura de flores, que lhe formavam um como pedestal de cores variegadas. Como que respirava um

ar de mistério, de garridice e gravidade, que perfeitamente condizia com um capricho de amor de um magistrado.

Há quinze anos, ainda ali se via a casa e o beco de que tratamos, e que hoje já não existem. Comprara-a em 1793 um caldeireiro com o intuito de a demolir, porém como não pudesse pagar o preço da venda, confiscaram-lhe os bens, e veio assim a acontecer que, em vez da casa, foi ele o demolido e ela a demolidora. Desde então conservou-se desabitada e pouco a pouco se foi arruinando, como acontece a todas, logo que a presença do homem deixa de lhes comunicar vida e animação. Con nha ainda a casa os primi vos móveis, e, apesar de estar longo tempo devoluta, nunca apareceu comprador ou arrendatário que a pretendesse. Assim o indicava o já amarelado e ilegível escrito que desde 1810 se balouçava preso ao portão do jardim, servindo de aviso às dez ou doze pessoas que anualmente transitavam pela rua Plumet.

Pouco antes do fim da restauração, notou-se o desaparecimento do escrito e ainda outra circunstância, que parecia indicar que a casa encontrara, enfim, moradores: viam-se abertas as janelas do andar nobre. Efec vamente, alguém habitava a casa, e era mulher, como o indicavam as «cortininhas» que pendiam das janelas.

Em Outubro de 1829, um sujeito, que já se não podia chamar novo, apresentava-se a alugar a casa conforme estava, incluindo, já se vê, a casa térrea situada nas traseiras da outra e o beco que ia sair à rua de Babilónia.

Como a casa es vesse quase mobilada com os móveis do seu primeiro possuidor, limitou-se o novo inquilino a mandar proceder a alguns arranjos, restaurando o que precisava de reparos e em sí os acrescentando o que faltava. Mandou ladrilhar o pá o das traseiras, em parte danificado, rebocar os telhados, compor a escada, a que faltavam alguns degraus, consertar o soalho, em sí os esburacados, e colocar vidros nas Vidraças, do que muitas careciam.

O seu primeiro cuidado, porém, fora restaurar as duas fechaduras de segredo, que o presidente havia mandado pôr nas duas portas do princípio e do fim do beco.

Finalmente, concluída as necessárias reparações, nela foi estabelecer-se, acompanhado de uma menina e de uma criada velha, sem a costumada azáfama que habitualmente acompanha uma mudança e mais como quem entra sorrateiramente do que quem toma posse do que é seu. Farto tema daria tal circunstância às conversas dos vizinhos, se, pela simples razão de os não haver, não vesse passado inteiramente despercebida.

O novo inquilino, de cuja mudança ninguém se ocupou, era nem mais nem menos do que Jean Valjean e a jovem que o acompanhara, Cose e. A criada, que se chamava Toussaint, era uma pobre criatura, a quem ele salvara da miséria e do hospital, quase úl mo paradeiro das infelizes como ela. Era velha, provinciana e gagá, três qualidades que poderosamente influíram, em Jean Valjean para a tomar ao seu serviço. Jean Valjean, que o leitor reconheceu, sem gastar nisso tanto tempo como Thenardier, não alugara a casa em seu nome, como é bem de supor, mas sim sob o nome de Fauchelevent e a inculcada qualidade de rendeiro.

Que se tinha passado que obrigara Jean Valjean a sair do convento de Petit-Picpus?

Não se passara nada.

Se bem se recordam os leitores, Jean Valjean vivia feliz no convento, e tão feliz, que o mesmo excesso de sa sfação entrou a perturbar-lhe a consciência. Ver Cose e todos os dias; sen r nascer-lhe e desenvolver-se-lhe cada vez mais o verdadeiro afecto paternal; segui-la em espírito para toda a parte, como sua que era, e tão sua, que poder nenhum da terra lha poderia arrebatar; cevar-se na grata ideia de que este estado de coisas duraria indefinidamente, que nunca teria termo e que ela, suavemente atraída todos os dias para o estado religioso, viria, por úl mo, a professar, tornando-se então o convento, onde ele se ia fazendo velho e ela mulher, o Universo para ambos, como já era, sem que, esperança mais que todas fagueira, jamais viessem a separar-se, senão pela morte; tudo isto o trazia constantemente enlevado em deleitosos pensamentos.

Reflec ndo mais, porém, sobre o mo vo das suas alegrias, principiou a sen r-se perplexo. Entrou a dúvida com ele e resolveu interrogar-se. Perguntou então à consciência se a ventura que gozava na realidade lhe pertencia ou se não era a ventura alheia, a ventura daquela pobre criança, que ele, um velho, indevidamente se estava apropriando; se isto não era um roubo. E a voz da consciência, interrogada, respondia-lhe que aquela criança nha direito a saber o que era a vida, antes de a ela renunciar; que cercear-lhe de antemão e de algum modo sem seu consen mento, todos os prazeres que se podem usufruir no mundo, sob pretexto de lhe evitar todas as provações que nele se experimentam, abusar da ignorância e do isolamento em que ela vivia para lhe fazer germinar uma vocação fic cia, era adulterar uma criatura humana e men r a Deus.

E quem podia afiançar que ela, chegada a idade de perfeitamente discernir tudo, vendo-se constrangida a um estado que lhe repugnasse, o não odiaria? Final pensamento, quase egoísta e menos nobre do que os outros, mas que Jean Valjean não podia suportar. Resolveu deixar o convento. Resolução, conquanto para ele em extremo dolorosa, necessária e prescrita pelo dever. Objecções da sua parte não as nha que opor. Cinco anos de residência entre aquelas quatro paredes, necessariamente deviam ter destruído ou dispersado qualquer mo vo de receio. Velho e tão mudado, podia voltar ao mundo sem receio, que ninguém aí o conheceria. Quem o havia de conhecer?