Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 207 de 359

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Os Miseráveis

XIII — Solus cum solo, in loco remoto, non cogitabuntur orare pater noster

— Agora — disse ele — vou sair. Tenho ainda de falar com mais alguém. Verás como a coisa caminha. Hei-de demorar-me o menos possível: é muito boa par da, tu ficas guardando a casa.

E depois de se conservar algum tempo pensa vo, com as mãos nos bolsos das calças, exclamou:

— Foi uma boa fortuna ele não me reconhecer também! Se me vesse reconhecido não voltaria, passava-nos o pé! Foi a barba quem me salvou! A barba român ca, a minha barbinha romântica!

E de novo desatou a rir.

Em seguida encaminhou-se para a janela. A neve con nuava a cair, fazendo um singular contraste com a escuridão do céu.

— Que tempo terrível este! — exclamou.

Em seguida acrescentou, cruzando o casacão:

— A pele é larga como o diabo. Não tem dúvida; o caso é que o tratante do velho fez bem em ma deixar! Se não fosse isto não teria podido sair e tudo ficaria perdido! Do que dependem às vezes as coisas!

E puxando o boné para os olhos, saiu.

Teria apenas tempo de dar meia dúzia de passos, quando a porta se abriu, e de novo apareceu o seu perfil inteligente e bravio.

— Esquecia-me dizer-te... É preciso que tenhas um fogareiro aceso E a rou para o avental da mulher a moeda de cinco francos que lhe dera o

«filantropo».

— O fogareiro? — perguntou a mulher.

— Sim

— Necessito comprar carvão.

— Aí tens dinheiro.

— Quantas medidas?

— Bastam duas

— São trinta soldos. Com o resto comprarei alguma coisa para o jantar.

— Ó diabo! Isso não!

— Porquê?

— Não gastes o dinheiro todo.

— Porquê?

— Porque hei-de também precisar de comprar uma coisa.

— O que é?

— É cá uma coisa

— E quanto te é preciso?

— Onde há por aí uma loja de ferragens?

— Na rua Mouffetard.

— É verdade, à esquina... Estou mesmo vendo a loja.

— Mas quanto precisas para o que tens de comprar?

— Três francos e cinquenta soldos.

— Fica grande coisa para jantar, não haja dúvida!

— Hoje não se trata de comer. Há mais em que pensar.

— Basta, minha jóia.

A estas palavras da mulher, Jondre e tornou a fechar a porta, e então Mário ouviu-lhe os passos afastando-se pelo corredor do pardieiro, descendo rapidamente a escada.

Ao mesmo tempo dava uma hora em Saint-Médard.

XIII — Solus cum solo, in loco remoto, non cogitabuntur orare pater noster Apesar de melancólico e distraído, era Mário, como dissemos, dotado de uma organização firme e enérgica. O hábito do recolhimento solitário, desenvolvendo nele a

simpa a e a compaixão, diminuíra-lhe talvez a faculdade de se irritar, mas deixara-lhe intacta a de se indignar; era benévolo como um brâmane e severo como um juiz; nha dó dum sapo, mas esmagava sem compaixão uma víbora. Ora, a sua vista acabava de penetrar num covil de víboras; era um ninho de monstros o que tinha diante dos olhos.

— Estes miseráveis devem ser esmagados com o pé — disse ele para si próprio.

Nenhum dos enigmas que esperava ver decifrar se aclarara; pelo contrário, todos se haviam tornado ainda talvez mais intrincados; não ficara sabendo nada mais acerca da formosa jovem do Luxemburgo, nem do homem que ele denominava senhor Leblanc, senão que Jondre e os conhecia. Através das tenebrosas palavras que ouvira, só percebera claramente uma coisa: que se preparava uma cilada, uma cilada obscura, mas terrível; que corriam ambos grande perigo, ela provavelmente, seu pai com toda a certeza; que era preciso salvá-los, que era indispensável destruir as combinações hediondas de Jondrette e romper a teia daquelas aranhas.

Por um momento contemplou a mulher de Jondre e, que fora a um canto buscar um usado fogareiro de ferro e que procurava o que quer que era entre os ferros velhos.

Em seguida desceu da cómoda o mais cuidadosamente possível, para não fazer a mínima bulha.

No meio do terror que lhe causava a maquinação que se preparava e do horror que lhe inspirava a família Jondre e, sen a uma espécie de alegria, lembrando-se de que lhe seria talvez dado prestar um tal serviço àquela que amava.

Mas como havia de fazer? Avisar as pessoas ameaçadas? Onde as encontraria se não sabia onde moravam? Tinham-lhe por um momento aparecido diante dos olhos, e logo depois mergulhado de novo nas imensas profundidades de Paris. Esperar o senhor Leblanc à porta, às seis horas, na ocasião em que ele entrasse, e preveni-lo do laço que lhe nham armado? Mas Jondre e e a sua gente vê-lo-iam de sen nela, o lugar era deserto, teriam mais força do que ele, teriam modo de o anular ou de o afastar, e aquele a quem Mário queria salvar ficaria perdido. Acabava de soar uma hora. A cilada devia efectuar-se às seis. Mário podia dispor de cinco horas. Em tal conjuntura não nha senão uma coisa a fazer.

Ves u, portanto, o casaco melhor que nha, pôs um lenço no pescoço, pegou no chapéu e saiu, sem fazer mais bulha do que se andasse descalço sobre relva.

Além disso, a mulher de Jondrette continuava a traquinar com os ferros velhos.

Apenas Mário transpôs o limiar da porta, dirigiu-se para a rua do Petit-Banquier.

Ia já no meio desta rua, junto de um muro muito baixo, fácil de saltar nalguns pontos, e que dava para um terreno inculto; caminhava vagarosamente, preocupado como era natural; e a neve que cobria a calçada abafava-lhe o ruído dos passos; de repente, ouviu umas vozes que falavam muito perto dele. Voltou a cabeça, a rua estava deserta, não via ninguém, era dia claro, e contudo ouvia falar distintamente.