Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 162 de 359

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Os Miseráveis

I — Um antigo salão

LIVRO TERCEIRO — O AVÔ E O NETO

I — Um antigo salão

Quando Gillenormand morava na rua Servandoni, frequentava muitos salões da mais alta nobreza, nos quais era admitido apesar da sua qualidade de burguês.

Como era um homem duplamente talentoso, porque não só possuía o talento que Deus lhe dera, mas o que os homens lhe atribuíam, era a sua presença desejada e até festejada. Não ia a parte nenhuma senão para lá dominar. Há gente que quer ter influência a todo o transe e que o resto das pessoas se ocupem deles, e, quando não podem ser oráculos, encarregam-se do papel de bufões. Gillenormand não era dessa natureza; o seu domínio nos salões realistas que frequentava, em nada desluzia o respeito da própria pessoa. Em toda a parte era oráculo. Chegava às vezes a fazer frente ao senhor de Bonald e ao próprio Bengy-Puy-Vallée.

Por 1817, Gillenormand ia invariavelmente passar duas tardes cada semana, a uma casa da vizinhança, situada na rua Férou, pertencente à baronesa de T..., senhora digna e respeitável, cujo marido, no reinado de Luís XVI, nha sido embaixador de França em Berlim. O barão de T..., que, enquanto vivo, vera a mono mania dos êxtases e visões magné cas, morrera emigrado e sem um real de seu, deixando por única herança dez volumes manuscritos, encadernados em marroquim vermelho e folhas douradas, de curiosíssimas memórias sobre Mesmer e a sua maravilhosa na. Por dignidade, a baronesa, deixara inéditas as memórias eruditas de seu falecido marido, e, para se sustentar, valiam-lhe alguns pequenos rendimentos, que não sabemos porque arte escaparam aos perniciosos efeitos do mesmerismo. Esta senhora vivia re rada da corte, que já não era a que fora, dizia ela, em pobre mas altivo e nobre isolamento. No meio da sua viuvez, porém, reuniam-se alguns amigos em torno do seu fogão duas vezes por semana, o que cons tuía um salão realista puro, onde se tomava chá e se soltavam, consoante soprava o vento da alegria ou do di rambo, lamentos ou gritos de horror contra o século, contra a Carta, contra os bonapar stas, contra a pros tuição das condecorações concedidas a qualquer plebeu, contra o jacobinismo de Luís XVIII, e onde muito em recato falavam das esperanças que dava o irmão do rei, depois Carlos X.

Ali eram recolhidas com transporte de alegria algumas can gas, em que as regateiras chamavam Nicolau a Napoleão. Duquesas havia, delicadas e formosas como poucas, que se extasiavam com coplas como esta, dirigida aos «federados».

Mergulhai dentro das calças

Patriotas, a camisa.

Cuja fralda está de fora

Que não digam que se arvora

A bandeira branca e lisa.

Passavam o tempo a fazer calemburgos, que se julgavam terríveis; em arranjar inocentes jogos de palavras, que supunham venenosos; em compor quartetos e até dís cos, como o seguinte, a respeito do ministério Dessolles, gabinete moderado de que faziam parte os senhores Decases e Deserre:

Pour raffermir le trône, ébranlé sur sa base,

Il faut changer de sol, et de serre et de case.

Outras vezes ocupavam-se em formar a lista da câmara dos pares. «Câmara

abominavelmente jacobina», combinando os nomes de modo a formar frases inteiras, como, por exemplo, a seguinte: Damas. Sabran. Goavion-Saint-Cyr.

Tudo prazenteiramente.

Ali se parodiavam as revoluções, havendo não sei que veleidade em afiar até as cóleras em sentido inverso.

Cantava-se ali também o seu: eia avante!

Eia avante! Eia avante! Eia avante!

Enforquemos os bonapartistas!

As can gas são como a guilho na; cortam indiferentemente hoje uma cabeça, amanhã outra. É apenas uma variante.

Por ocasião do processo Fualdès, que teve lugar naquela época, 1816, tomaram os frequentadores do salão da baronesa de T... o par do de Bas lde e Jausion, por Fualdès ser o «bonapar sta». Aos liberais denominavam-nos «irmãos e amigos». Era o úl mo grau da injúria.

Do mesmo modo que alguns campanários, nha dois galos o salão da baronesa de T...

Um era Gillenormand, o outro era o conde de Lamothe-Valois, de quem se dizia pela boca pequena com uma espécie de veneração: «Conhece? É o Lamo e da história do colar». Os partidos têm destas singulares amnistias.

Acrescentemos, porém, uma coisa. Entre os burgueses, as posições respeitadas perdem de valor pela demasiada facilidade com que se travam relações; é necessário tomar cuidado na escolha das pessoas com quem se há-de conviver; assim como os que se colocam ao pé de uma pessoa que tem frio sofrem uma perda de calórico, assim experimentam diminuição de consideração os que se juntam com pessoas desprezíveis.

A an ga aristocracia, porém, desprezava esta lei, como todas as outras. Marigny, irmão da cortesã Pompadour, nha entrada nos salões do príncipe de Soubise. Apesar do que era? Não: pelo que era. Du Barry, padrinho da Vaubernier, era graciosamente recebido e atenciosamente tratado pelo marechal de Richelieu, cuja casa era o Olympo, em que nem mesmo faltava um Mercúrio, que era o príncipe de Guemenée. Era admitido até um salteador, uma vez que fosse um deus.