Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 124 de 359

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Os Miseráveis

VII — Vários contornos desta sombra

Dismas et Gesmas, media est divina potestas;

Alta petit Dismas, infelix, infima, Gesmas,

Nos et tes nostras conservei sumtna poteeias.

Hos versus dicas, ne tu furto tuo perdas. 9

Estes versos, escritos em la m do século dezasseis, lembram a questão de saber se os dois ladrões do Calvário se chamavam, como vulgarmente se crê, Dimas e Gestas, ou Dimas e Gesmas. Esta ortografia talvez desaprouvesse no século passado ao visconde de

Gestas, que pretendia descender do mau ladrão. Como quer que seja, a virtude ú l que lhe anda apensa e artigo de fé na ordem das hospitaleiras.

A igreja do convento, construída de modo que separava, como um verdadeiro tapamento, o Convento Grande do Recolhimento, era, já se vê, comum ao Convento Grande e ao Convento Pequeno. Era até admi do nele o público por uma espécie de entrada de lazareto que deitava para a rua. Estava tudo, porém, disposto de tal modo, que nenhuma das habitantes do claustro podia ver um rosto de fora. Suponde uma igreja, cujo coro houvesse sido agarrado por uma mão gigantesca e encurvado de modo que formava, não como nas igrejas ordinárias, um prolongamento por trás do altar, porém uma espécie de galeria ou caverna escura, à direita do celebrante; suponde esta galeria fechada pela cor na de sete pés de altura, de que já falámos; amontoai à sombra daquela cor na, em assentos de madeira, as religiosas professas à esquerda, as recolhidas à direita, no fundo, as conversas e as noviças e tereis uma ideia das religiosas do Pe t-Picpus, assis ndo aos o cios divinos. Esta caverna, chamada o coro, comunicava com o claustro por um corredor, e as frestas da igreja deitavam para o jardim. Quando as religiosas assis am a o cios, em que a sua regra impunha o silêncio, o público só conhecia que elas estavam no coro pelo estrondo que faziam, abrindo os fechando os assentos móveis das cadeiras em que se sentavam.

VII — Vários contornos desta sombra

Durante os seis anos que decorrem de 1819 até 1825, a prioresa do Pe t-Picpus era Mademoiselle de Blemeur, que na religião se chamava madre Inocência. Descendia da família de Margarida de Blemeur, autora da Vida dos Santos da Ordem de S. Bento.

Havia sido reeleita. Era uma senhora de sessenta anos, baixa, gorda, «com voz de cana rachada», diz a carta que já citámos, excelente pessoa, porém, e a mais jovial de todo o convento, e por isso mesmo adorada.

A madre Inocência parecia-se com a sua ascendente Margarida, que foi a Dacier da ordem. Era literata, erudita, sábia, competente, historiadora curiosa, recheada de la m, enfrascada de grego, cheia de hebraico e mais beneditino do que beneditina.

A sub-prioresa era uma espanhola velha, quase cega, chamada a madre Cineres.

As mais notáveis entre as vocais eram a madre Santa Honorina, escrivã, a madre Santa Gertrudes, primeira mestra de noviças, a madre Santa Ângela, segunda mestra, a madre Anunciação, sacristã, a madre Santo Agos nho, enfermeira, a única religiosa má em todo o convento; depois a madre Santa Ma lde (Mademoiselle Gauvain), muito nova e dotada de uma admirável voz; a madre dos Anjos (Mademoiselle Drouet), que havia estado no convento das filhas de Deus e no do Tesouro entre Gisors e Magny; a madre S.

José (Mademoiselle de Cogolludo); a madre Santa Adelaide (Mademoiselle de Cifuentes, que não pôde resis r às austeridades); a madre Compaixão (Mademoiselle de Ia Mil ère, senhora riquíssima, recebida aos sessenta anos contra as prescrições da regra); a madre Apresentação (Mademoiselle de Siguenza), que foi prioresa em 1847; finalmente, a madre Santa Celínia (irmã do escultor Ceracchi), que depois endoideceu, e a madre Santa. Chantal (Mademoiselle de Suzan), que também depois enlouqueceu.