Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 130 de 359

Páginas do PDF

Os Miseráveis

III — Sob que condição se pode respeitar o passado

Eram quatro in pace. Em cada calabouço destes vêem-se restos de uma porta de ferro, uma latrina e uma trapeira gradeada, que por fora fica a dois pés acima da água e por dentro a seis pés abaixo do solo. Ao longo da parede correm exteriormente quatro pés

de água. O chão está sempre molhado. Esta terra húmida era o leito do habitante do in pace. Num dos calabouços vê-se um pedaço de uma golilha chumbada na parede; noutro uma espécie de caixão quadrado, formado de quatro lâminas de granito, demasiado curtas para caber nele uma pessoa deitada, demasiado baixas para a conter de pé. Pois metiam dentro uma criatura, com uma tampa de pedra por cima.

Existe isto. Vê-se. Toca-se. Que declamadores aqueles in pace, aqueles calabouços, aqueles gonzos de ferro, aquelas golilhas, aquela elevada trapeira, ao nível da qual corre a água do rio, aquele caixão de pedra fechado com uma tampa de granito, como um túmulo, com a diferença de que o morto ali era um vivo, aquele solo húmido, ou antes, grossa camada de lodo, aquelas latrinas de que ainda hoje se vêem os buracos!

III — Sob que condição se pode respeitar o passado

O monaquismo, do modo que exis a na Espanha e existe ainda no Tibete, é uma espécie de tísica para a civilização. Suspende rápido a acção vital do corpo social.

Despovoa de um modo simples. Claustração, castração. Foi um flagelo para a Europa.

Acrescentai a isto a violência, tão frequentes vezes feita à consciência, as vocações forçadas, a feudalidade que se apoiava no claustro, a primogenitura que ver a no monaquismo o excesso da família, as ferocidades de que acabamos de falar, os in pace, as bocas fechadas, os cérebros murados, tantas inteligências desditosas me das no calabouço dos votos, eternos, a profissão, o enterramento das almas vivas. Acrescentai os suplícios individuais às degradações nacionais, e, quem quer que sejais, sen r-vos-eis estremecer em presença da cogula e do véu, duas mortalhas de invenção humana.

Todavia, apesar da filosofia e do progresso, o espírito claustral persiste em pleno século XIX a respeito de certos pontos e em certos lugares, e uma estranha recrudescência espanta nesta ocasião o mundo civilizado. A teima das ins tuições envelhecidas em quererem perpetuar-se, assemelha-se à obs nação do perfume rançoso que nos reclamasse os cabelos, à pretensão do peixe podre que quisesse ser comido, à perseguição da roupa de criança que quisesse ves r o homem, à ternura dos cadáveres que voltassem a abraçar os vivos.

Ingratos!, diz a roupa. Protegi-vos do mau tempo e não quereis saber de mim!

Porquê? Venho do alto mar, diz o peixe. Fui a rosa, diz o perfume. Eu amei-vos, diz o cadáver. Fui eu que vos civilizei, diz o convento.

A isto uma única resposta: Noutro tempo.

Parece estranho haver quem pense na prolongação indefinida das coisas defuntas e no governo dos homens por embalsamação, quem queira restaurar os dogmas em mau estado, dourar de novo os retábulos, remoçar os claustros, tornar a benzer os relicários, mobilar outra vez as supers ções, reabastecer os fana smos, pôr cabos novos nos hissopes e nas espadas, recons tuir o monaquismo e o militarismo, quem acredite na salvação da sociedade pela mul plicação dos parasitas, quem pretenda impor o passado ao presente. Há teóricos, todavia, que professam estas teorias. O processo desses teóricos, aliás homens de espírito, é simplíssimo; aplicam sobre o passado um esboço a que dão o nome de ordem social, direito divino, moral, família, respeito aos passados, autoridade an ga, tradição santa, legi midade, religião, e vão gritando: «Vede! Olhai para isto, homens de bem!» Esta lógica também era conhecida dos an gos. Cobriam de greda uma novilha preta e diziam: «É branca, bos crétatus».